Você já ouviu sobre cultura do estupro, mas ouviu sobre cultura da pedofilia?

Postagem original está em inglês, é de Setembro/2015 e foi escrita por Alicen Grey, podendo ser acessada aqui: http://www.feministcurrent.com/2015/09/28/youve-heard-of-rape-culture-but-have-you-heard-of-pedophile-culture/

Tradução livre e adendo feitos por Maria V.


 

Querido Todd Nickerson,

Há alguns dias atrás você escreveu no site Salon um artigo provocativamente nomeado de “Eu sou um pedófilo mas não sou um monstro”. Presumivelmente, muitas pessoas agora estão se perguntando “É a pedofilia natural ?” ou “Pedofilia pode ser curada ?” mas eu não vou tentar responder essas perguntas em particular. Invés disso, eu gostaria de aprofundar esse discurso preenchendo os buracos enormes no seu artigo.

Vamos começar com esse pedaço que falta: a vasta maioria dos pedófilos são homens. E a maioria das crianças vítimas desses pedófilos são meninas. Esse é um detalhe gigantesco para ser escondido da sua plateia, você não concorda? Infelizmente, mesmo o patriarcado sendo universal e evidente, é geralmente o último detalhe mencionado em conversas dessa natureza – se é que é mencionado.

Com isso dito, a pedofilia pode parecer um tabu e desprezada pelas massas, mas uma avaliação honesta de nossa cultura mostra o contrário. Eu tenciono que pedofilia é, na verdade, premiada e celebrada, e que toda nossa cultura e entendimento da sexualidade está construída em volta do que parecem ser desejos pedófilos. Eu chamo isso de “cultura da pedofilia”.

Na cultura da pedofilia, é esperado das mulheres que mantenham um quase-impossível nível de magreza, pré-adolescente na sua quase-andrógina falta de curvas e gordura corporal. Devido a essa pressão, transtornos alimentares se tornam cada vez mais comuns em jovens garotas, e mulheres em particular são alvos durante toda sua vida de uma indústria multibilionária de perda de peso.

Na cultura da pedofilia, a categoria mais procurada no site de pornografia Pornhub é “adolescente” (“teen”). “Quase ilegais” “meninas” em uniformes escolares atuando tudo desde “manipulações com virgens”, fantasias de incesto entre pai e filha, faz de conta entre professor e aluna…você nomeie e estará lá, existirá pornô sobre, e punhetas estão sendo batidas assistindo aquilo aos milhões e milhões de vezes. É justo pressupor que a única coisa impedindo alguns desses homens de assistir direto à pornografia infantil são as leis sobre idade de consentimento.

Influenciada pela indústria pornô, a labioplastia, uma cirurgia que corta fora os pequenos lábios da vulva até ficarem parecendo as lascas de tamanho aceitável pelo pornô, vem crescendo rapidamente. O mesmo acontece com outros procedimentos, como himenoplastia, que “restaura” a vagina para ser “apertada” como de uma mulher “virgem”.

labioplastia

Na cultura da pedofilia, mulheres são pressionadas constante e agressivamente para depilarem com regularidade suas regiões íntimas e axilas. A indústria de cosméticos – onde novamente, o alvo são as mulheres – vende à torto e direito cremes e loções “anti-idade” que deixarão sua pele “macia como de um bebê”.

Na cultura da pedofilia, nós informalmente nos referimos a mulheres adultas como “garotas” “meninas”. Nós temos uma palavra específica para garotas jovens atraentes: “jailbait” (“isca para ir para prisão”, um equivalente no Brasil seriam as “novinhas”). Mulheres são sexualizadas como “gatinhas” e “baby’s”.

Na cultura da pedofilia, eu com frequência pego homens em público me sondando com olhos cheios de desejo, até eles verem pelos nas minhas pernas – quando então eles usam como recurso uma demonstração de nojo teatral. Eu já ouvi homens em grupos dizendo que não fazem sexo oral em uma mulher se seus lábios íntimos forem muito proeminentes. Um homem que estava tentando transar comigo há 3 anos rapidamente mudou de ideia quando revelei que eu não depilo e não depilarei meus pelos púbicos. Em outras palavras, muitos homens PARAM de se sentir atraídos por mim quando os lembro que sou uma mulher adulta, não uma jovem menina.

Com certeza todos esses homens, que tem uma “preferência” por essas qualidades mencionadas anteriormente, não são pedófilos quando se olha estritamente para a definição da palavra. Mas parece que um grande número de homens, muito provavelmente como resultado do forte condicionamento cultural, acha muitas das mesmas coisas atraentes em uma mulher que um pedófilo acha atraente em uma menina de idade escolar. Lábios íntimos pequenos, vaginas apertadas, hímens intactos, pele de bebê, falta de pelos no corpo e na vulva, jovialidade eterna, corpos fragéis…Como uma usuária do tumblr (reddressalert) escreveu, “como nós não reconhecemos que isso é essencialmente a descrição de uma bebê ou uma criança?”

Acréscimo da tradutora: além destas características físicas existem características psicológicas e emocionais que são as vezes indiretamente mas comumente exigidas das mulheres pelos homens como: falta de sabedoria/conhecimento, inocência, dependência, pouco controle sobre si própria (auto-determinação). Em nossa sociedade mulheres mais velhas são no mínimo rechaçadas e no máximo fetichizadas (“milfs”, “cougar” “mães que eu foderia” também são categorias da pornografia), raramente recebendo o respeito e possibilidades dadas aos homens mais velhos, que sequer recebem estes rótulos. O próprio processo de envelhecimento, natural a todo ser humano e criatura na Terra, é tornado, especialmente no caso das mulheres, como semelhante a uma doença que deve ser curada ou impedida. Estabelecer um clima de competição entre mulheres mais novas e mais velhas também é uma ferramenta patriarcal que mantém mulheres separadas e freia e desvaloriza a troca de saberes e a confiança entre elas. Em relação a aparência física outra característica que está presente em 99% das mulheres adultas é a celulite que assim como estrias, linhas de expressão e rugas, são totalmente naturais e não trazem nenhum prejuízo para saúde mas são tratadas pela sociedade e pelas indústrias como doenças e imperfeições, fazendo mulheres gastarem suas economias tentando curar-se de algo que não pode (e não precisa) ser curado visto que faz parte de um processo natural de amadurecimento e envelhecimento do corpo. Fim do adendo da tradutora.

De volta ao meu ponto original:

Eu preciso que você, e seus empáticos leitores, entendam essa verdade grave: pedofilia não é nem de perto um tabu, ou tida como vergonhosa e repulsiva para a sociedade como você argumenta que é. Eu gostaria que sim. Para o detrimento das mulheres em todo o mundo, seus desejos são refletidos de volta para você infinitamente, produzidos em massa em uma escala global para condizer com a sempre crescente demanda. Esse mundo, essa supremacia masculina, te recebe de braços abertos e cada desejo seu é como um comando. Eu ouso dizer que é mais seguro ser você mesmo neste mundo do que ser uma garota.

Você diz “Eu sou um pedófilo, mas não sou um monstro” e eu concordo totalmente com você, de coração. Você não é um monstro – você é um homem. E um homem bem comum. Uma representação microcósmica das corrupções patriarcais mais prevalentes. Você não é especial, você não é uma anomalia e você não está sozinho. Nem de perto. O que você tenta passar como “orientação sexual” nada mais é que uma manifestação dos desejos masculinos coletivos de subjugação das fêmeas em uma cruzada para assegurar a supremacia masculina a todos os custos.

Então, se ser “compreensiva e dar apoio” à sua pedofilia significa colaborar para construir machos que erotizam traços infantis em mulheres, e ensinar mulheres a manterem juventude eterna para não agravar suas inseguranças masculinas, então você não está pedindo por apoio – você está pedindo nossa submissão e subjugação. E assim como você diz “não existe nenhum jeito ético de atualizarmos completamente nossas ânsias sexuais” eu te digo: não existe nenhuma forma ética de requisitar cooperação dessas de nós que estão ativamente tentando desmantelar o sistema patriarcal que sua “orientação” representa.

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O sexo nunca, nunca era uma diversão: o que aprendi na prostituição

Postagem original está em inglês, é de Setembro/2015 e foi escrita por Rachel Moran, podendo ser acessada aqui: http://www.salon.com/2015/09/30/the_sex_was_never_ever_fun_my_lessons_in_prostitution/

Tradução livre feita por Maria V.


Quando um homem te paga por sexo você sentirá muitas coisas – desejo e excitação não serão uma delas.

Excerto de “Paga para: minha jornada na prostituição” por Rachel Moran, publicado por W.W. Norton and Co., Inc. Copyright © 2015.

Testumunho de uma dançarina erótica: “Ninguém, nem eu, nem as outras mulheres, gostamos de ser cutucadas, agarradas e fodidas por homens os quais não daríamos um minuto do nosso dia caso os tivéssemos conhecido em qualquer outro lugar.” Perry Morgan, “Vivendo no Limite”

Eu me lembro de uma noite, na clínica onde eu costumava ir tomar café e pegar camisinhas, um particular comentário humoroso feito a uma jovem prostituta por uma das mulheres mais velhas. Elas estavam discutindo uma inesperada onda na noite anterior e a mulher mais jovem mencionou como havia ido para casa exausta depois. “Ah claro” falou a mulher mais velha, “você provavelmente gostou!” Todas, incluindo eu, rimos muito. O humor – para os que não captaram – estava no absurdo da afirmação.

A verdade de fato é que a natureza da prostituição favorece atos sexuais por demais desagradáveis e ligados a degradação para permitir que diversão ou proveito prevaleçam. Claro, isso será um tapa na cara dos fetichistas, que fantasiam, mas a realidade da prostituição geralmente tem esse efeito neles. Os sentimentos de uma mulher aqui geralmente variam de desconforto á nojo extremo e apenas em situações únicas ou excepcionais a mulher na prostituição experienciará algo diferente disso. Isso para não dizer que essas experiências únicas e excepcionais não ocorrem. Para algumas mulheres elas ocorrem e quando ocorrem, ninguém está mais surpresa que a própria mulher. Eu saberia, porque em duas ocasiões isso aconteceu comigo.

Quando eu tinha dezesseis anos fui solta de uma medida judicial, cujo propósito era me manter detida para minha própria proteção. Não teve o efeito desejado. Os motivos para isso são claros, e eu ainda me pergunto como a vara infantil pode ser tão tola de imaginar que alguns meses de detenção teriam mudado minha vida e assim quando fui solta nas ruas não havia qualquer outra opção viável além da prostituição. Se eles tivessem um pingo de dedicação em me ajudar a mudar minha vida, eles teriam me detido por alguns anos e feito a condição de que eu seria solta uma vez que completasse algum tipo de treinamento, seja como administradora, cabeleireira, etc., e teria sido designada a mim uma oficial de condicional e uma assistente social que teriam assegurado que eu fosse colocada em algum estágio ou em uma posição de nível primário em algum escritório. Não seria tão difícil assim, poderia ter sido feito e eu sei que seria capaz de me dedicar a isso. De qualquer forma, isso não aconteceu; eu fui solta depois de alguns meses e foi nesse momento que fui viver em um bordel na rua Lesson.

O primeiro carro que parou para mim na minha primeira noite de volta as ruas era dirigido por um jovem rapaz por volta de 25 anos. Ele era atraente, não desrespeitoso nas suas maneiras, era tímido, quieto e não falou muito comigo no caminho para o motel. Quando chegamos lá eu percebi que estava excitada. Eu não via meu namorado da época a meses e não tinha tido nenhuma atividade sexual. Eu me dei conta repentinamente então de que sentia falta; eu sentia falta de ser abraçada e tocada. Eu disse então para ele que havia mudado de ideia, que eu faria penetração e então ele colocou uma camisinha e em minutos, tudo havia terminado. Ele tirou a carteira e perguntou quanto me devia. Era a primeira vez que eu havia feito algo sexual sem ser paga primeiro e eu sabia porque: não havia sido um trabalho.
Nada parecia mais anti natural do que aceitar dinheiro por algo sexual que eu queria que tivesse acontecido. Eu também nunca havia feito sexo com penetração por dinheiro ainda naquele ponto, eu nunca havia me vendido daquela forma e eu não queria poder dizer que havia. Eu disse para ele não se preocupar. Sem dúvida ele sabia que algo estranho havia acontecido mas era fácil não ver sua expressão no escuro. Ele me deixou de novo na rua e então eu fui de fato trabalhar.

O que aconteceu naquela noite não é algo que pode ser visto como prostituição. Um ato de prostituição havia sido pretendido por ambas partes mas não havia acontecido. O que aconteceu transcendia a experiência da prostituição: sexo penetrativo com desejo, com zero reservas mentais não é prostituição, e não poderia, na minha mente, ser encaixado como isso. Minhas colegas não compartilhavam da mesma visão. Todas concordaram que em não aceitar o dinheiro eu havia sido uma imbecil.

A segunda dessas experiências aconteceu aproximadamente 3 anos após essa. Eu estava na área de “acompanhantes” naquela época. Eu havia atendido o chamado na casa de um homem com um lindo rosto, com um sorriso gentil e relaxado e olhos marrons brilhosos. Ele me recebeu com um adorável sotaque britânico e me serviu uma taça de vinho branco. Eu quase nunca bebia quando me prostituía e certamente não com um cliente novo, mas por uma combinação de fatores eu quebrei as regras aquela noite com aquele homem.

Tudo na casa dele era quente e acolhedor; as cores, os cheiros, as texturas. Tudo tinha tons amarelados, amadeirados e tinha um cheiro de canela. O clima era muito agradável e neutro. Eu estava relaxada. Isso em si mesmo era muito incomum. Eu já descrevi como uma mulher na prostituição sabe quando precisa estar alerta: ela também sabe quando não precisa, mas como a primeira situação é de longe a mais comum, situações contrárias te pegam de surpresa.

Ele me contratou por duas horas e claramente não estava com pressa. Sentada no seu sofá eu me dei conta do quão pouca tensão havia em mim; Eu não estava preocupada com onde isso estava indo. Eu não estava me preparando mentalmente como eu geralmente fazia. Eu não estava construindo a parede, não completamente. Suspeitava que não parecia que ia precisar. A verdade é que havia algo sobre esse homem e esse ambiente que era relaxante e sedutor.

Quando fomos para a cama eu me dei conta de que não me incomodava com as mãos dele em mim. O primeiro indicador era que não sentia repulsa, como sempre ocorria. As mãos dele eram macias e firmes e me tocavam lentamente. Não eram invasivas, intrusivas e quando ele me tocou foi desde o meu pescoço até a curva do meu tornozelo; ele parecia adorar meu corpo inteiro com suas mãos. Ele não fez nada comigo fisicamente para significar sua dominância, o que era tão pouco familiar que me faz encaixar essa experiência como uma daquelas únicas em si mesma. Quando ele gentilmente abriu minhas pernas e entrou em mim, eu inadvertidamente soltei um suspiro. Então ele murmurou no meu ouvido: “Você não tem que fingir que gosta”. Foi aí que a natureza da experiência se modificou.
Esse era um homem com bastante modos. Aparentemente decente, ele parecia se importar. Apesar do ponto óbvio de estar me comprando, ele não era desrespeitoso (não seria possível eu sentir excitação se ele fosse) mas da maneira como ele me via e a minha parte nessa experiência: ele pensou que eu não iria gostar. Ele pensou que sabia que eu não iria gostar e, como tantos outros antes dele, a excitação dele dependia do fato de que eu não gostaria.

Imediatamente eu entendi isso e senti minha resposta se fechando. A parede havia levantado. Eu me senti desconectada do meu próprio corpo, como de costume, mas não pelos motivos usuais. Dessa vez eu não havia saído do meu próprio corpo; Eu fiquei dentro e descobri que não era bem vinda ali.

Foi bastante surreal, o resto daquele sexo. Eu estava mais distante de mim mesma do que jamais havia estado, e era um sentimento estranho e muito desconcertante, estar deitada ali sentindo todas aquelas sensações que seriam excitantes se eu tivesse sido bem vinda a habitar meu próprio corpo. Para aqueles que falam de prostituição como trabalho, saibam isso: a habilidade principal, mais essencial do “trabalho” de uma prostituta é aprender a ficar fora dela mesma para o seu próprio bem.

Então a respeito dessas duas experiências: a primeira não foi uma experiência sexualmente prazerosa dentro da prostituição; foi uma experiência sexualmente prazerosa que foi tirada do contexto da prostituição, porque prazer sexual não era congruente com esse contexto. E sobre a segunda experiência: poderia ter sido sexualmente prazerosa se eu não tivesse sido lembrada o quão excedente uma mulher na prostituição é. O corpo dela é útil – o resto dela é irrelevante, indesejável, não bem vindo. Somente se uma mulher for masoquista, fortemente excitada com sua própria degradação, seria possível para ela encaixar essa realidade como excitante.

Sobre a generalizada escassez de prazer sexual de uma prostituta, eu não preciso me perguntar sobre e mesmo se precisasse eu seria lembrada pelas lutas na disfunção sexual que experienciei enquanto escrevia esse livro, especialmente durante o período quando estava escrevendo muito e processando a quantidade gigantesca de memórias indesejáveis todos os dias.

O mito do prazer sexual da prostituta existe como uma de diversas táticas que são usadas para sanitarizar e normalizar a experiência na prostituição. Os motivos por trás disso são simples: se é visto como prazeroso para -algumas- mulheres, então não poderia ser tão ruim assim para mulheres num geral, poderia? Isso é sem sentido, e como a maioria das coisas sem sentido, existe por uma razão: para enquadrar a prostituição como aceitável. Não é a única tática utilizada com esse fim, existem muitas.

As duas isoladas e não usuais experiências que contei não apontam para existência de um prazer sexual na prostituição. Elas atestam o oposto, porque a primeira vez que experienciei prazer sexual de um homem dessa forma, a experiência teve que ser quase totalmente convertida em seu oposto antes de se tornar aceitável para mim; e na segunda vez que experienciei prazer ele teve que ser, necessariamente, rejeitado. Em ambos casos, minhas respostas com excitação eram incongruentes com a prostituição. O prazer feminino não é pertencente a prostituição, e ambos participantes intuitivamente entendem que não há lugar para isso ali.

Talvez minhas duas experiências sejam mal interpretadas ou compreendidas de maneira a servirem de evidência para aqueles que preferem ver a prostituição filtrada pelo prisma da erotica, mas uma pessoa que tira conclusões da lógica deduzirá que uma amostragem tão pequena não dá cor a experiência como um todo. A realidade simples é que se você é heterossexual e você conhece milhares de pessoas do sexo oposto ao curso de muitos anos, você provavelmente tem chance de achar que, pelo menos, um número pequeno desses tem apelo sexual. O fato de eu ter sentido isso por dois homens de milhares não atesta para nenhum tipo de prazer na experiência da prostituição; atesta para o oposto, porque com certeza haviam muito mais homens dentre eles que teriam tido apelo sexual para mim caso os tivesse conhecido de outra forma. Isso é apenas mais uma evidência da maneira na qual a prostituição polui as relações humanas interpessoais. A vasta maioria dos homens é imediatamente descartada como sem apelo sexual para mulheres prostituídas, por causa da maneira na qual eles se apresentam para elas. É apenas em excepcionais e únicas circunstâncias que algo acontece para fazer uma mulher se sentir de forma diferente.

A resposta de fato das mulheres na prostituição é algumas vezes reconhecida, inadvertidamente, pelas que propõem a prostituição:
Descrições do sofrimento psicológico que advém da prostituição as vezes vem de quem advoga por ela. Por exemplo, o Coletivo Neozelandês de Prostitutas escreveu em um panfleto não publicado que pessoas na prostituição sabem que deveriam dar um tempo do meio: quando cada cliente faz sua pele se arrepiar, quando sua mandíbula dói de tanto pressionar uns dentes em outros para evitar cuspir na cara do merda… (ou) quando você não consegue mais suportar olhar para o que vê no espelho. “ (Panfleto da NZPC por Michelle, 1994, em “Ruim para o corpo, ruim para a mente” de Melissa Farley)

Mulheres a quem esses conselhos precisam ser dados claramente não estão vivendo em um contexto de vida que é provável de causar excitação sexual.

O mito do prazer sexual na prostituição está em parte relacionado com um outro mito social que vai algo nas linhas de “mulheres na prostituição desejam ser resgatadas por um homem”. Esse mito se mantém na prostituição pelas falas de homens e não de mulheres. Nós estamos extremamente cientes de que se seremos resgatadas será apenas por nós mesmas. Esse mito foi exemplificado pelo filme “Uma Linda Mulher”, onde a personagem principal é resgatada da prostituição pelo amor de um homem. Eu não achei esse filme muito ofensivo, apesar de ter causado muitas reações nesse sentido nos circulos de prostituição. Eu me sinto assim porque não acredito que o filme tente pintar a prostituição como geralmente divertida. A personagem de Julia Roberts está claramente infeliz na prostituição e relata o fato em uma cena aos prantos. Eu achei, porém, que se os diretores quisessem de fato retratar a realidade da prostituição, nós deveríamos ter visto a personagem de Julia com mais de um comprador. Sobre a prostituta aqui ser retratada como se apaixonando por um de seus clientes: eu não acho que é um cenário impossível, mas é um altamente improvável. É possível se apaixonar em qualquer lugar na vida, mas existem algumas áreas onde você achará escassez de amor na experiência humana. Prostituição é uma delas.

Eu lembro quando tinha 15 anos e estava na prostituição só a alguns meses, quando mais um homem de 40 e poucos anos me pegou; este num feio carro verde. Eu lembro que ele olhou pra mim com os olhos saltando para fora do rosto e estava praticamente salivando enquanto me olhava. Ele dirigiu até um local que ele escolheu (esses eram os dias onde eu ainda não havia aprendido que era melhor tentar não deixar que o homem escolhesse o lugar) e quando ele parou o carro ele virou para mim e me contou o que estava em sua mente, o que o estava excitando tanto. Ele me contou que havia me visto na rua Blessington um ano antes e que havia ficado de pau duro quando olhou para mim. (O abrigo onde eu estava acomodada um ano antes ficava na rua Blessington. Eu tinha 14 anos na epóca). Ele disse que não podia acreditar na sorte dele de ter me encontrado um ano depois na rua Benburb. Eu sentei no carro enquanto ele agarrava meus seios, tirava seu pau para fora e enfiava os dedos na minha vagina, e eu me forcei a ficar dormente/entorpecida enquanto tentava bloquear na minha mente o que ele estava fazendo, junto com as memórias do ano anterior, o pensamento de como havia sido ingênua, e de como ele era uma porra de um merda de estar se comportando assim agora e de ter pensado aquilo já no passado.

Eu não posso enumerar as experiência que tive, mas eu posso claramente colocar um formato nas respostas que tive á elas. O ponto final é esse: quando um homem desconhecido, que te pagou 20 ou 200 para ter o prazer de ver você se retorcer, aperta seu clitóris com a ponta dos dedos enquanto enfia os dedos na sua vagina e simultaneamente morde e lambe seus mamilos com sua língua e dentes, você experenciará muitas coisas. Você vai lutar para bloquear mentalmente suas respostas internas. Excitação e desejo não estarão entre elas.

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Não, não é sua opinião. Você só está errado.

Esta tradução parcial não é de um texto feminista porém pareceu pertinente para muitos debates que temos. A postagem original está em inglês, é de Julho/2015 e foi escrita por Jef Rouner, podendo ser acessada aqui: http://www.houstonpress.com/arts/no-it-s-not-your-opinion-you-re-just-wrong-updated-7611752

Tradução livre feita por Maria V.


Eu já tive tantas conversas e trocas de e-mails com alunos nesses últimos anos onde eu os deixo irritados por simplesmente dizer que falar “Essa é a minha opinião” não tira a possibilidade de uma afirmação estar muito errada. Ainda me choca que alguns acreditam que essas 5 palavras de alguma forma dão “carta branca” para falar bobagens. E realmente me assusta que alguns desses estudantes pensam que educação que desafia suas ideias é equivalente a um ataque às suas crenças.
-Mick Cullen

Eu passo tempo demais discutindo na internet do que provavelmente é saudável, e a palavra que eu vim a odiar mais do que qualquer outra é “opinião”. Opinião, ou pior, “crença”, se tornou o escudo de cada noção mal construída que se alastra nas redes sociais.
Existe um erro comum de que uma opinião não pode estar errada. Antes de você se esconder atrás do seu Escudo da Opinião, você precisa se perguntar estas duas questões:

1. Isso realmente é uma opinião?
2. Se isso realmente é uma opinião o quão informada ela é e porquê eu me apego tanto a ela?

Eu te ajudo com a primeira parte. Uma opinião é uma preferência por ou um julgamento de algo. “Minha cor favorita é preta.” “Eu acho que menta tem um gosto horrível.” “Tal programa é o melhor programa da TV”. Todas essas são opiniões. Talvez elas sejam únicas para mim ou então massivamente difundidas com a população geral mas todas têm uma coisa em comum: elas não podem ser verificadas fora do fato de que eu acredito nelas.
Não existe nada de errado em ter uma opinião sobre essas coisas. O problema é gerado por pessoas cujas opiniões são, na verdade, falsas concepções. Se você acha que vacina causa autismo você está expressando algo factualmente errado, não uma opinião. O fato de você talvez continuar acreditando que vacinas causam autismo não move sua concepção falsa para o plano da opinião válida. Nem o fato de que muitos outros acreditam nessa opinião dá mais validade a ela.
Citando John Oliver, que no seu programa de televisão fez referência a uma pesquisa de opinião que mostrava que 1 em cada 4 americanos acreditava que mudanças climáticas não são algo real:

“Quem se importa? Você não precisa da opinião das pessoas sobre um fato. Daí você pode muito bem fazer pesquisas perguntando: “Qual número é maior, 15 ou 5?” ou “Corujas existem?” Ou “Existem chapéus?”

Talvez você tenha visto recentemente quando questões sobre a bandeira Confederada* começaram a aparecer por aí. Talvez seja sua opinião que a escravidão não foi a causa da Guerra Civil, mas os Artigos de Secessão do Texas citam a escravidão 21 vezes (direitos são mencionados apenas 6 vezes, e apenas uma vez em uma frase que não menciona escravidão ou então como pessoas brancas são muito melhores que pessoas negras). Eu preciso lembrar que algumas pessoas têm a opinião de que o Holocausto era falso e que a opinião delas não significa absolutamente nada para a realidade material?

*Nota: A bandeira confederada representa nos Estados Unidos a união de 6 estados escravagistas em 1861 que se juntaram politicamente para continuarem com a escravidão depois de um presidente abolicionista ter vencido as eleições. Ela portanto é uma representação de racismo, um símbolo de ódio racial.

Aqui entramos na segunda questão: a sua opinião é informada/educada e porque você acredita nela? Apesar de tecnicamente terem opiniões que não estão erradas elas podem ter menos valor simplesmente porque elas estão faltando com estrutura.

Aqui está um exemplo. Digamos que eu encontre um fã de um mesmo programa que eu como o “Doctor Who” e para este fã o melhor ator que já interpretou o “Doutor” foi David Tennant. Nada de errado aqui. Porém, aprofundando a discussão nesse assunto este fã me diz que não viu nenhum episódio anterior a 2005 ou nunca ouviu a época em que esse programa passava no rádio. Agora, é possível que mesmo que este fã tivesse feito isso ele teria continuado achando que David Tennant é o melhor intérprete mas também é possível que talvez seria Tom Baker, Paul McGann ou outro.
Em um mundo perfeito a pessoa simplesmente diria “Bom, o David Tennant é o meu favorito dos que eu já assisti”. Existem diversos motivos para não ter assistido as versões antigas do programa afinal não estão no Netflix, é um programa antigo e bastante extenso, conseguir as gravações de rádio pode ser caro financeiramente, etc. Ter atingido uma opinião estreita por um conjunto de informações também estreitas é simplesmente natural.

O que estraga tudo é quando um conjunto estreito de informações é presumido como sendo maior do que realmente é. Existe uma diferença entre acreditar em algo e ter informações as quais você simplesmente não sabia que existiam. É fácil acreditar, por exemplo que “brancos enfrentam tanta discriminação racial quanto pessoas negras” mas apenas se você é completamente ignorante para os fatos como a diferença de desemprego entre brancos e negros, que das 500 pessoas na lista de poderosos e ricos apenas 5 são negras ou para o fato de que dos 43 presidentes dos Estados Unidos 42.5 deles foram brancos.
Em outras palavras, você pode formar uma opinião em uma bolha e pelas primeiras décadas das nossas vidas é o que geralmente fazemos. Porém, eventualmente você vai se aventurar pelo mundo e descobrir que o que você achou que era uma opinião informada era, na verdade, apenas um pequeno pensamento baseado em pouca informação e nos seus sentimentos pessoais. Muitas, muitas, muitas das suas opiniões vão na verdade estar construídas por falta de informação ou simplesmente erradas. Não, o fato de você acreditar nela não a torna mais válida ou merecedora e ninguém deve respeito algum a sua opinião simplesmente porque ela é sua. A realidade não se importa com seus sentimentos.

9 coisas que realmente te tornam uma feminista melhor

Texto original de Setembro/2015, em inglês, por Meghan Murphy para a Feminist Current, link original : http://www.feministcurrent.com/2015/09/11/9-things-that-really-do-make-you-a-better-feminist-than-everybody-else/

Tradução Livre por Maria V.


Porque ler Bustle, você pode perguntar? Bom, naturalmente pelas hilárias listas como a que foi publicada ontem, chamada “9 coisas que não te tornam uma feminista melhor que os outros”. Eu vou te salvar uns minutos que você pode desperdiçar enquanto tira fotos do seu gato e fazer um resumo: Tudo que você faz é feminista e todos são feministas e também feminismo é o que quer que você diga que ele é!

Se sente melhor? Que bom. Eu estou ansiosamente esperando a próxima lista deles, “11 coisas que não tornam Marx um comunista melhor que você”. Você é dono dos meios de produção? E daí?! Não deixe ninguém limitar seu comunismo #comunismoéparatodos. Nasceu rico mas sempre se sentiu mais como um membro da classe trabalhadora por dentro? Nenhum problema. Tomar uma identidade proletária é uma ótima maneira de subverter o sistema de classes.

Mas estou divagando. O lado bom da lista do Bustle é que me inspirou a fazer uma lista própria. Aqui estão nove coisas que de fato te tornam uma feminista melhor:

1) Ser uma mulher

Você pode ser um aliado poderoso para feministas mesmo se você for homem, mas você nunca vai entender completamente a experiência de ser mulher. Porque mulheres são o grupo de humanos que é oprimido pelo patriarcado, como uma classe, e homens são o grupo dominante de humanos nesse sistema então mulheres são as que devem liderar o movimento em direção a sua libertação. Ser uma mulher é central para ser feminista porque feminismo é um movimento de e para mulheres. Enquanto homens também são impactados negativamente pelo patriarcado, no final das contas são homens que se beneficiam dele e mulheres que sofrem com ele nas mãos de homens. O melhor jeito de apoiar o movimento feminista, como um homem, é desafiar outros homens, o privilégio masculino e a violência masculina, De fato, isso é uma boa ajuda e nos salva tempo de ter que estar constantemente explicando para cada homem que conhecemos porque nós não somos de fato brinquedos sexuais. Você pode fazer tudo isso sem se chamar de feminista. Façam, não fiquem contando sobre, garotos.

2) Entender que feminismo não é um sentimento ou uma identidade mas um movimento político.

Feminismo não é sobre usar uma camiseta que diz “sou feminista”. Não é sobre dizer que você é feminista simplesmente por dizer mesmo que você não tenha interesse nenhum em libertar as mulheres da opressão patriarcal. É ok ser nova no feminismo e estar aprendendo – você não tem que saber tudo sobre o movimento para se juntar a ele, mas você tem que entender que não é uma palavra maleável, uma marca, ou um produto a ser ofertado, propagandeado. Ninguém nunca diria “Socialismo é o que você quer que ele seja! Você faz você, cara.” Porque isso é estúpido e também factualmente incorreto.

Se você acha que objetificar mulheres, assédio nas ruas, privilégio masculino, esteriótipos de gênero ou sexualização da violência contra a mulher são coisas boas e ok, então você não é feminista. Tirar uma “selfie”, casar, usar salto alto ou ganhar um bom salário não é feminismo (porém feministas as vezes fazem essas coisas, vê como funciona?). Porque feminismo não é sobre você como um indivíduo se sentindo pessoalmente “bem” ou “empoderada” no momento. Se sentir empoderada não necessariamente produz feminismo. Similarmente, se sentir “bem” não é o mesmo que empoderamento. Empoderamento, no contexto do feminismo, significa empoderamento social para um grupo de pessoas marginalizadas (neste caso, mulheres). É por isso que, por exemplo, posar nua e se sentir sexy numa revista de moda ou de pornografia talvez faça você se sentir bem individualmente (você receberá reforço positivo, se sentirá atraente, terá ganho financeiro, etc) mas não constitui “empoderamento” pois não faz nada para elevar as mulheres enquanto classe.

3) Parar com essa bobagem “anti-intelectual”

Por favor gente! Pensar não é algo ruim. Claro que você não precisa de um grau acadêmico para fazer o feminismo acontecer, óbvio! Mas na mesma linha, essa coisa de “foda-se toda ideologia, foda-se toda a teoria, yeah!” é contraprodutiva e ignorante. Não existe ativismo sem ideologia. Ideologia é o corpo de ideias que enquadra um movimento político. Nós precisamos disso, ou então como diabos vamos saber o que estamos fazendo? (Oi, o que foi? Nós estamos só tirando selfies e gritando “interseccionalidade” umas para as outras no Twitter? Ótimo! Foda-se a ideologia. Fodam-se os movimentos sociais. Uhul!). Da mesma forma, entender a história do movimento é uma coisa positiva. Garante que nós não “reinventemos a roda” de novo e de novo. Garante que nós não reescrevamos a história efetivamente apagando o trabalho e ativismo de milhares e milhares de mulheres que lutaram por alguns dos direitos que nós temos hoje.

Entender como pensar criticamente, entender a ideologia feminista, entender a história do feminismo – essas coisas não são para uma elite esnobe, essas coisas são a fundação. De outra maneira nós não atingimos nada e ficamos perdidas cegamente gritando “Poder para as vadias!” em direção ao abismo. Educação não é algo ruim, é algo bom que foi tornado inacessível para muitas pessoas pelo mundo. Mas educação não é o problema, o sistema é.

4) Entender que o feminismo não é sobre ser politicamente correta

Por favor não me entenda errado nessa aqui – ser feminista significa que uma deve ser respeitosa com as palavras e ações em relação as outras. Dizer e fazer a porra que quisermos quando quisermos é egoísta e irresponsável. Mas nossos esforços para evitarmos sermos ofensivas não precisam nos levar para o politicamente correto.

Ser feminista significa que você pensa criticamente sobre o mundo a sua volta. Você não toma nada como garantido e você questiona o status quo, as normas regentes. Você diz a verdade, mesmo que essa verdade deixe as pessoas desconfortáveis. Mudança deixa as pessoas desconfortáveis. Questionar ideologias dominantes deixam as pessoas desconfortáveis. Ser politicamente correta significa ter certeza que você não vai irritar ninguém e significa que você segue a ordem da linha partidária. A linha partidária pode ser “progressiva” ou “liberal”. Pode ser até mesmo uma linha partidária que alguns chamam de “feminista” mas é ainda assim uma linha partidária. No momento que você para de pensar por si própria, começa a repetir mantras que seus pares repetem sem pensar se aqueles mantras de fato fazem sentido, quando você para de ser corajosa, para de questionar a ideologia e as mensagens por trás do discurso popular, esse é o momento que você não é mais um agente de mudança e sim uma seguidora.

Muitas feministas hoje em dia estão com medo de dizer algo controverso e é deprimente pra caramba. Feministas jovens estão com medo de falar ou questionar o discurso popular com medo de serem rotuladas como intolerantes ou alguma versão de “fóbicas”. Ao invés de empurrarmos de volta, nós que estamos sendo empurradas. Discordância é algo bom. Sua habilidade de pensar por si própria e questionar ideias que são presumidas como corretas é crítica.

5) Não ser desrespeitosa com as mais velhas

Em que ponto ser desrespeitosa com as mais velhas se tornou aceitável no feminismo? Ah é…na Terceira Onda. Ok, então, nós entendemos que adolescentes rebeldes querem dar uma de “você não é minha mãe de verdade” e bater a porta na cara das mais velhas, mas nós não somos adolescentes rebeldes. Nós somos adultas. E se você é feminista é inaceitável utilizar como insulto a palavra “segunda onda”. Isso é ódio as mulheres, é anti-feminista e um lixo desrespeitoso com as que vieram antes de nós, e se você quer fazer isso parabéns, você está reproduzindo o trabalho do patriarcado. Mantenha sua ignorância e continue perpetuando noções sexistas de que mulheres que não são mais jovens são bobas, fora de moda, puritanas indo para o asilo jogar Bingo mas saiba que você não é feminista. Mulheres que estão a mais tempo no movimento provavelmente sabem mais do que você e nós não vamos a lugar nenhum sem elas.

6) Não acusar feministas de odiar sexo ou odiar homens como se fosse algo ruim

Mulheres estão permitidas a odiar homens e a odiar sexo. Odiar homens e odiar sexo é perfeitamente natural. Homens e sexo com homens tem sido a origem de traumas para incontáveis mulheres através dos séculos. Também é perfeitamente natural amar homens em particular e gostar de sexo. Nenhuma dessas realidades são coisas que deveriam ser usadas por feministas para insultar, atacar ou dispensar outras feministas. Ao acusar feministas que desafiam a violência masculina de “odiadoras de sexo” ou “odiadoras de homens” você está reforçando o lixo heteronormativo e alimentando os esteriótipos que dizem que feministas são simplesmente raivosas porque não estão sendo fodidas o suficiente. Essas acusações estão ligadas com a cultura de estupro – é a ideia de que homens podem foder mulheres até a passividade ou foder elas até a heterossexualidade. É a ideia de que apenas mulheres “fodíveis” são mulheres “de verdade”. É a ideia de que mulheres precisam de homens para serem pessoas completas e ainda – que elas existem apenas em relação aos homens. Estas ideias são anti-feministas.

Se uma mulher gosta ou não de homens, gosta ou não de sexo, não deveria ter qualquer peso no seu valor e não diz respeito a se a vida delas, suas ideias, palavras ou ativismo tem significado ou não. Aquilo que o feminismo luta contra é exatamente a noção de que a relação das mulheres para com os homens é o que as torna visíveis e valiosas como seres humanos. É similar ao atacar uma mulher dizendo que ela é feia. Mulheres não existem para serem olhadas ou para foderem com homens. Elas tem o direito de existirem por si próprias! Leve seu machismo lesbofóbico de volta pros fóruns de Direitos dos Homens. Eles amarão isso lá.

7) Não ser ativista do direito dos homens (MRA)

Falando em direito dos homens, sabe o que definitivamente te torna uma feminista melhor? Lutar pelos direitos das mulheres, não pelos direitos dos homens. E com isso eu quero dizer que, invés de lutar pelo direito dos homens de pagarem por um boquete, tente lutar pelos direitos humanos das mulheres, o que inclui a possibilidade de ter moradia e comida sem ter que prover boquetes aos homens. Um aspecto frequentemente não olhado, porém essencial do feminismo é a ideia de que mulheres são seres humanos. É isso mesmo! Nós somos radicais assim. E porque nós somos humanas e merecemos coisas como comida, água e abrigo, nós devemos poder ter acesso a elas sem ter que foder com homens estranhos ou sermos submetidas a abuso. Se você acha que homens tem DIREITO a sexo, você está no caminho errado. Ninguém tem direito a sexo. Não é um direito humano. Seu fetiche por mulheres asiáticas, pornô com garotas colegiais, chamar mulheres de putas enquanto puxa o cabelo delas e as sufoca não é uma parte inata da sua sexualidade. Só significa que você fica excitado desumanizando mulheres.

8) Entender que nudez e objetificação não são a mesma coisa

Feministas não odeiam os corpos nus de mulheres. Nós amamos os corpos de mulheres. Nós temos eles! Nós usamos eles todos os dias para coisas como comer, andar e abraçar filhotinhos de animais. Nós amaríamos se esses corpos pertencessem a nós, para nosso uso e prazer ao invés da população masculina.

Nossos corpos não existem para serem admirados, sexualizados ou fodidos. Eles existem para nós vivermos neles. Nossa cultura fundiu sexo e sexualidade em um nível tão alto que nós acreditamos que eles são uma coisa só. Mas eles não são. Objetificação pode “sentir” como algo sexy porque nós aprendemos a sexualizar a objetificação. Nós aprendemos a performar sexualidade invés de senti-la. O motivo pelo qual nudez feminina é tão preocupante não é porque feministas estão com medo de sua própria pele mas porque não é permitida a nudez feminina existir fora da pornificação. É por isso que as pessoas surtam quando veem mulheres amamentando em público. Porque nós pensamos que o único motivo para um seio estar para fora é para homens olharem para ele. Pare de transformar nossos corpos em material de ejaculação e talvez o “puritanismo” da sociedade se desmantele.

9) Pelo amor da deusa, pare de tentar fazer o feminismo parecer legal e bacana

Tornar o feminismo popular não funciona. Não porque eu não acho que feminismo não deveria ser popular mas porque para vender ele para as massas de hoje ele precisa ser tão diluído ao ponto de perder todo seu significado, (é só ver a lista Bustle original). Nós não precisamos nos vender. Nós não deveríamos ter que nos vender. Nós podemos manter nossos valores e ainda assim trazer mulheres para luta. Se pessoas não querem vir para a luta com o feminismo de fato porque elas não gostam do feminismo de fato, então talvez elas precisem de mais um tempo para pensar. Ou talvez elas não sejam feministas. Eu sou totalmente a favor da educação mas vamos fazer isso direito. Tornar o feminismo sexy e digestível para pessoas que não acham que o patriarcado é um problema não vai ajudar o feminismo. Ser feminista não significa que você não pode ser legal e bacana ou até mesmo atraente mas o feminismo de verdade não é sobre ser legal, bacana e atraente. Simplesmente não é tão divertido, legal, bacana ou atrativo. O que eu quero dizer é, nós estamos lutando contra coisas como abuso doméstico, estupro, escravidão sexual, incesto, pedofilia e feminicídio. Não é legal, divertido e sexy. Esse não é o ponto. Feminismo não é a porra de uma moda.

Comprar sexo não deveria ser legal

Texto original de Agosto/2015, em inglês, por Rachel Moran, fundadora do Espaço Internacional, que advoga pela abolição da prostituição e autora do livro de memórias “Paga para: Minha Jornada Pela Prostituição”.

Link para o texto original: http://www.nytimes.com/2015/08/29/opinion/buying-sex-should-not-be-legal.html?smid=fb-share&_r=2

Tradução Livre por Maria V.


DUBLIN – AQUI, na minha cidade, no início do mês, o conselho internacional da Anistia Internacional promoveu uma nova política clamando pela descriminalização mundial da prostituição. As pessoas que estão propondo isso argumentam que descriminalizar a prostituição é a melhor maneira de proteger “os direitos humanos das trabalhadoras sexuais”, apesar de que essa política se aplica igualmente a cafetões, donos de bordéis e homens que compram sexo.

O objetivo que a Anistia diz ter é remover o estigma das mulheres prostituídas para que elas estejam menos vulneráveis ao abuso operado nas sombras por criminosos. O grupo também está fazendo um chamado aos governos para “assegurar que trabalhadoras sexuais desfrutem total e igualmente da proteção contra exploração, tráfico e violência”.

O voto da Anistia surge no contexto de um prolongado debate internacional sobre como lidar com a prostituição e proteger os interesses das chamadas “trabalhadoras sexuais”. É um debate no qual eu tenho um risco pessoal – e eu acredito que a Anistia está cometendo um erro histórico.

Eu entrei na prostituição – como a maioria entra – antes mesmo de ser uma mulher adulta. Aos 14 anos eu fui colocada aos cuidados do Estado depois de meu pai cometer suicídio e por minha mãe sofrer de uma doença mental.

Dentro de um ano eu estava nas ruas, sem abrigo ou casa, educação, trabalho ou habilidades. Tudo que eu tinha era o meu corpo. Aos 15 anos, eu conheci um jovem rapaz que achou que seria uma boa ideia eu me prostituir. Como eu era “carne fresca”, eu era uma mercadoria com alta demanda.

Por sete anos eu fui comprada e vendida. Nas ruas, muitas vezes 10 vezes por noite. É difícil descrever o efeito psicológico total da coerção e o quão fundo destruiu minha confiança. No final da minha adolescência eu estava utilizando cocaína para tentar me livrar da dor.

Eu tremo quando ouço as palavras “trabalhadora sexual”. Vender meu corpo não era um trabalho. Não tinha nenhuma semelhança com os empregos comuns no ritual degradante de estranhos utilizando meu corpo para saciar suas vontades. Eu era duplamente explorada – porque aqueles que me cafetinavam e por aqueles que me compravam.

Eu sei que existem alguns que advogam que mulheres na prostituição vendem sexo como adultas que consentem. Mas as que fazem isso são uma minoria privilegiada – majoritariamente mulheres brancas, de classe média, ocidentais, em agências de “acompanhantes” – nem remotamente representativas da maioria global. O direito delas de vender não deveria pisar no meu direito e no de outras de não ser vendidas numa troca que caça e busca mulheres já marginalizadas por classe e raça.

O esforço para descriminalizar a prostituição no mundo não é um movimento progressista. Implementar essa política irá simplesmente calcificar na lei o direito dos homens de comprar sexo, enquanto descriminalizar cafetões não protege ninguém, a não ser os cafetões. Nos Estados Unidos, estima-se que a prostituição valha pelo menos 14 bilhões de dólares por ano. A maioria desse dinheiro não vai para garotas adolescentes como eu era. Mundialmente, o tráfico humano é o segundo maior negócio do crime organizado, ficando atrás do cartel de drogas e a par com o negócio de armas.

Nos países que descriminalizaram a prostituição, o legal atraiu o ilegal. Com apoio popular, as autoridades em Amsterdam fecharam boa parte do famoso distrito da “Luz Vermelha” (Red Light) – porque ele tinha se tornado um ímã para atividade criminal.

Na Alemanha, onde a prostituição foi legalizada em 2002, a indústria explodiu. É estimado que 1 milhão de homens pagam para usar as 450 mil garotas e mulheres todos os dias. Turistas sexuais não param de chegar, apoiando os “mega bordéis” que tem até 12 andares.

Na Nova Zelândia, onde a prostituição foi descriminalizada em 2003, jovens mulheres em bordéis me contaram que homens agora demandam ainda mais por menos, como nunca antes. E porque a troca é socialmente sancionada, não existe nenhum incentivo do governo de promover estratégias de saída para as que querem sair disso. Essas mulheres estão presas.

Mas existe uma alternativa: uma estratégia, originada na Suécia, que foi adotada por outros países como a Noruega, a Islândia e o Canadá e é as vezes chamada de o “Modelo Nórdico”.

O conceito é simples: torna a venda do sexo legal mas a compra ilegal – dessa maneira mulheres podem conseguir ajuda sem serem presas, assediadas ou pior e a lei criminal é usada para deter compradores pois são eles que alimentam o mercado. Existem inúmeras técnicas como operações em hotéis, propagandas falsas para inibir “clientes” e o envio de intimações judicias para o endereço domiciliar, onde as esposas dos homens acusados podem ficar ciente delas.

Desde que a Suécia passou essa lei, o número de homens que dizem comprar sexo caiu drasticamente (aproximadamente 7,5%, mais ou menos metade da taxa reportada por homens americanos). Em contraste, depois da vizinha Dinamarca descriminalizar a prostituição, a troca de sexo por dinheiro cresceu 40% em um período de 7 anos.

Contrário ao esteriótipo imaginado, o “cliente” comum não é mais um “perdedor”. Na América, uma proporção significativa dos homens que compram sexo tem frequentemente uma renda anual acima de 120 mil dólares e são casados. A maioria tem alta taxa de escolaridade e muitos tem crianças.

Porque não deixar então que as multas cobradas por comprar sexo desses homens privilegiados paguem pelo aconselhamento, educação e abrigo de mulheres? Afinal são eles que tem cartões de crédito e possibilidades de escolhas, não as mulheres e meninas prostituídas.

A Anistia Internacional propõe uma prostituição livre de “força, fraude ou coerção” mas eu sei pelo que vivi e testemunhei que prostituição não pode ser desvinculada de coerção. Eu acredito que a maioria dos delegados da Anistia que votaram em Dublin queriam ajudar mulheres e meninas na prostituição e erroneamente permitiram a eles mesmos ser vendida a noção de que descriminalizar cafetões e clientes de alguma forma atingia esse objetivo. Mas no nome dos direitos humanos, o que eles votaram foi pela descriminalização da violação desses direitos, em escala global.

A recomendação ainda vai ir ao comitê para a decisão final. Muitos dos líderes e membros da Anistia tem consciência que a credibilidade e integridade da sua organização está na linha com essa decisão. Não é tarde demais para parar essa política desastrosa antes que ela machuque mulheres e crianças mundialmente.

Os Usos do Erótico: O Erótico como Poder, por Audre Lorde

Artigo Original: Use of the Erotic: The Erotic as Power, in: LORDE, Audre. Sister outsider: essays andspeeches. New York: The Crossing Press Feminist Series, 1984. p. 53-59.

Tradução feita por Tatiana Nascimento dos Santos – Dezembro de 2009, retirada do Zine “Textos escolhidos de Audre Lorde” que pode ser acessado através do link: https://apoiamutua.milharal.org/files/2014/01/AUDRE-LORDE-leitura.pdf


“Há muitos tipos de poder: os que são utilizáveis e os que não são, os reconhecidos e os desconhecidos. O erótico é um recurso que mora no interior de nós mesmas, assentado em um plano profundamente feminino e espiritual, e firmemente enraizado no poder de nossos sentimentos não pronunciados e ainda por reconhecer. Para se perpetuar, toda opressão deve corromper ou distorcer as fontes de poder inerentes à cultura das pessoas oprimidas, fontes das quais pode surgir a energia da mudança. No caso das mulheres, isso se traduziu na supressão do erótico como fonte de poder e informação em nossas vidas.

Fomos ensinadas a desconfiar desse recurso, que foi caluniado, insultado e desvalorizado por pela sociedade ocidental. De um lado, a superficialidade do erótico foi fomentada como símbolo da inferioridade feminina; de outro lado, as mulheres foram induzidas a sofrer e se sentirem desprezíveis e suspeitas em virtude de sua existência. Daí é um pequeno passo até a falsa crença de que, só pela supressão do erótico de nossas vidas e consciências, podemos ser verdadeiramente fortes. Mas tal força é ilusória, porque vem maquiada no contexto dos modelos masculinos de poder.

Como mulheres, temos desconfiado desse poder que emana de nosso conhecimento mais profundo e irracional. Durante toda nossa vida temos sido alertadas contra ele pelo mundo masculino, que valoriza sua profundidade a ponto de nos manter por perto para que o exercitemos em benefício dos homens, mas ao mesmo tempo tempo a teme demais para sequer examinar a possibilidade de vivê-la por si mesmos. Então as mulheres são mantidas numa posição distante/inferior para serem psicologicamente ordenhadas, mais ou menos da mesma forma com que as formigas mantêm colônias de pulgões que forneça o nutrimento que sustenta a vida de seus mestres. Mas o erótico oferece um manancial de força revigorante e provocativa à mulher que não teme sua revelação, nem sucumbe à crença de que as sensações são o bastante.

O erótico tem sido freqüentemente difamado pelos homens, e usado contra as mulheres. Tem sido tomado como uma sensação confusa, trivial, psicótica e plastificada. É por isso que temos muitas vezes nos afastado da exploração e consideração do erótico como uma fonte de poder e informação, confundindo isso com seu oposto, o pornográfico. Mas a pornografia é uma negação direta do poder do erótico, uma vez que representa a supressão do sentimento verdadeiro. A pornografia enfatiza a sensação sem sentimento.

O erótico é um lugar entre a incipiente consciência de nosso próprio ser e o caos de nossos sentimentos mais fortes. É um sensoíntimo de satisfação ao qual, uma vez que o tenhamos vivido, sabemos que podemos almejar. Porque uma vez tendo vivido a completude dessa profundidade de sentimento e reconhecido seu poder, não podemos, por nossa honra e respeito próprio, exigir menos que isso de nós mesmas.

Nunca é fácil demandar o máximo de nós mesmas, de nossas vidas, de nosso trabalho. Almejar a excelência é ir além da mediocridade incentivada por nossa sociedade. Mas sucumbir ao medo do sentimento e trabalhar no limite é um luxo que só pode se permitir quem não tem aspirações, e essas pessoas são aquelas que não desejam guiar seus próprios destinos.Mas a demanda íntima pela excelência que aprendemos do erótico não pode ser mal entendida como exigir o impossível nem de nós mesmas nem das outras. Tal exigência incapacita todo mundo no processo. Porque o erótico não é sobre o que fazemos; é sobre quão penetrante e inteiramente nós podemos sentir durante o fazer. E uma vez que saibamos o tamanho de nossa capacidade de sentir esse senso de satisfação e realização, podemos então observar qual de nossos afãs vitais nos coloca mais perto dessa plenitude.

O sentido de cada coisa que fazemos é fazer nossas vidas, e a vida de nossas crianças, mais ricas e mais viáveis. Pela celebração do erótico em todas as nossas empreitadas, meu trabalho se torna uma decisão consciente – um leito muito esperado em que me deito com gratidão e do qual levanto empoderada. Obviamente, mulheres tão empoderadas são perigosas. Então somos ensinadas a separar a demanda erótica de quase todas as áreas mais vitais de nossas vidas além do sexo. E a negligência às satisfações e fundamentos eróticos de nossa práxis se traduz em desafeto por grande parte do que fazemos. Por exemplo, quantas vezes amamos de verdade nosso trabalho até mesmo quando temos dificuldades nele?

O maior horror de qualquer sistema que define o bom em termos de lucro mais do que em termos de necessidade humana, ou que define a necessidade humana pela exclusão dos componentes psíquicos e emocionais dela – o maior horror desse sistema é que priva de nosso trabalho seu valor erótico, seu poder erótico, e rouba da vida seu interesse e plenitude. Tal sistema reduz o trabalho a uma maquete de necessidades, um dever pelo qual ganhamos o pão ou o esquecimento de nós mesmas e de quem amamos. Mas isso é o mesmo que cegar uma pintora e dizer a ela que melhore sua obra, e ainda que goste de pintar. Isso não é só perto do impossível, é também, profundamente, cruel.

Como mulheres, precisamos buscar formas para que nosso mundo possa ser realmente diferente. Estou falando, aqui, é da necessidade de novamente avaliarmos a qualidade de todos os aspectos de nossas vidas e de nosso trabalho, e de como nos movimentamos através e até eles. A própria palavra erótico vem do grego eros, a personificação do amor em todos seus aspectos – nascido do Caos, e personificando o poder criativo e a harmonia. Então, quando falo do erótico, o estou pronunciando como uma declaração da força vital das mulheres, daquela energia criativa fortalecida, cujo conhecimento e uso estamos agora retomando em nossa linguagem,nossa história, nosso dançar, nossoamar, nosso trabalho, nossas vidas.

Há tentativas freqüentes de se equiparar a pornografia e o erotismo, dois usos diametralmente opostos do sexual. Por causa de tais tentativas, se tornou recorrente separar o espiritual (psíquico e emocional) do político, vê-los como contraditórios ou antitéticos. “Como assim, uma revolucionária poética, um traficante de armas que medita?”. Da mesma forma, temos tentado separar o espiritual do erótico, e assim temos reduzido o espiritual a um mundo de afetos insípidos, do asceta que deseja sentir o nada. Mas nada está mais distante da verdade. Porque a posição ascética é uma do mais grandioso medo, da mais extrema imobilidade.

A abstinência severa do asceta torna-se a obsessão dominadora. E não é uma que se embase na autodisciplina, mas sim na abnegação. A dicotomia entre o espiritual e o político é igualmente falsa, resultante de uma atenção displicente de nosso conhecimento erótico. Porque a ponte que os conecta é formada pelo erótico – o sensual –, aquelas expressões físicas, emocionais e psíquicas do que há de mais profundo e forte e farto dentro de cada uma de nós, a ser compartilhado: as paixões do amor, em seus mais fundos significados.

Além do raso, a tão usada expressão “me faz sentir bem” reconhece o poder do erótico como um conhecimento legítimo, pois o que ela significa é o primeiro e mais poderoso guia que conduz a qualquer entendimento. E entendimento nada mais é do que um colo que abriga justamente, e dá sentido, aquela sabedoria nascida do mais fundo. E o erótico é o nutriente e o embalar de toda nossa sabedoria mais profunda. O erótico, para mim, acontece de muitas maneiras, e a primeira é fornecendo o poder que vem de compartilhar intensamente qualquer busca com outra pessoa. A partilha do gozo, seja ele físico, emocional, psíquico ou intelectual, monta uma ponte entre quem compartilha, e essa ponte pode ser a base para a compreensão daquilo que não se compartilha, enquanto, e diminuir o medo da suas diferenças.

Outra forma importante por que o erótico opera é ampliando franca e corajosamente minha capacidade de gozar. Assim como meu corpo se expande com a música, se dilatando em reação a ela, escutando seus ritmos profundos, tudo aquilo que eu sinto também se dilata à experiência eroticamente satisfatória, seja dançando, construindo uma estante de livros, escrevendo um poema, examinando uma idéia. Essa auto-conexão compartilhada é um indicador do gozo que me sei capaz de sentir, um lembrete de minha capacidade de sentimento. E essa sabedoria profunda e insubstituível da minha capacidade ao gozo me põe frente à demanda de que eu viva toda a vida sabendo que essa satisfação é possível, e não precisa ser chamada de casamento, nem deus, nem vida após a morte.

Essa é uma razão pela qual o erótico é tão temido, e tantas vezes relegado unicamente ao quarto, isso quando chega a ser reconhecido. Pois uma vez que começamos a sentir intensamente todos os aspectos de nossas vidas, começamos a esperar de nós mesmas, e de nossos afãs vitais, que estejamos em sintonia com aquele gozo que nos sabemos capazes de viver. Nossa sabedoria erótica nos empodera, se torna uma lente pela qual fazemos um escrutínio de todos os aspectos de nossa existência, o que nos leva a examiná-los honestamente em termos de seus significados relativos em nossas vidas. E essa é uma grande responsabilidade, surgida desde dentro de cada uma de nós, de não nos conformarmos com o que é conveniente, com o que é falseado, convenientemente suposto ou meramente seguro.
Durante a segunda guerra mundial, comprávamos potes de plástico hermeticamente fechados com uma margarina incolor dentro, que vinha com uma cápsula pequena e densa de corante amarelo, posta como um topázio do lado de fora da embalagem clara. Deixávamos a margarina no sol um tempo, para amaciar, e aí furávamos a pequena cápsula na massa macia e pálida da margarina. Então, pegando a embalagem com cuidado entre os dedos, balançávamos cuidadosamente pra frente e pra trás, várias vezes, até que a cor estivesse se espalhado completamente por todo o pote de margarina, colorindo-a perfeitamente.

O erótico é esse cerne dentro de mim. Quando liberado de seu invólucro intenso e constritor, ele flui através de minha vida, colorindo-a com o tipo de energia que amplia e sensibiliza e fortalece toda minha experiência. Fomos criadas pra temer o sim dentro de nós, nossos mais profundos desejos. Mas quando aprendemos a identificá-los, aqueles que não melhoram nosso futuro perdem seu poder e podem ser mudados. O medo de nossos desejos os mantém suspeitos e indiscriminadamente poderosos, já que suprimir qualquer verdade é dotá-la de uma força insuportável. O medo de que não vamos dar conta de crescer além de quaisquer distorções que possamos achar em nós mesmas é que nos mantém dóceis, leais e obedientes, definidas pelo que vem de fora, e que nos leva a aceitar muitos aspectos da opressão que sofremos por sermos mulheres. Quando vivemos fora de nós mesmas, e com isso quero dizer que vivemos por diretrizes alheias unicamente, mais que por nossa sabedoria e necessidades internas, quando vivemos longe daquelas trilhas eróticas de dentro de nós mesmas, então nossas vidas estão limitadas pelas formas externas e alheias, e nós nos conformamos com as necessidades de uma estrutura que não é baseada na necessidade humana, e muito menos nas individuais.

Mas quando começamos a viver desde dentro pra fora, conectadas ao poder do erótico dentro de nós e permitindo que esse poder preencha e inspire nossas formas de atuar com o mundo que nos rodeia, então é que começamos a ser responsáveis por nós mesmas no sentido mais profundo. Pois ao começarmos a identificar nossos sentimentos mais profundos é que desistimos de nos satisfazer com sofrimento e auto-negação, e o embotamento que tantas vezes parece ser a única alternativa a isso em nossa sociedade. Nossos atos contra a opressão se tornam íntegros com sermos, motivados e empoderados desde dentro.

Em contato com o erótico, eu me rebelo contra a aceitação do enfraquecimento e de todos os estados de meu ser que não são próprios de mim, que me foram impostos, como a resignação, o desespero, o auto-aniquilamento, a depressão, a auto-negação. E sim, há uma hierarquia. Existe diferença entre pintar a cerca do jardim e escrever um poema, mas é uma só de quantidade. E não há, de onde vejo, nenhuma diferença entre escrever um poema maravilhoso e me mexer na luz do sol junto ao corpo de uma mulher que amo.

Isso me traz a uma última consideração sobre o erótico. Compartilhar o poder dos sentimentos de cada pessoa é diferente de usar os sentimentos de outra pessoa como lenço de papel. Quando não atentamos a nossas experiências, eróticas ou de outro tipo, não estamos compartilhando, e sim usando os sentimentos de quem participa conosco na experiência. E usar alguém sem seu consentimento é abuso.

Para ser utilizado, nosso sentimento erótico tem que ser identificado. A necessidade de compartilhar em profundidade de sentimento é uma necessidade humana. Mas na tradição européia-estadunidense, essa necessidade é satisfeita com certos encontros eróticos ilícitos. Tais ocasiões quase sempre se caracterizam por falta de atenção mútua, pela pretensão de chamá-las pelo que não são, seja isso religião, ou arrebatamento, violência da multidão ou brincar de médico. E esse chamamento torto à necessidade e ao ato faz surgir aquela distorção que resulta em pornografia e obscenidade – o abuso do sentimento.

Quando não atentamos à importância do erótico no desenvolvimento e nutrição de nosso poder, ou quando não atentamos a nós mesmas na satisfação de nossas necessidades eróticas quando interagimos com outras, estamos nos usando como objetos de satisfação, ao invés de compartilharmos nosso gozo no satisfazer, ao invés de estabelecer conexões entre nossas parecenças e nossas diferenças. Se recusamos a consciência do que estamos sempre sentindo, por mais confortável que isso possa parecer, estamos nos privando de parte da experiência, e nos permitindo ser reduzidas ao pornográfico, ao abusado, ao absurdo.

O erótico não pode ser sentido à nossa revelia. Como uma negra lésbica feminista, tenho um sentimento, um entendimento e uma sabedoria particular por aquelas irmãs com quem eu tenha dançado intensamente, brincado, ou até mesmo brigado. E essa participação intensa numa experiência compartilhada é, muitas vezes, o precedente à realização de ações conjuntas que antes não seriam possíveis. Mas as mulheres que continuam agindo exclusivamente sob as normas da tradição masculina européia-estadunidense não podem compartilhar facilmente essa carga erótica. Eu sei que ela não estava acessível pra mim quando eu tentava adaptar minha consciência a esse modo de vida e sensação. Somente agora é que encontro mais e mais mulheres-identificadas-com mulheres com bravura o bastante para arriscar compartilhar a carga elétrica do erótico sem dissimulação, e sem distorcer a natureza enormemente poderosa e criativa dessa troca.

Reconhecer o poder do erótico em nossas vidas pode nos dar a energia necessária pra fazer mudanças genuínas em nosso mundo, mais que meramente estabelecer uma mudança de personagens no mesmo drama tedioso. Pois não só tocamos nossa fonte mais profundamente criativa, mas fazemos o que é fêmeo e autoafirmativo frente a uma sociedade racista, patriarcal e anti-erótica.”

Como ex-prostituta, a sensação é maravilhosa de saber que agora existem lugares onde você não pode estar legalmente à venda

Para os homens, prostituição é como alugar um filme com o poder de escrever todo o script

Texto original de Junho/2015, em inglês, por Diane Martin: http://www.independent.co.uk/voices/comment/as-a-former-prostitute-it-feels-wonderful-that-there-are-now-places-where-i-could-not-legally-be-for-sale-10292236.html

Tradução Livre por Maria V.


É agora ilegal comprar sexo na Irlanda do Norte – e como uma sobrevivente da prostituição essa é uma medida que eu gostaria de ver extendida para o resto do Reino Unido. A Suécia foi o primeiro país a implementar essa lei em 1999, e em Março eu visitei Stockholm para conhecer aqueles responsáveis por desenvolver essa proposta, frequentemente referida como o Modelo Nórdico. Ela descriminaliza a venda do sexo e torna pagar por sexo uma ofensa criminal. É designada para dar fim a demanda de homens que pagam por sexo – a demanda que impulsiona o negócio da prostituição e do tráfico de mulheres para ela – e promover serviços de saída da prostituição especializados. É um modelo que eu tenho apoiado há muito tempo e minha visita apenas fortaleceu essa visão.

Para o que eu estava despreparada, porém, era para o impacto pessoal de estar em um país onde o acesso ao meu corpo, ou de qualquer um, não poderia ser legalmente comprado. Uma outra mulher na viagem, como eu, era sobrevivente da prostituição e nós compartilhamos o quão maravilhosa era a sensação de estar em um lugar onde nós não poderíamos estar legalmente a venda. Há quase 20 anos eu tenho trabalhado para apoiar mulheres exploradas através da prostituição e melhorar e desenvolver os serviços necessários para elas sairem e reconstruirem suas vidas. Minha experiência na prostituição começou a mais de 30 anos atrás, situada no suposto “alto nível” da prostituição em Londres, e depois traficada desse país para um círculo de prostituição em outro.

Eu cheguei a Londres no final da minha adolescêndia para me encontrar enganada sobre as circustâncias sobre onde estava. Logo o dinheiro acabou e a pressão começou; meus novos “amigos” agora eram menos amigáveis. Eu aprendi que as mulheres a minha volta não haviam adquirido seus apartamentos no Chelsea através de trabalhos como modelos. Eu acabei muito fora da minha zona e envolta por pessoas mais velhas que se deram conta de que poderiam fazer muito dinheiro comigo; não apenas o cafetão fica com uma parte, mas pessoas fingindo ser meus amigos que reconheceram minha vulnerabilidade e escolheram cultivar relações de controle comigo.

Eu fui de uma garota feliz e confiante para me encontrar de pé numa cobertura sendo “cuidada” por uma Madame (cafetina). Era como olhar acontecer em câmera lenta com outra pessoa. De repente eu estava num vestido de noite de marca as 5 da tarde no meio de Mayfair perguntando a um policial pelas direções que me tinham sido passadas, desejando que ele visse minha situação. Era como estar fora do meu corpo, olhando outra pessoa. Infelizmente o que estava por vir não era uma experiência extra-corporal. Eu lembro do estresse constante, da ansiedade e os sentimentos de pavor enquanto estava na prostituição; caminhando através de uma porta e imaginando em que estado eu sairia. Esperando ser pega, como algo em uma prateleira. A observação, a dissecação, ser a mercadoria que todos no cômodo sabiam que você era. Para os homens, a prostituição é como alugar um filme mas com o poder de escrever todo o script. Eles são o diretor, eles são a estrela, você é o acessório.

Quando as pessoas que estão te pagando por sexo são famosas, no governo, em cargos públicos, membros dos governos de outros país ou que possuem imunidade diplomática, você não tem confiança nenhuma de que acreditariam em você ou que você seria protegida se você reportasse violência ou estupro. Infelizmente, a melhor educação e oportunidade não os livram de comportamentos degradantes ou violentos. A sensação de direito que alguns homens acreditam ter em torno de algo pelo que pagaram atravessa todos os segmentos da sociedade. O papel de parede mais chique e o mini-bar não diluem a sensação quando alguém tem uma arma e te pergunta se você gostaria de ver sua mãe novamente. Estar numa suíte na cobertura de um prédio não suaviza o golpe do estupro ou de ter alguém deixando marcas de mordidas em todo seu rosto.

Porque será que mulheres prostituídas em todo o mundo empregam as mesmas técnicas psicológicas de coping que vítimas de abuso sexual? Porque abuso sexual é o que está acontencendo; mas nós não devemos acreditar nisso porque devido a dinheiro ter sido trocado ou uma moradia, ou comida, o que está acontecendo agora é magicamente outra coisa. Eu falo da minha experiência para desafiar a hierarquia da vítima merecedora e a narrativa prevalescente que diz que locais fazem toda a diferença. Eu quero que seja perto de impossível para o crime organizado, cafetões e apostadores operarem aqui e eu quero fazer parte de uma sociedade que rejeite a idéia de que pessoas estão a venda.

A meia noite, a Irlanda do Norte comunicou para sua população e para o mundo que mulheres não estão mais a venda. Para o resto do Reino Unido o negócio segue como sempre. E que negócio lucrativo é para os exploradores, os cafetões e os traficantes – e que custoso é para meninas e mulheres que se encontram na ponta da demanda masculina para seus corpos. Nós temos que decidir como sociedade se vamos nos levantar contra uma poderosa indústria do sexo e estar do lado das exploradas ao invés do dos exploradores.
Eu me pergunto quanto tempo vai demorar para que o resto do Reino Unido terá que esperar até sejamos capazes de colocar o sinal de “NÃO ESTÁ PARA VENDA”.