Isto não é sobre J.K Rowling:

Do direito das mulheres a opinarem sobre categorias usadas para tratarem de suas pautas e o problema da centralidade da linguagem desacompanhada de materialidade

As mulheres há literalmente milhares de anos, vem sendo definidas por homens. Uma imensidão de filósofos clássicos e pensadores homens, considerados canônicos, tem definições machistas sobre o que é uma mulher. Mas você não verá Platão, Kant, Rousseau, Aristóteles ou centenas de outros, sendo cancelados por aí ou seus escritos sendo abandonados ou eliminados de currículos acadêmicos. E nem estou aqui advogando para que isto seja feito (apesar de que seria imprescindível a inclusão de análises feministas sobre estes tratados além de aumento de escritoras mulheres nas bibliografias básicas).

Acredito que dificilmente você já tenha lido um texto dizendo para não ler mais Shakespeare, pois em Hamlet ele equipara a mulher a fraqueza, ou cancelarem Drummond, Vinicius de Moraes e tantos outros autores de frases obviamente machistas.

Algo que você de fato vê, dentro do campo progressista, é uma discussão sobre separar a arte de homens que violentaram física e sexualmente mulheres, de suas obras. Isto é colocado como um campo em disputa, em forma de pergunta: será que devemos separar as obras dos criadores? Tenho certeza que um texto assim já pipocou em um algum lugar para você. Mas quando estamos falando de mulheres e sobre acusações muito menos graves do que violência doméstica ou estupro, a aura de abertura para um diálogo some. A mulher da vez se torna a incorporação do mal encarnado na terra e ponto final. Então vamos ao gatilho disparador deste texto: o tuíte sarcástico de J.K Rowling mostrando descontentamento com a definição “pessoas que menstruam”.

Talvez você pense que este é um texto para defender J.K Rowling. Como o título diz, não é. Não vim salvar Rowling de nada porque, apesar de ela já ter sido uma mulher pobre, uma mãe vítima de violência doméstica e uma autora iniciante que publicou livros com uma sigla que não revelasse que ela era mulher, pois tinha ciência do ônus que isso traria, atualmente ela está num lugar de poder muito maior do que o meu. Acho até que é por isso também que ela ousa falar enquanto eu me vejo forçada ao anonimato ao redigir este texto. Então se isto não é uma defesa de Rowling, o que é?

Como o longo título diz, gostaria de tratar principalmente de dois pontos aqui. A problemática de se considerar a desconstrução da linguagem como central em detrimento de mudanças materiais no que tangem hierarquias estruturantes da sociedade e também o direito das mulheres de terem opiniões sobre a forma como são definidas e nomeadas. Este é um direito que raramente temos, mesmo nos dias de hoje, século 21. E se você sabe algo de filosofia e história do Ocidente, sabe que historicamente foram os homens que davam definições sobre o que é uma mulher e inclusive sobre como funcionavam nossos corpos, calcando nestas ficções masculinas as justificativas para sua suposta superioridade e conseqüente domínio sobre nós. A racionalização masculina sobre o machismo, consagrando-o como direito, repercutiu e repercute na atualidade. Falando do Brasil pós-colonização, é apenas com a constituição de 1988 que temos um passo marcante na igualdade jurídica entre homens e mulheres.

Ou seja, faz meros 32 anos que homens e mulheres são, constitucionalmente, iguais perante a lei. Você consegue ter noção da magnitude sobre o quão recente é a realidade jurídica de não ser mais sub-humanas, sub-pessoas perante a lei? E claro, aqui estamos falando apenas da constituição. Inúmeras leis e normas sociais seguem determinando que não, as mulheres não são vistas como pessoas que merecem a mesma integridade física, psicológica e econômica que pode ser acessível aos homens (um acesso que passa também por questões ligadas a etnia e classe).

Sobre linguagem

Então vamos ao nosso primeiro ponto importante sobre esta questão. Afinal, porque feministas estão interessadas neste debate sobre como mulheres serão categorizadas e definidas? Seria muito mais simples ceder à nomenclatura politicamente correta do momento e evitar os diversos desgastes da disputa, que muitas vezes incluem prejuízos econômicos e no campo do trabalho, para não mencionar o terrorismo psicológico da perseguição.

Pela minha introdução, acho que você já entendeu que não se trata de um preciosismo a troco de nada. Não se trata de termos algum fetiche ou apreço sem sentido sobre palavras como “mulher” ou “mãe”. Não falamos que há peso e importância no uso de palavras como “mulher” porque não temos nada melhor para fazer, porque gostamos de “tretas” ou porque somos sectárias dotadas de mau-caráter inerente, que querem ver pessoas trans sofrerem. Nada disso. Somos defensoras dos direitos humanos. E se não vivêssemos sob um patriarcado, se não vivêssemos em uma sociedade onde secularmente as diferenças são hierarquizadas para submeter um grupo ao outro, estaríamos pouco nos lixando sobre qual nome é dado a quem. Mas não é este o caso, infelizmente.

Por que quando estamos falando de políticas públicas, é importante fazermos uso, mesmo que estratégico, de categorias como mulher ou mãe/maternidade? Por que quando falamos de direito a interrupção voluntária da gravidez é importante fazermos o uso da categoria mulher? Porque quando falamos sobre direitos reprodutivos e sexuais, sobre menstruação, sobre gestação e puerpério, é importante fazermos o uso da categoria mulher? Não é pela vagina em si, o útero em si, ou um ciclo hormonal mensal que resulta na liberação de sangue em si. É porque, sob um patriarcado, estes órgãos e processos corporais foram instrumentalizados para nos explorar e oprimir em benefício dos homens. Soluções para estas questões que não reconheçam isto não podem ser soluções efetivas. Apagar a palavra mulher quando se fala sobre qualquer uma destas coisas, é deixar de visibilizar a desigualdade dentro da qual estamos inseridas. Curiosamente, nos dizem, é um apagamento em favorecimento da inclusão. Vi algum texto em inglês que diz que devemos falar “pessoas que menstruam” assim como em inglês se parou de falar “fireman” (bombeiro) para se falar “firefighter” (algo como “pessoa que luta contra o fogo”). É uma comparação injusta, porque apagar fogo não tem qualquer peso histórico relativo à opressão. Gravidez sim. Aborto sim. Menstruação sim. Maternidade sim.

Recentemente, Marília Moschkovich, que é doutora em sociologia, lançou uma série de tweets, afirmando que a categoria “mãe” é excludente, conservadora, transfóbica, “cisnormativa”, algo que só atrapalha, bem como a ideia de “feminismo materno”, a qual ela considera “horrível”. Ao longo dos tweets ela prega uma neutralidade de gênero na abordagem a estas temáticas e, como tem sido nos últimos tempos, não abre a questão para discussão. Apenas determina sob o alto de algum pedestal do saber no qual se colocou, que qualquer coisa diferente do que ela afirma ali é condenável, não é feminismo e é transfóbico.

Antes de apontar os problemas práticos do abandono dessa categoria, gostaria de fazer uma pequena retomada sobre a origem, desta agora fixação, da desconstrução da linguagem. Teorizações feministas descoloniais tem ganhado alguma força na atualidade, a fim de valorizar conhecimentos produzidos localmente no lugar da importação de teorias produzidas em países que se desenvolveram graças a colonização e exploração de outros. Teorias produzidas por pessoas européias e norte-americanas, em sua maioria, homens e brancos. As ideias que apresentam a linguagem como central na construção da realidade e que apontam a importância da desconstrução neste campo vêm justamente da academia e de filósofos pós-estruturalistas brancos europeus como Jacques Derrida. Eu poderia escrever mais longamente sobre problemáticas que surgem do pensamento pós-moderno, mas este texto já ficará grande o suficiente sem isso. Então o que vou ressaltar é 1. A ideia de desconstrução da linguagem não parte de movimentos sociais e sim do ambiente acadêmico (e não é do brasileiro). 2. O pensamento pós-moderno surge para criticar o pensamento moderno/estruturalista e é útil e tem sentido em muitos de seus apontamentos. 3. Ao mesmo tempo, ele também é falho em muitos sentidos, como toda teorização.

Aliás, um parêntese: esta busca pela teoria feminista ideal ou perfeita (muitas vezes no feminismo chamado de “vertentes”), onde a cada momento uma é denominada como sendo não apenas a melhor de todas, a mais completa de todas, mas como a única aceitável para produzir conhecimento e práticas feministas, tem sido prejudicial ao movimento. Esta idealização precisa ser abandonada. A ideia de “ondas feministas” serve meramente como instrumento histórico de organização temporal e não é factível pensar que em determinado período há apenas uma teoria base, como se não houvesse sempre disputas, e nem é factível pensar que quando surge uma nova teoria do momento isto significa que outras foram superadas e devem ser eliminadas.

Voltando a questão da linguagem, não há duvida de que ela é um instrumento que participa da modelação da realidade e que muitas vezes ela precisa ser alterada (ou “desconstruída”, se você estiver com muita tara pelo Derrida). Mas quando isso é feito da maneira como tem sido proposto, onde há uma forte busca pela alteração da linguagem em descompasso com mudanças na realidade concreta, os efeitos são não existentes ou nocivos.

Na prática, se abandonarmos a centralidade da palavra “mãe” e “maternidade” na luta feminista brasileira, como não apenas quer mas impõem Moskovich, haverá perda de direitos das mulheres brasileiras. Judith Butler, Donna Haraway, Derrida, Foucault e outros pós-estruturalistas tem produções interessantes, mas em primeiro lugar temos que lembrar que não falam a partir da realidade brasileira. Nosso país é muito mais precário, economicamente e em termos de direitos das mulheres, do que os países de origem dessas pensadoras e pensadores. Aqui, o Bolsa Família, em conjunto com outros programas sociais como o Minha Casa, Minha Vida, mudaram a realidade de muitas famílias. Mais do que programas de distribuição de renda, são também programas com viés feminista. Isto porque, no caso do Bolsa Família, as mulheres são, quase em totalidade, as titulares do programa, já que a realidade é que são elas as responsáveis pelos lares e filhos. No caso do Minha Casa, Minha Vida, há orientação específica para que o imóvel seja colocado no nome da mulher, da mãe, e não do pai. Isto porque o programa reconhece, em algum nível, a realidade brasileira do descompromisso masculino com a criação dos filhos, o abandono masculino de mulheres e crianças e a violência doméstica, logo, centraliza na figura da mãe o poder de ter um imóvel em seu nome.

Se você quer que a categoria “mulher” ou “mãe” seja alterada para que não reforce opressões através de papéis sociais determinados, primeiro você muda a materialidade desses papéis, fazendo com que os significados não sejam mais compatíveis com a realidade. Se atingirmos o fim do sistema patriarcal de gênero e vivermos em uma sociedade onde o cuidado é igualitariamente compartilhado, é possível que não faça mais sentido usar palavras como “mãe” e “pai”. O que não serve é meramente fazer uma alteração lingüística, sem qualquer alteração na concretude das vivências e experiências. Querer aplicar neutralidade de gênero em pautas que sequer existiriam se não houvesse uma hierarquia de gênero, é forçar um apagamento da realidade violenta na qual mulheres estão inseridas.

Eu entendo o apelo de querer centralizar a mudança na linguagem. É muito mais fácil mudar uma palavra do que mudar as condições materiais de existência. Mas isto muitas vezes não é útil, e muitas vezes é inclusive prejudicial.

Quando falamos do português, uma língua bastante generificada, há muito tempo, mesmo quando se dirigindo há um público majoritariamente composto por mulheres se usa o masculino. Há milênios é o homem a medida do que é universal. O homem é a humanidade. Aguentamos isso durante todas nossas vidas. Com mudanças mais recentes, em alguns espaços mais progressistas, já acompanhei de perto o furor masculino quando se é utilizado exclusivamente o feminino. Eles se sentem retirados do seu histórico lugar de poder (e de fato, de alguma forma, o estão sendo).

E de repente, quando há pouco tempo algumas se atrevem a iniciar uma inversão linguística, quando se começa a reconhecer a validade de utilizar a categoria mulher como marcação de uma luta, vem gente dizer que assim não está bom. E mais, que falar no feminino ou falar em mulheres é violento. Que se não aceitarmos a substituição da palavra mulher por categorias “neutras de gênero” recém-criadas, boa parte também na academia, somos monstras responsáveis pela morte e exclusão de pessoas trans, apesar das estatísticas demonstrarem claramente quem assassina pessoas trans, quem ganha com o destino de exploração sexual de pessoas trans e por aí vai (novidade: são os mesmos que matam a nós e que lucram com a nossa subserviência sexual e econômica). É impressionante como não temos uma folga. Os ataques ao feminismo vêm tanto do lado conservador como do lado progressista.

O que vocês precisam entender é que temos o direito de não querer “neutralidade de gênero” quando estamos falando de nossas pautas, pois elas só são nossas pautas pelo aprisionamento de gênero que nos foi incutido pela classe masculina. Precisamos poder nomear o público que é vitimado e nomear o publico que violenta ou lucra com a violência. No mínimo, temos o direito de participar da discussão sobre qual nome ou categoria será usada. No mínimo.

Sobre o direito a participação no debate: podemos falar?

Me é um tanto quanto chocante que eu tenha que estar aqui fazendo essa argumentação, sobre como temos direito de participar da discussão sobre categorias que serão aplicadas a nós próprias, e o direito a discordância (e como discordar dessas categorias não é “violento” mas um direito já que falam sobre nós, que também somos uma população em vulnerabilidade).

Porém é a este ponto que chegamos. Talvez você vá notar que meu tom vai mudar um tanto aqui. Pois estou cansada, irritada e desgastada com isso tudo, e com como temos tido que gastar energia nisso em vez de focar na derrubada dos sistemas que estão oprimindo e explorando a nós todas (ironicamente o Word está me solicitando que mude de “todas” para “todos”).

Então vamos lá. De decisões impostas a nós já temos boa parte da história da humanidade. Para além de podermos participar dessa discussão livre de violência, perseguição e alcunhas depreciativas, precisamos que parem de igualar o local de poder de mulheres aos de homens. Quando você abandona o masculino para usar o feminino ao falar para uma platéia, seja lá a composição desta, você está subvertendo uma opressão linguística secular e dando um novo lugar aos mais de 50% da população mundial que vêm sendo sistematicamente apagados. Quando você abandona o feminino para ser “gender neutral”, em especial em pautas que refletem a opressão e exploração de mulheres, você não está tirando de um lugar de poder uma categoria que historicamente o detém. Você está apagando uma história que há muito pouco tempo começou a ser reconhecida. Está invisibilizando questões que até a pouco não eram vistas como problemas, pois mulher tem mais que ser dependente dos homens mesmo, tem mais que apanhar mesmo, tem mais que engravidar mesmo, tem mais que servir sexualmente aos homens mesmo e toda a miríade de cristalizações masculinas sobre o que é “natural” das mulheres.

Eu e boa parte das feministas que você chama de TERF (ou seja lá qual for a gíria norte-americana do momento) reconhecemos que a excessiva universalização da categoria mulher pode ser problemática em diversos momentos, assim como em outros é estrategicamente útil. Sabemos que a realidade de mulheres brancas não é a mesma da de negras, que a das pauperizadas não é a mesma das economicamente estáveis, das heterossexuais não é a mesma das lésbicas e bissexuais, que a das estadunidenses não é a mesma das brasileiras. E justamente, as experiências trans também compõem outras realidades. Não queremos apagar estas intersecções. Não queremos lhe dizer que você não tem direito a respeito e integridade física, que você deveria ter menos direitos e oportunidades do que outras pessoas, que você não pode se dar o nome que quiser, vestir o que quiser e ser tratada/o pelo pronome que lhe é mais confortável.

Mas nós também temos que ter o direito de nos autodefinirmos. Nós, não-trans, também não podemos ter categorias impostas a nós sem nossa concordância ou o apagamento de categorias, políticas públicas ou locais/direitos que conquistamos a duras penas, há pouco tempo, e que de repente são infladas como sendo “privilégios” ou “excludentes”. Eu e muitas outras mulheres discordamos, por exemplo, da terminologia “cis” para se referir a nós. Somos feministas justamente porque não nos identificamos com a gaiola rosa de gênero na qual os homens nos fecharam e jogaram a chave fora, gaiola da qual lutamos para escapar todo dia. Então não, não venha chamar mulheres que não são trans de cis. Não estamos “do mesmo lado”, em termos de gênero, do que os homens ou do sistema que eles criaram porra nenhuma. E fazer essa equivalência é ofensivo, mas em algum momento perdemos o direito de nos ofendermos com essa denominação compulsoriamente atribuída a nós, criada dentro das universidades europeias e norte-americanas. Junto com ela, veio o “privilégio cis”.

Fomos de ser uma categoria oprimida, porque desde de antes de nascermos nos é acoplado um conjunto de papéis sociais devido ao nosso sexo, com a função de sermos exploradas pela classe masculina, para sermos privilegiadas caso não rompamos com estes papéis nomeando a nós mesmas como trans, apesar da maioria de nós sofrer e tentar romper com estes papéis ou parte deles em algum nível, em diversos momentos da vida. Se isto ficou confuso, vou tentar melhorar com exemplos. Uma mulher que não quer ter filhos está rompendo com o papel de gênero feminino. Uma mulher que quer ter filhos e quer que o pai divida os cuidados, está rompendo com o papel de gênero feminino. Mulheres que escolhem interromper uma gravidez estão rompendo com o gênero. Mulheres que não buscam se encaixar aos padrões estéticos estão rompendo com o gênero. Mulheres que se levantam contra o machismo (alou, nós feministas!!) estão rompendo com o gênero que lhes foi atribuído no nascimento. Mulheres atraídas sexual e afetivamente por outras mulheres estão rompendo com o gênero. E eu poderia seguir esta lista eternamente.

Pessoas que se denominam como trans vão enfrentar problemas que mulheres que não se denominam assim não vão enfrentar? Sem dúvida. Isto torna as que não são trans privilegiadas? Não.

Porque privilégio não é algo que alguém tem e você não. Privilégio é algo que uma classe de pessoas tem porque outra classe esta sendo suprimida de seus direitos. Privilégio de classe é uma parte da população ter muito acúmulo de lucro, terras, posses, porque tem uma outra classe econômica destituída disso. Privilégio branco são brancos tendo vantagens e regalias por explorarem e rebaixarem negros. O mesmo vale para privilégio masculino, benefícios que são frutos da exploração de mulheres (por exemplo, homens puderam e podem investir mais em suas profissões porque mulheres foram impedidas de fazê-lo, tendo como destino cuidar daquilo tudo que não era interessante a eles, como crianças, idosos, enfermos e tarefas domésticas). Ou seja, a base do privilégio é um grupo tendo determinado poder porque outro não tem este poder. Mulheres não trans (enquanto classe, pois privilégio é relativo à estrutura) exploram pessoas trans em termos de gênero? Qual poder mulheres não trans tem, enquanto classe, que advém da falta de poder de pessoas trans?

Lembrando que essa denominação, “trans”, sequer existia até pouco tempo, diferente das separações de raça, classe e sexo que podem ser historicamente traçadas. Mas talvez exista alguma exploração neste sentido que se configure como privilégio e eu não estou conseguindo enxergar. Podem me apontar se existe e não estou vendo. O que eu sei, o que sempre vejo sendo apontado como privilégio “cis” em mulheres, são direitos que conquistamos através de lutas. Ou privilégios que não são ligados a estrutura de gênero (afinal ela existe com a função de nos oprimir, poxa, como nos privilegia?) e sim a outros privilégios, como de classe econômica. Ou ainda, coisas que na realidade fazem parte de nossa opressão, como o “privilégio” de ser lida como mulher, de usar atributos definidos como pertences ao campo da feminilidade. Já vi também coisas esdrúxulas como o “privilégio” de menstruar, gestar e parir. Logo, as acusações constantes de “privilégio cis” em mulheres, acabam sendo mais uma forma de apagamento da nossa realidade de opressão generificada.

Nós, mulheres não trans, temos o direito de rejeitarmos a categoria “cis” sem sermos automaticamente taxadas de transfóbicas ou violentas. O mesmo com a ideia de “privilégio cis”. Fazemos isso por não encontrarmos respaldo na materialidade ao analisar estas questões, e não por capricho ou um latente ódio a pessoas trans.

E veja bem: quando digo que mulheres não tem “privilégios cis” eu não estou dizendo que mulheres são incapazes de ofender ou machucar pessoas trans. Não estou dizendo que todas as mulheres são santas, maravilhosas, aliás, longe disso. Não estou dizendo que mulheres estão sempre na posição de vítimas e nunca na posição de perpetradoras de violência. Mas nós não estamos sendo privilegiadas pelo sistema de gênero para termos “privilégio cis”. Feminismo é justamente reconhecer que o gênero nos oprime e dizer o contrário me parece anti-feminista.

Acho que é interessante também refletirmos sobre porque essa questão lingüística recai tão mais fortemente sobre o feminismo do que sobre outros movimentos sociais. Não estou advogando que se faça isso, mas por que não se reclama fortemente do movimento negro/preto por se chamar assim e centralizar pautas em torno dessa etnia? Por que não dizem que é excludente e que deveriam falar “pessoas não-brancas” e incluir todas as etnias (menos pessoas brancas)? O mesmo para povos indígenas. A desconstrução lingüística tem sido empurrada para o feminismo mais do que para qualquer outro lugar, e não entendo bem a razão. Só sei que sobre a categoria mulher, desde que ela entrou minimamente em espaços de poder como a academia, tem se feito de tudo para fragmentá-la. Às vezes com razão, mas muitas vezes sem. Aliás, é o movimento conservador que tenta destruir a especificidade das lutas e uniformizar tudo. Nas palavras do nosso ex-ministro da educação, “acabar com isso de povos indígenas, de cotas raciais, aqui é povo brasileiro porra”. É a este tipo de apagamento que a “neutralidade de gênero” não pode servir.

Vou fazer uma pequena parte deste texto específica para discutir sobre os homens, mas já vou inserir aqui isto: se homens brancos progressistas, de esquerda, não aderem massivamente a uma crítica do movimento negro para que se re-intitule de movimento não-branco, por que se sentem plenamente confortáveis dizendo para feministas que elas não podem usar apenas a palavra mulher quando acharem assim cabível? Logo mais vão criticar a própria palavra feminista e dizer para que nos intitulemos de “movimento dos não-homens cis”. Eu preciso explicar que usar coisas como “não-homens” ou “não-brancos” gera uma categoria de definição onde a centralidade da definição segue estando na hegemonia da masculinidade ou da branquitude? Que seria absurdo definirmo-nos como “não-homens”?

Afinal de contas, porque usamos a palavra feminista e não defensora de direitos humanos? Nas palavras de Chimamanda: “Porque seria desonesto.”. “Feminismo é parte dos direitos humanos em geral, claro — mas escolher usar uma expressão vaga como ‘direitos humanos’ é negar o problema específico e particular do gênero. Seria uma forma de fingir que não foram as mulheres que, por séculos, foram excluídas. Seria uma forma de negar que o problema do gênero tem a mulher como alvo. Que o problema não é o fato de você ser um humano, mas especificamente uma fêmea humana. Por séculos, o mundo dividiu os seres em dois grupos e prosseguiu excluindo e oprimindo um desses grupos. É apenas justo que a solução para esse problema reconheça esse fato.”

É 1 em cada 5 meninas na Índia que deixa a escola porque começou a menstruar. É para as mulheres que é dirigido, a milênios, os discursos de que o sangue menstrual é sujo, nojento e amaldiçoado. São as meninas e mulheres que foram, e em alguns lugares do mundo ainda são, afastadas de suas comunidades e confinadas em um espaço limitado todo mês porque estão em determinada fase do ciclo hormonal. Eu poderia seguir aqui com muitos exemplos. A recém chegada categoria trans não mudou essa realidade e nem muda a história até aqui. Não faz sentido excluir uma palavra que tem significado na representação de mais de 50% da população para aderir a um termo neutro, a fim de incluir uma pequena porcentagem que se enxerga de outra forma.

E falando em Chimamanda, ela já foi atacada por questões similares a Rowling. Por falar que entende mulheres trans como mulheres trans. Atacada por dizer que as experiências de mulheres trans, que nascem com privilégios que o mundo concede aos homens (sim, ao mesmo tempo também sofrem com o aprisionamento em uma identidade masculina, mas isso não elimina os privilégios da masculinidade – estes sim, privilégios-), são distintas das experiências das mulheres que assim foram designadas já no útero. Isto é uma realidade da qual não podemos mais falar? Aliás, já pouco falamos. Aqui no Brasil, que feministas que tem coragem de apontar os privilégios e violências masculinas de Laerte, cartunista que durante parte de sua vida como homem fez tirinhas machistas junto a outros homens machistas, incentivando até mesmo o estupro de mulheres e fazendo piada com isso? Laerte que foi pai, uma experiência dentro de um patriarcado, totalmente diferente da de ser mãe.

Nos EUA, que feministas foram as que tiveram coragem de dizer, quando Bruce Jenner (um homem rico conservador) se tornou Caitlyn Jenner, que sua carreira de atleta não seria possível ou certamente não seria a mesma coisa se ele tivesse nascido mulher? Que feministas tiveram coragem de mostrar o justo incomodo com as definições de Jenner em relação ás mulheres girarem em torno de estereótipos estéticos e psicológicos da feminilidade? Que feministas tem tido a coragem de dizer o óbvio, que não existe “cérebro de mulher” e “cérebro de homem” e que gênero é socialmente produzido como forma de limitar e subjugar as mulheres aos homens? (Você pode ler mais sobre Jenner e sobre questões de cérebro, gênero, e agressões a pesquisadoras e feministas que discordam aqui: https://cadernetafeminista.wordpress.com/2015/06/15/o-que-faz-uma-mulher/ )

Aliás, é horrível como se tem silenciado, inclusive professoras e pesquisadoras que trabalham com questões de gênero, por fazerem apontamentos relativos aos seus campos de pesquisa e de vida. Elas são chamadas agora de “feministas críticas de gênero” (oras essa, e eu aqui pensando que todas nós feministas, éramos críticas de gênero). De acordo com este artigo do The Guardian (https://www.theguardian.com/education/2020/jan/14/sacked-silenced-academics-say-they-are-blocked-from-exploring-trans-issues), as “feministas críticas de gênero” são definidas como “as que acreditam que gênero é construído socialmente, no lugar de ser inato”. Mas o que? Esta não é simplesmente a definição da palavra feminista? De repente, viramos nós as machistas, opressoras de nós mesmas, enquanto de certo, podemos chamar os cientistas do século XX, que mediam crânios pra apontar a inferioridade inata das mulheres, de feministas?

Vejam a cilada Bino: não podemos afirmar que existe materialidade no sexo e que isso se conecta com a opressão patriarcal de gênero quando estamos falando de questões que são usadas pela classe masculina para oprimir, explorar e diminuir mulheres como gravidez, violência obstétrica, direitos reprodutivos, menstruação, maternidade. Parece que agora devemos falar destas coisas sem usar a palavra mulher. E também não podemos afirmar que não existem cérebros femininos e masculinos porque gênero é inato e não uma hierarquia social construída por milênios para subjugar mulheres aos homens.

Ou seja, sexo não é inato e não tem nada a ver com biologia, mas gênero é inato e biologicamente determinado. Vocês percebem como isso vira o feminismo totalmente de ponta de cabeça? Imagino Beauvoir na atualidade, sendo fervorosamente cancelada.

Afinal de contas, do que podemos falar e como? Passem-nos a cartilha, já que parece ser um crime desenvolvermos nossas próprias posições críticas e teorias em um movimento criado por nós e para nós.

Falar em patriarcado ou sistema de gênero patriarcal muitas vezes já é mal-visto. Querem que usemos “cisnormatividade”, “cistema”, um termo que apaga totalmente os vetores de dominação e submissão, e que assim como “cis” e “privilégio cis”, trata da questão de gênero descrevendo homens e mulheres como se estivessem na mesma posição de poder. Haverá resistência sim, e não seremos forçadas a abandonar uma linguagem e teorias construídas a duras penas, e que reflete , analisa e combate um dos sistemas de dominação mais antigos, o qual submete mais da metade da população humana. Esta dominação acontece de formas diferentes e é afetada por fatores múltiplos (interseccionalidade), mas isto não muda o fato de que existem questões em comum. Até porque, se a generalização só for permitida caso não exista nenhuma multiplicidade, então toda generalização, seja sobre raça, classe, culturas, tempos históricos, etc teria que ser banida e impossibilitada. Se tudo que temos são indivíduos, com realidades particulares moldadas por uma infinitude de fatores imensuráveis, então nenhuma crítica social pode ser construída. Isso inclui qualquer coisa que se refira a “pessoas trans” como um grupo com alguma homogeneidade. Margaret Tatcher, a mãe do neoliberalismo, acharia bom. Nas palavras dela: “Não existe essa coisa de sociedade, o que há e sempre haverá são indivíduos.”.

O que J.K Rowling falou em um dos seus tuítes, foi justamente que “Se sexo não é real, a vivência da realidade das mulheres no mundo é apagada” e que “apagar o conceito de sexo remove a habilidade de muitas de discutir significativamente suas vidas. Não é ódio falar a verdade”. Concordo com ela e não vejo como possa ser transfobia dizer isto.

Concordo também que o feminismo tem que ser abrangente a fim de derrubar outros sistemas de exploração, que não incluem só o patriarcado, mas também o racismo e o capitalismo. Porém isso não significa que não tenha que haver centralidade da categoria mulher em diversos momentos, políticas, e pautas. Assim como o movimento trans centraliza suas pautas. Poucas pessoas trans e travestis compõem a luta pela legalização do aborto, as que compõem costumam serem homens trans. E você não fala mal do movimento trans por não olhar para isso. Aliás, em muito menos tempo, o movimento trans avançou em determinadas coisas mais do que feministas. Veja a idade para fazer uma cirurgia de “redesignação sexual” ou “afirmação de gênero”, ou a idade de iniciar um processo de hormonização ou bloqueio da puberdade e compare com a idade e os quesitos para fazer uma laqueadura. Nos casos trans, a idade mínima das cirurgias já era de 21 anos, agora foi reduzida para 18.

Então no Brasil, com 18 anos você pode ter a certeza de que quer mudar boa parte de sua estrutura corporal permanentemente (e com alguns processos que podem causar danos como incontinência urinária, e outros sobre os quais não temos estudos suficientes mostrando possíveis efeitos colaterais), mas você não pode fazer uma pequena incisão no abdômen para interromper processos de fecundação para evitar uma gravidez, algo que não tem quase nenhum efeito colateral.

Não conquistamos isso por que a autonomia reprodutiva seria uma dos maiores ataques ao patriarcado. Se de amplo acesso e desmistificada, em um país como o Brasil, seria revolucionária. Não é a toa que para Damares (e também Bolsonaro e sua corja), as feministas que lutam pela legalização são suas maiores inimigas. E quem apóia na prática este movimento, mesmo dentro do campo de esquerda, progressista, ou mesmo dentro do feminismo? Quase ninguém. Mas para correr e xingar muito no tuíter e perseguir feministas nas mídias sociais, não falta gente. Você vai ver a Coca-Cola colocando a bandeira LGBT e a pauta trans em seu marketing, mas você nunca vai ver nenhuma grande empresa apoiando a legalização do aborto, que no momento seria o que há de mais revolucionário em termos do desmantelamento da hierarquia de sexo/gênero no Brasil.

Algumas questões

Há uma forma de incluirmos pessoas trans e não apagarmos mulheres no feminismo? Feminismo e o movimento trans deveriam ser a mesma coisa ou existem algumas pautas que se somam enquanto outras antagonizam? Como unir tudo sob uma mesma alcunha quando existem tantas contradições sobre como cada parte trata e vê as questões de sexo/gênero?

Eu não tenho as respostas. O que eu sei é que temos o direito de falar sobre isso. Sei que se não pudermos falar sobre isso, não vamos descobrir respostas nem avançar nestes debates. E o debate de ideias e teorias precisa ser permitido. Veja bem, não estamos falando da Damares e do criacionismo aqui neste texto, nem do Bolsonaro e suas teorias racistas e misóginas, estamos falando de mulheres feministas e teorias feministas que não deveriam estar sendo cerceadas.

Como feminista, também advogo e vou seguir advogando que o cerne do debate sobre gênero não deveria ser no campo das identidades. Esta discussão é importante, mas se não parte do pilar de que gênero é uma invenção social milenar masculina, que resiste até hoje, para subjugar e limitar mulheres, que gênero é uma hierarquia criada por metade da população para oprimir a outra metade, então não é uma discussão que serve ao feminismo e a libertação das mulheres.

Silvio Almeida disse recentemente em entrevista que “a ideia da luta anti-racista não é simplesmente reforçar as raças, mas superá-las como uma forma de classificação dos indivíduos. A raça tem que ser superada. Mas para ser superada, é preciso reconhecer o que a raça é capaz de fazer na vida das pessoas, o mal que o racismo causa”. Ou seja, ele não propõe que parar de falar em raças é a forma de superar as raças, mas sim que se precisa de mudanças materiais que derrubem a hierarquização das raças, para que em um horizonte, raças não tenham mais significado. Da mesma forma, o lema do feminismo é “feminismo é a ideia radical de que mulheres são pessoas”. O horizonte feminista é que não exista mais gênero. Que não se acoplem quaisquer papéis sociais, psicológicos e econômicos as pessoas devido a seu sexo. Mas isso não vai ser atingido fingindo que o sistema gênero/sexo não existe atualmente, em uma estrutura hierárquica patriarcal/machista. Não vai ser atingido simplesmente empregando linguagem neutra e apagando especificidades e histórias.

Se o horizonte utópico do movimento trans termina em dizer que mulheres trans são mulheres, que homens trans são homens e que não binários são não binários, então realmente, movimento trans e feminismo não são e não podem ser a mesma coisa. E se o horizonte utópico do movimento trans inclui a permanência de um sistema de gênero, para que identidades possam seguir sendo calcadas nisto, então realmente temos um problema, um impasse. Mais um que não poderá ser resolvido através do silenciamento.

Você é uma mulher ou pessoa trans e discordou desse texto? Faça um texto resposta. Me escreva um comentário e vamos debater, dialogar. É exatamente isto que estou dizendo que precisamos fazer. Nos escutarmos, podermos também falar, e quiçá, chegar a algum consenso. Certamente não precisamos e não vamos ter acordo em tudo. Vão existir divergências. Mas eu também acho que poderíamos estar encontrando muito mais pontes do que temos encontrado, dentro de um sistema que oprime e explora todas nós.

Para finalizar, um pouco sobre os homens

Quero agora voltar a pensar nos homens progressistas (mais feministas que eles?), que correm pra mandar mulheres se fuder, pois elas são TERFS imundas de merda que merecem apanhar. Vamos pensar nesses homens progressistas que sabem muito mais de feminismo que as feministas que discordam de determinadas premissas com as quais eles parecem não ter problema. Porque esses homens concordam com essas premissas? Porque a vida deles não está sendo alterada em porcaria nenhuma. As nossas sim. Apenas um exemplo é a perda de espaço em esportes, que você vê acontecendo unicamente no campo das mulheres. Mulheres e meninas têm perdido espaço para incluir meninas e mulheres trans, as quais muitas vezes têm vantagens corporais físicas, em relação a mulheres não trans. Não vou entrar no debate médico-biológico aqui, vou apenas me ater a apontar que o mesmo não está acontecendo com homens, eles não estão perdendo espaço para homens trans, e as razões disso me parecem óbvias.

Não tendo suas vidas afetadas, é fácil para eles assumir esse discurso politicamente correto, que proporciona tanto uma posição de superioridade moral como tem se mostrado um ótimo canal de escape para eles despejarem toda sua misoginia. Afinal, parece que a misoginia não é mais um problema, desde que você a dirija para as mulheres certas, as imorais, as incorretas, estas merecem. Se você for uma mulher trans, também está bem praticar ou ameaçar de praticar violência física contra mulheres que discordam de você.

(VideFallonFox:https://www.facebook.com/womensliberationfront/photos/a.684901748271020/3076026639158507/?type=3&theater).

Ao passo que se “desconstrói” a categoria mulher, com movimentações de pessoas trans para que, por exemplo, “se abandone a linguagem generificada ao falar de endometriose”, o mesmo não acontece com os homens. E nem vou entrar aqui no mérito da endometriose ser pouco estudada, pesquisada e possuir tratamentos ruins e pouco eficazes justamente porque acontece nos corpos de mulheres.

Meu ponto é o de que esses mesmos homens progressistas não estão correndo para “desconstruir” a categoria homem. Você já viu algum deles advogando para que sejam chamados de “pessoas portadoras de saco escrotal”, “pessoas que ejaculam esperma”, “pessoas com próstata” ou o que quer que seja, afim de que mulheres trans possam ser incluídas em programas de saúde voltados para homens? Não, você não viu. E você também achou ridículos os títulos que eu dei. Mas nós não podemos achar ridículo ser chamadas de pessoas menstruadoras, pessoas portadoras de útero e etc. Temos que achar maravilhoso, inclusivo, revolucionário e lutar para que se adote essa linguagem, ironicamente, dita “não biologizante”.

Você também não vê esses homens, heteros ou gays, somando na luta pela legalização do aborto, e não vê esse movimento progressista criticando coisas como a exploração feminina através de algo que é bizonhamente chamado de “barriga de aluguel” (uma das violências aceitáveis mais repugnantes no capitalismo patriarcal). As pessoas saem correndo pra chamar J.K Rowling de transfóbica por um tweet, mas ninguém sai correndo para apontar o dedo para casais hetero ou gays que efetivamente estão violentando uma mulher, ao se aproveitarem da necessidade financeira dela, para gerar um filho biológico. No reino da lacração e da agência individual acima da realidade material, não está bem mulheres rejeitarem nomenclaturas sobre si próprias com as quais não concordam, mas está tudo bem tratar o corpo de uma mulher como uma propriedade que pode ser alugada. Curiosamente, as feministas que geralmente se importam com o apagamento lingüístico sem uma mudança concreta na materialidade costumam serem as mesmas que mais se importam com realidades de exploração de seus corpos. Isso não é uma coincidência, e sim a conseqüência de uma análise materialista dos sistemas de opressão e exploração, algo que deveria ser imprescindível num país como o Brasil.

Ah estes homens progressistas, que consomem pornografia infestada de violência contra a mulher e com requintes de pedofilia, que não largam futebol ou clubes ao saberem de jogadores que foram acusados de cometer estupro, violência doméstica ou mesmo feminicídio, que não deixam de assistir obras com diretores, atores ou músicos na mesma situação, que seguem sendo amigos de pais que nem a pensão pagam…são os mesmo que estão mais que felizes em cancelar, devido à tuítes, uma autora que sofreu violência do marido e que, graças à magnitude da atual polêmica, teve esta violência reiterada na capa de um jornal, com a declaração do marido de que “Bati em J.K e não me arrependo” (https://edition.cnn.com/2020/06/12/uk/jk-rowling-the-sun-front-page-scli-gbr-intl/index.html).

Enquanto as prioridades não forem alteradas, enquanto contradições como as que apontei ao longo do texto não forem examinadas, os meus esforços enquanto feminista não serão centrados no policiamento de tuítes e em adoção de linguagem neutra, mas seguirão sendo para mudar as condições concretas de vida das meninas e mulheres, e pôr um fim no sistema patriarcal racista capitalista.

10 Mitos sobre Prostituição, Tráfico e o Modelo Nórdico

*Texto escrito originalmente e em inglês por Meagan Tyler, disponível em: http://www.feministcurrent.com/2013/12/08/10-myths-about-prostitution-trafficking-and-the-nordic-model/

*Tradução livre por Maria V.

Nota: Este texto é de 2013, tendo sido escrito antes da adoção do Modelo Nórdico na França, o qual recentemente mostrou como resultado a prisão de 937 homens que pagam por consentimento sexual e a diminuição no número de pessoas prostituídas presas a cada ano – de 1,500 para 0. Cerca de 90% das pessoas em situação de prostituição na França são traficadas, em sua maioria da Bulgaria, Romania, China e Nigeria; então um dos objetivos da legislação foi também tornar a França menos atrativa a cafetões e traficantes. Fonte: http://www.feministcurrent.com/2017/04/13/whats-current-937-johns-zero-prostituted-women-arrested-france-since-adoption-nordic-model/

Neste WordPress, Caderneta Feminista, você encontrará outras traduções feministas feitas por mim, incluindo sobre a temática da prostituição e pornografia (muitos dos textos traduzidos inclusive escritos por sobreviventes da indústria do sexo).

 1. Eu sou uma trabalhadora sexual, eu escolhi trabalho sexual e eu amo

Essa é uma das retóricas mais populares e é tratada por muitos que a usam como uma forma de argumentação “cheque-mate”, como se uma pessoa que diz que tem prazer na prostituição fizesse todas as outras evidências1 sobre violência, transtornos de estresse pós-traumático e tráfico na prostituição magicamente desaparecer.

Maud Olivier, a socialista que introduziu a Lei de proibição de compra de serviços sexuais na França, rebateu a hipocrisia deste tipo de críticas: “Então é suficiente que uma mulher na prostituição diga que ela é livre para a escravidão de outras ser respeitável e aceitável?” ela questionou2 a seus colegas de parlamento.

Mas o “eu amo prostituição” é colocado como um poderoso argumento porque é visto como contradizendo uma suposta afirmação abrangente de feministas radicais e outras que o sistema de prostituição é prejudicial a mulheres.

Isso se dá por uma falta de entendimento de políticas radicais, o conceito de opressão estrutural e debates antigos e cansativos sobre falsa consciência. Só porque você gosta de algo não significa que isto não é prejudicial (assim como gostar de algo não automaticamente torna este algo em feminista3). Feministas radicais criticam práticas de beleza como prejudiciais4 também, e dizer que você escolheu usar saltos altos não torna esta crítica errada. Nem significa que estas feministas te odeiam por usar salto alto ou estar na prostituição.

Similarmente, quando alguém que expõem argumentos da política radical aponta que livre escolha é um conto de fadas, e que todas nossas ações estão restritas a certas condições materiais, isso não é o mesmo que dizer que somos todas infantis, pequenos robôs incapazes de tomar decisões por nós mesmas. Significa apenas que não estamos flutuando em um vácuo cultural, tomando decisões completamente não afetadas por questões estruturais como a desigualdade do sistema econômico, racismo e sexismo/machismo.

2. Apenas pessoas na prostituição estão aptas a falarem sobre prostituição

Este mito é usado com frequência em conjunto com o primeiro. Apesar de tentativas de empregar experiência pessoal para que triunfem sobre pesquisas e refutem tendências sociais abrangentes (“sexismo não existe porque eu nunca vi!”), há mais do que estas interações por trás do contexto da prostituição. Repetir que apenas atuais “trabalhadoras sexuais” estão qualificadas para falar sobre a indústria do sexo é uma tentativa de silenciar as vozes de sobreviventes5 e fingir que as consequências da prostituição são sofridas apenas por aquelas na prostituição.

É verdade que muita da oposição feminista a prostituição tem focado nos malefícios a mulheres na prostituição, e corretamente, já que estes são sérios e endêmicos6. Mas, como pessoas que advogam pelo Modelo Nórdico colocam, a existência de sistemas de prostituição é uma barreira para a equidade entre os sexos.

Enquanto as mulheres (e sim, existem homens na prostituição, mas por favor sejamos honestos e vamos admitir que usar “pessoas” aqui apenas ofuscaria o fato de que a vasta maioria daquelas na prostituição são mulheres) podem ser compradas e vendidas como mercadorias para sexo é um assunto de todas as mulheres. Os suiços7 reconheceram isso quando introduziram a proibição original na compra de sexo 1999, e o ministério francês dos direitos das mulheres está explicando novamente8.

3. Todas mulheres na prostituição se opõem ao Modelo Nórdico

Primeiramente, é importante apontar que para cada organização de trabalho sexual9 que se opõem ao Modelo Nórdico, existe uma organização de sobreviventes10 que advoga em seu favor.

A ideia de que todas as mulheres com qualquer experiência na indústria do sexo detestam o Modelo Nórdico, é uma tática utilizada por um grande número de organizações em favor do trabalho sexual11 pelo mundo e depende bastante do mito n°2. Este argumento é, com frequencia, seguido por um link para o blog de Petra Ostergren12 que prova (nos é dito) que todas as mulheres em situação de prostituição odeiam o Modelo Nórdico.

Está claro que existe um número de oponentes com bastante voz em relação ao Modelo Nórdico dentro da indústria do sexo que tem uma plataforma muito significativa. Mas dificilmente pode-se argumentar que estas organizações representam todas as mulheres na prostituição pelo mundo, ou que a postagem no blog (com poucas referências e evidências) prova que o Modelo Nórdico é fracassado.

4. O Modelo Nórdico nega a agência de ”trabalhadoras sexuais”

Uma das coisas que os críticos acham difícil de compreender sobre o Modelo Nórdico, é que ele é sobre restringir compradores, e não aquelas na prostituição. É por isso que ele descriminaliza pessoas que se prostituem. O Modelo não deixa de levar em conta a prostituição por “escolha” mas estabelece que a compra de mulheres em sistemas de prostituição é algo que o estado deveria ativamente desencorajar.

É bastante simples, na verdade. O Modelo Nórdico reconhece que menor demanda por prostituição e menor demanda para o tráfico = menos prostituição e menos tráfico, reduzindo o número de mulheres expostas a estas formas particulares de abuso e criando uma melhor chance de se atingir a equidade entre os sexos.

Se você acredita que o estado deveria encorajar o crescimento da indústria da prostituição e a tratar como uma forma de emprego como outro qualquer para mulheres, então inevitavelmente haverão discordâncias, mas isso não significa que o Modelo nega a agência das pessoas.13

5. O Modelo Nórdico confunde prostituição e tráfico

Muitos proponentes do Modelo Nórdico adotam o entendimento de tráfico divulgado pelo Protocolo das Nações Unidas para Prevenir, Suprimir e Punir o Tráfico de Pessoas Especialmente Mulheres e Crianças (veja Artigo 3a14). É um entendimento que leva em conta mais nuances do tráfico do que “pessoas sendo transportadas através de barreiras internacionais com uma arma apontada para a cabeça” que é popular em muitas das mídias mais comuns. Talvez aí entre a confusão.

Mas empregando este entendimento mais realista, apoiado pela ONU, dos mecanismos de coerção e tráfico, o Modelo Nórdico não presume que toda mulher na prostituição é necessariamente traficada.

O que o Modelo Nórdico faz é reconhecer que há uma conexão entre o mercado da prostituição e o tráfico sexual, especificamente que a demanda por serviços sexuais alimenta o tráfico. Então, se você quer menos tráfico sexual, você precisa encolher o mercado da prostituição.

Esta lógica foi amplamente apoiada por um recente estudo de 150 países15, conduzido por economistas no Reino Unido e na Alemanha, mostrando que “o efeito escala da legalização da prostituição leva a uma expansão do mercado da prostituição, aumentando o tráfico humano.”

6. O Modelo Nórdico não funciona/empurra a prostituição para a marginalidade

O argumento de que o Modelo Nórdico não reduz a demanda pela prostituição é frequentemente repetido sem evidência16, mas ocasionalmente é dito17 que a própria revisão do governo Sueco sobre sua legislação mostra o fracasso do Modelo. Como o jurista Max Waltman demonstrou18, não se fez nada do tipo. Pesquisas encomendadas pelo governo Sueco para revisão oficial mostraram que a prostituição de rua foi cortada pela metade19.

“Ha!” Os críticos dizem, “Este estudo empregou metodologia falha e a prostituição foi para o “underground”. Talvez, mas isto deixa de olhar para outras fontes, incluindo pesquisas que indicam que o número de homens na Suécia comprando sexo caiu20 e que relatórios da polícia tem interceptado comunicações de traficantes de pessoas declarando que a Suécia é um “mercado ruim”21.

Também é valido considerar o que “underground” supostamente significa neste contexto, já que para sistemas legais e descriminalizados, como alguns na Austrália, “underground” significa a prostituição de rua. Então se a prostituição saiu das ruas, para onde foi? Para a internet e dentro de casas, é a constatação dos críticos, o que é estranho já que pessoas que advogam pela legalização frequentemente falam dos benefícios da prostituição dentro de casas22.

7. O Modelo Nórdico priva mulheres de ganharem dinheiro

Este mito é o mais intrigante, já que na verdade é uma admissão que o Modelo Nórdico funciona, diretamente contradizendo o mito 6. O Modelo só pode privar mulheres de ganharem dinheiro se, de fato, reduz a demanda para a prostituição. Além disso, programas compreensivos de saída são uma parte crítica do Modelo, envolvendo acesso a uma grande variedade de serviços incluindo programas de treinamento, capacitação e auxílio emprego.

Hashtags como #nothingaboutuswithoutus (#nadasobrenóssemnós), usada por vários grupos, não apenas organizações da indústria do sexo, aparecem regularmente ao lado desta afirmação como se a única opção satisfatória disponível fosse todos aceitarem um mercado da prostituição em acensão porque alguns querem assim.

Não qualquer um, claro – trabalhadores – se você compra o discurso “trabalho sexual é trabalho”. Deixando de lado os problemas com o conceito de que prostituição é um trabalho como outro qualquer23, se aceitamos esta premissa, então o argumento não faz sentido, já que trabalhadores em qualquer indústria não determinam se a indústria irá continuar ou não.

Pegue as indústrias de carvão ou silvicultura na Austrália, por exemplo. Estes setores foram considerados pelo governo como sendo prejudiciais de diversas formas, e isso, como resultado – ainda que sejam potencialmente lucrativos – fez com que não mais tivessem licença social para continuarem operando sem inibição. Trabalhadores destas indústrias frequentemente estão com raiva ao verem seus empregos ameaçados, motivo pelo qual os sindicatos advogam por “transições justas”24, que promovam treinamento e facilitem o acesso a serviços sociais e de emprego aos trabalhadores afetados (soa familiar?). Em grande parte, estes sindicatos desistiram de argumentar que o prejuízo causado pelas indústrias em questão deveria continuar para evitar a interrupção empregatícia dos trabalhadores.

Se trabalho sexual é trabalho, e prostituição é só mais uma indústria, então ela está aberta para discussões públicas mais abrangentes e mudanças políticas como outras indústrias, incluindo a possibilidade de governos não mais quererem que elas estejam em funcionamento.

8. O Modelo Nórdico tornou a prostituição insegura

Primeiro de tudo: a prostituição É insegura. Sugerir que é o Modelo Nórdico que a torna perigosa é malicioso. Declarações do tipo ignoram pesquisas mostrando que formas tradicionais de legalização e descriminalização fazem virtualmente nada para proteger mulheres na prostituição das altas taxas de violência física e sexual, bem como de trauma psicológico.

Sistemas de legalização alimentam uma maior demanda e criam uma expansão de indústrias ilegais em seu em torno25, então é uma falácia fingir que nos locais onde a prostituição é legalizada, todas as mulheres estão em formas legais de prostituição. Além disso, as taxas de trauma26 são similares tanto em sistemas legalizados, descriminalizados e criminalizados de prostituição.

Infelizmente, o Modelo Nórdico também não é capaz de proteger totalmente mulheres em situação de prostituição destas condições  – visto que enquanto a prostituição existir haverão prejuízos graves – mas a ideia que é ele que torna as condições piores é estapafúrdia.

As afirmações de “mais violência” em sua maioria vem de um estudo altamente citado da ProSentret27 que mostrou que mulheres na prostituição reportaram um aumento em certas formas de violências praticadas por “clientes”, incluindo puxões de cabelo e mordidas, após a introdução do Modelo Nórdico na Noruega. O que é deixado de fora, é que este estudo também descobriu que mulheres reportaram um declínio acentuado em outras formas de violência, incluindo espancamentos e estupro. (Nota da tradutora: homens que pagam por consentimento sexual enxergam mulheres como objetos sexuais, logo, haverá violência já que o que ali se encontra para eles é uma mercadoria adquirida. A violência masculina e a misoginia são intrínsecas a prostituição).

Sobre mulheres na prostituição não conseguirem acessar serviços sociais adequados, este pode ser um problema. Neste caso, é absolutamente necessário que seja resolvido. Porém isto é um problema de implementação e não uma falha no Modelo em si.

A versão original do Modelo Nórdico, introduzido na Suécia, é parte das reformas Kvinnofrid28 para que exista mais verba governamental e suporte para uma variedade de serviços que atacam os problemas de violência masculina contra mulheres, incluindo especificamente a prostituição. Nós vimos isto também na França, com leis que descriminalizam aquelas na prostituição juntamente com medidas para freiar a violência contra mulheres.

9. O Modelo Nórdico é na verdade uma cruzada moral disfarçada

Apesar da política baseada em evidências do Modelo Nórdico ter sido introduzida por progressistas e governos socialistas, persiste a noção de que ele é, de algum forma, uma tentativa religiosa ou conservadora de limitar as expressões sexuais, invés de um meio efetivo de lidar com problemas de tráficos e violência masculina contra mulheres.

Mas talvez tudo dependa de como você defina “cruzada moral”29. Se você enxerga o movimento pela equidade das mulheres como uma “cruzada moral”, então eu suponho que é. Se você está determinado em ignorar todas as evidências em apoio ao Modelo Nórdico e em vez disso quer debater isto em um nível “moral”, então vá lá. Aqueles que pensam que violência contra mulheres é algo ruim irão ganhar esta discussão.

10. Acadêmicas feministas que pesquisam prostituição estão ganhando dinheiro nas costas de prostitutas

Esta é uma nova adição a lista das técnicas de silenciamento30 usadas contra as feministas que desafiam a indústria do sexo. A primeira vez que me deparei com esta acusação foi em uma seção de comentários aqui31 e nos e-mails que se seguiram me “ajudando” com aconselhamentos sobre como que eu era exatamente como os homens que estupram mulheres na prostituição porque eu estava usando as experiências de trabalhadoras sexuais sem pagar.

Então deixe-me ser clara: acadêmicas conduzem pesquisas. Para muitas, como eu, isso frequentemente envolve o acúmulo de pesquisas já realizadas e, usando estas evidências, cria-se um argumento que pode ser defendido. Este é o nosso trabalho. E é nosso trabalho, independente do tópico ou área que estamos pesquisando.

Engajar-se em debates públicos sobre o Modelo Nórdico, e citar pesquisas relevantes, não é uma tentativa de falar pelas mulheres na prostituição. É uma tentativa de trazer achados de pesquisas para um grande público. Se isto é visto como ameaçador pela indústria do sexo, então certamente não sugere que o Modelo Nórdico é efetivo?

Meagan Tyler é professora de Sociologia na Victoria University, Australia. Seus interesses de pesquisa giram em torno da construção social do gênero e da sexualidade. Seus trabalhos nesta área foram publicados na Women’s Studies International Forum e na Women and Therapy bem como em coleções editadas incluindo ‘Everyday Pornography’ (Boyle ed., 2010) e ‘Prostitution, Harm and Gender Inequality’ (Coy ed., 2012). O primeiro livro de Meagan, ‘Selling Sex Short: The pornographic and sexological construction of women’s sexuality in the West’, foi publicado em Julho de 2011. 

Notas/Referências do texto original, logo estão em inglês em sua maioria:

1. http://prostitutionresearch.com/

2. http://www.bbc.com/news/world-europe-25118755

3. http://feministcurrent.com/7578/just-because-you-like-it-doesnt-make-it-feminist/

4. https://books.google.com.au/books/about/Beauty_and_Misogyny.html?id=MM3iNjKKHD4C&redir_esc=y

5. http://prostitutionresearch.com/pre_blog/2012/05/23/pimps_will_be_pimps_whether_ma/

6. http://logosjournal.com/2013/farley/

7. http://sweden.se/society/gender-equality-in-sweden/

8. http://www.economist.com/news/europe/21591220-new-law-will-make-paying-sex-crime-turning-red-light

9. chrome-extension://oemmndcbldboiebfnladdacbdfmadadm/http://scarletalliance.org.au/issues/swedish_model/Swedish_briefing/

10. https://www.facebook.com/Sex-Trafficking-Survivors-United-399668553447965/

11. chrome-extension://oemmndcbldboiebfnladdacbdfmadadm/http://scarletalliance.org.au/library/frenchbill2013

12. http://www.petraostergren.com/pages.aspx?r_id=40716

13. Nota/Referência da tradutora sobre indicação de texto: https://cadernetafeminista.wordpress.com/2015/03/10/porque-consentimento-nao-e-o-suficiente/

14. http://www.ohchr.org/EN/ProfessionalInterest/Pages/ProtocolTraffickingInPersons.aspx

15. chrome-extension://oemmndcbldboiebfnladdacbdfmadadm/http://eprints.lse.ac.uk/45198/1/Neumayer_Legalized_Prostitution_Increase_2012.pdf

16. https://twitter.com/Planographer/status/409112210263527424

17. http://www.petraostergren.com/pages.aspx?r_id=40716

18. https://www.thestar.com/opinion/editorialopinion/2011/10/31/the_scars_of_prostitution.html

19. http://www.government.se/articles/2011/03/evaluation-of-the-prohibition-of-the-purchase-of-sexual-services/

20. http://www.projectrespect.org.au/

21. chrome-extension://oemmndcbldboiebfnladdacbdfmadadm/http://www.swedenabroad.com/SelectImageX/221986/SpeechKajsaWahlbergHaag101206.pdf

22. http://www.gwu.edu/~soc/docs/Weitzer/Prostitution_Facts.pdf

23. http://www.feministcurrent.com/2013/12/02/podcast-prostitution-not-a-job-not-a-choice-a-talk-by-janice-raymond/

24. http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.1743-4580.1998.tb00090.x/abstract

25. http://www.spinifexpress.com.au/Bookstore/book/id=176/

26. chrome-extension://oemmndcbldboiebfnladdacbdfmadadm/http://isites.harvard.edu/fs/docs/icb.topic1001965.files/Week%2011%20Readings/Farley%20et%20al%20%20Prostitution%20and%20Trafficking%20in%20Nine%20Countries.pdf

27. chrome-extension://oemmndcbldboiebfnladdacbdfmadadm/https://humboldt1982.files.wordpress.com/2012/12/dangerous-liaisons.pdf

28. http://www.feministcurrent.com/2013/01/22/new-research-shows-violence-decreases-under-nordic-model-why-the-radio-silence/

29. https://twitter.com/GrahamScambler/status/250547922419204096

30. http://www.feministcurrent.com/2011/12/08/who-gets-a-say-the-sex-work-lobby-the-silencing-of-feminist-voices/

31. http://theconversation.com/political-party-or-lobby-group-the-dark-side-of-the-australian-sex-party-8525

 

 

 

 

Você já ouviu sobre cultura do estupro, mas ouviu sobre cultura da pedofilia?

Postagem original está em inglês, é de Setembro/2015 e foi escrita por Alicen Grey, podendo ser acessada aqui: http://www.feministcurrent.com/2015/09/28/youve-heard-of-rape-culture-but-have-you-heard-of-pedophile-culture/

Tradução livre e adendo feitos por Maria V.


 

Querido Todd Nickerson,

Há alguns dias atrás você escreveu no site Salon um artigo provocativamente nomeado de “Eu sou um pedófilo mas não sou um monstro”. Presumivelmente, muitas pessoas agora estão se perguntando “É a pedofilia natural ?” ou “Pedofilia pode ser curada ?” mas eu não vou tentar responder essas perguntas em particular. Invés disso, eu gostaria de aprofundar esse discurso preenchendo os buracos enormes no seu artigo.

Vamos começar com esse pedaço que falta: a vasta maioria dos pedófilos são homens. E a maioria das crianças vítimas desses pedófilos são meninas. Esse é um detalhe gigantesco para ser escondido da sua plateia, você não concorda? Infelizmente, mesmo o patriarcado sendo universal e evidente, é geralmente o último detalhe mencionado em conversas dessa natureza – se é que é mencionado.

Com isso dito, a pedofilia pode parecer um tabu e desprezada pelas massas, mas uma avaliação honesta de nossa cultura mostra o contrário. Eu tenciono que pedofilia é, na verdade, premiada e celebrada, e que toda nossa cultura e entendimento da sexualidade está construída em volta do que parecem ser desejos pedófilos. Eu chamo isso de “cultura da pedofilia”.

Na cultura da pedofilia, é esperado das mulheres que mantenham um quase-impossível nível de magreza, pré-adolescente na sua quase-andrógina falta de curvas e gordura corporal. Devido a essa pressão, transtornos alimentares se tornam cada vez mais comuns em jovens garotas, e mulheres em particular são alvos durante toda sua vida de uma indústria multibilionária de perda de peso.

Na cultura da pedofilia, a categoria mais procurada no site de pornografia Pornhub é “adolescente” (“teen”). “Quase ilegais” “meninas” em uniformes escolares atuando tudo desde “manipulações com virgens”, fantasias de incesto entre pai e filha, faz de conta entre professor e aluna…você nomeie e estará lá, existirá pornô sobre, e punhetas estão sendo batidas assistindo aquilo aos milhões e milhões de vezes. É justo pressupor que a única coisa impedindo alguns desses homens de assistir direto à pornografia infantil são as leis sobre idade de consentimento.

Influenciada pela indústria pornô, a labioplastia, uma cirurgia que corta fora os pequenos lábios da vulva até ficarem parecendo as lascas de tamanho aceitável pelo pornô, vem crescendo rapidamente. O mesmo acontece com outros procedimentos, como himenoplastia, que “restaura” a vagina para ser “apertada” como de uma mulher “virgem”.

labioplastia

Na cultura da pedofilia, mulheres são pressionadas constante e agressivamente para depilarem com regularidade suas regiões íntimas e axilas. A indústria de cosméticos – onde novamente, o alvo são as mulheres – vende à torto e direito cremes e loções “anti-idade” que deixarão sua pele “macia como de um bebê”.

Na cultura da pedofilia, nós informalmente nos referimos a mulheres adultas como “garotas” “meninas”. Nós temos uma palavra específica para garotas jovens atraentes: “jailbait” (“isca para ir para prisão”, um equivalente no Brasil seriam as “novinhas”). Mulheres são sexualizadas como “gatinhas” e “baby’s”.

Na cultura da pedofilia, eu com frequência pego homens em público me sondando com olhos cheios de desejo, até eles verem pelos nas minhas pernas – quando então eles usam como recurso uma demonstração de nojo teatral. Eu já ouvi homens em grupos dizendo que não fazem sexo oral em uma mulher se seus lábios íntimos forem muito proeminentes. Um homem que estava tentando transar comigo há 3 anos rapidamente mudou de ideia quando revelei que eu não depilo e não depilarei meus pelos púbicos. Em outras palavras, muitos homens PARAM de se sentir atraídos por mim quando os lembro que sou uma mulher adulta, não uma jovem menina.

Com certeza todos esses homens, que tem uma “preferência” por essas qualidades mencionadas anteriormente, não são pedófilos quando se olha estritamente para a definição da palavra. Mas parece que um grande número de homens, muito provavelmente como resultado do forte condicionamento cultural, acha muitas das mesmas coisas atraentes em uma mulher que um pedófilo acha atraente em uma menina de idade escolar. Lábios íntimos pequenos, vaginas apertadas, hímens intactos, pele de bebê, falta de pelos no corpo e na vulva, jovialidade eterna, corpos fragéis…Como uma usuária do tumblr (reddressalert) escreveu, “como nós não reconhecemos que isso é essencialmente a descrição de uma bebê ou uma criança?”

Acréscimo da tradutora: além destas características físicas existem características psicológicas e emocionais que são as vezes indiretamente mas comumente exigidas das mulheres pelos homens como: falta de sabedoria/conhecimento, inocência, dependência, pouco controle sobre si própria (auto-determinação). Em nossa sociedade mulheres mais velhas são no mínimo rechaçadas e no máximo fetichizadas (“milfs”, “cougar” “mães que eu foderia” também são categorias da pornografia), raramente recebendo o respeito e possibilidades dadas aos homens mais velhos, que sequer recebem estes rótulos. O próprio processo de envelhecimento, natural a todo ser humano e criatura na Terra, é tornado, especialmente no caso das mulheres, como semelhante a uma doença que deve ser curada ou impedida. Estabelecer um clima de competição entre mulheres mais novas e mais velhas também é uma ferramenta patriarcal que mantém mulheres separadas e freia e desvaloriza a troca de saberes e a confiança entre elas. Em relação a aparência física outra característica que está presente em 99% das mulheres adultas é a celulite que assim como estrias, linhas de expressão e rugas, são totalmente naturais e não trazem nenhum prejuízo para saúde mas são tratadas pela sociedade e pelas indústrias como doenças e imperfeições, fazendo mulheres gastarem suas economias tentando curar-se de algo que não pode (e não precisa) ser curado visto que faz parte de um processo natural de amadurecimento e envelhecimento do corpo. Fim do adendo da tradutora.

De volta ao meu ponto original:

Eu preciso que você, e seus empáticos leitores, entendam essa verdade grave: pedofilia não é nem de perto um tabu, ou tida como vergonhosa e repulsiva para a sociedade como você argumenta que é. Eu gostaria que sim. Para o detrimento das mulheres em todo o mundo, seus desejos são refletidos de volta para você infinitamente, produzidos em massa em uma escala global para condizer com a sempre crescente demanda. Esse mundo, essa supremacia masculina, te recebe de braços abertos e cada desejo seu é como um comando. Eu ouso dizer que é mais seguro ser você mesmo neste mundo do que ser uma garota.

Você diz “Eu sou um pedófilo, mas não sou um monstro” e eu concordo totalmente com você, de coração. Você não é um monstro – você é um homem. E um homem bem comum. Uma representação microcósmica das corrupções patriarcais mais prevalentes. Você não é especial, você não é uma anomalia e você não está sozinho. Nem de perto. O que você tenta passar como “orientação sexual” nada mais é que uma manifestação dos desejos masculinos coletivos de subjugação das fêmeas em uma cruzada para assegurar a supremacia masculina a todos os custos.

Então, se ser “compreensiva e dar apoio” à sua pedofilia significa colaborar para construir machos que erotizam traços infantis em mulheres, e ensinar mulheres a manterem juventude eterna para não agravar suas inseguranças masculinas, então você não está pedindo por apoio – você está pedindo nossa submissão e subjugação. E assim como você diz “não existe nenhum jeito ético de atualizarmos completamente nossas ânsias sexuais” eu te digo: não existe nenhuma forma ética de requisitar cooperação dessas de nós que estão ativamente tentando desmantelar o sistema patriarcal que sua “orientação” representa.

O sexo nunca, nunca era uma diversão: o que aprendi na prostituição

Postagem original está em inglês, é de Setembro/2015 e foi escrita por Rachel Moran, podendo ser acessada aqui: http://www.salon.com/2015/09/30/the_sex_was_never_ever_fun_my_lessons_in_prostitution/

Tradução livre feita por Maria V.


Quando um homem te paga por sexo você sentirá muitas coisas – desejo e excitação não serão uma delas.

Excerto de “Paga para: minha jornada na prostituição” por Rachel Moran, publicado por W.W. Norton and Co., Inc. Copyright © 2015.

Testumunho de uma dançarina erótica: “Ninguém, nem eu, nem as outras mulheres, gostamos de ser cutucadas, agarradas e fodidas por homens os quais não daríamos um minuto do nosso dia caso os tivéssemos conhecido em qualquer outro lugar.” Perry Morgan, “Vivendo no Limite”

Eu me lembro de uma noite, na clínica onde eu costumava ir tomar café e pegar camisinhas, um particular comentário humoroso feito a uma jovem prostituta por uma das mulheres mais velhas. Elas estavam discutindo uma inesperada onda na noite anterior e a mulher mais jovem mencionou como havia ido para casa exausta depois. “Ah claro” falou a mulher mais velha, “você provavelmente gostou!” Todas, incluindo eu, rimos muito. O humor – para os que não captaram – estava no absurdo da afirmação.

A verdade de fato é que a natureza da prostituição favorece atos sexuais por demais desagradáveis e ligados a degradação para permitir que diversão ou proveito prevaleçam. Claro, isso será um tapa na cara dos fetichistas, que fantasiam, mas a realidade da prostituição geralmente tem esse efeito neles. Os sentimentos de uma mulher aqui geralmente variam de desconforto á nojo extremo e apenas em situações únicas ou excepcionais a mulher na prostituição experienciará algo diferente disso. Isso para não dizer que essas experiências únicas e excepcionais não ocorrem. Para algumas mulheres elas ocorrem e quando ocorrem, ninguém está mais surpresa que a própria mulher. Eu saberia, porque em duas ocasiões isso aconteceu comigo.

Quando eu tinha dezesseis anos fui solta de uma medida judicial, cujo propósito era me manter detida para minha própria proteção. Não teve o efeito desejado. Os motivos para isso são claros, e eu ainda me pergunto como a vara infantil pode ser tão tola de imaginar que alguns meses de detenção teriam mudado minha vida e assim quando fui solta nas ruas não havia qualquer outra opção viável além da prostituição. Se eles tivessem um pingo de dedicação em me ajudar a mudar minha vida, eles teriam me detido por alguns anos e feito a condição de que eu seria solta uma vez que completasse algum tipo de treinamento, seja como administradora, cabeleireira, etc., e teria sido designada a mim uma oficial de condicional e uma assistente social que teriam assegurado que eu fosse colocada em algum estágio ou em uma posição de nível primário em algum escritório. Não seria tão difícil assim, poderia ter sido feito e eu sei que seria capaz de me dedicar a isso. De qualquer forma, isso não aconteceu; eu fui solta depois de alguns meses e foi nesse momento que fui viver em um bordel na rua Lesson.

O primeiro carro que parou para mim na minha primeira noite de volta as ruas era dirigido por um jovem rapaz por volta de 25 anos. Ele era atraente, não desrespeitoso nas suas maneiras, era tímido, quieto e não falou muito comigo no caminho para o motel. Quando chegamos lá eu percebi que estava excitada. Eu não via meu namorado da época a meses e não tinha tido nenhuma atividade sexual. Eu me dei conta repentinamente então de que sentia falta; eu sentia falta de ser abraçada e tocada. Eu disse então para ele que havia mudado de ideia, que eu faria penetração e então ele colocou uma camisinha e em minutos, tudo havia terminado. Ele tirou a carteira e perguntou quanto me devia. Era a primeira vez que eu havia feito algo sexual sem ser paga primeiro e eu sabia porque: não havia sido um trabalho.
Nada parecia mais anti natural do que aceitar dinheiro por algo sexual que eu queria que tivesse acontecido. Eu também nunca havia feito sexo com penetração por dinheiro ainda naquele ponto, eu nunca havia me vendido daquela forma e eu não queria poder dizer que havia. Eu disse para ele não se preocupar. Sem dúvida ele sabia que algo estranho havia acontecido mas era fácil não ver sua expressão no escuro. Ele me deixou de novo na rua e então eu fui de fato trabalhar.

O que aconteceu naquela noite não é algo que pode ser visto como prostituição. Um ato de prostituição havia sido pretendido por ambas partes mas não havia acontecido. O que aconteceu transcendia a experiência da prostituição: sexo penetrativo com desejo, com zero reservas mentais não é prostituição, e não poderia, na minha mente, ser encaixado como isso. Minhas colegas não compartilhavam da mesma visão. Todas concordaram que em não aceitar o dinheiro eu havia sido uma imbecil.

A segunda dessas experiências aconteceu aproximadamente 3 anos após essa. Eu estava na área de “acompanhantes” naquela época. Eu havia atendido o chamado na casa de um homem com um lindo rosto, com um sorriso gentil e relaxado e olhos marrons brilhosos. Ele me recebeu com um adorável sotaque britânico e me serviu uma taça de vinho branco. Eu quase nunca bebia quando me prostituía e certamente não com um cliente novo, mas por uma combinação de fatores eu quebrei as regras aquela noite com aquele homem.

Tudo na casa dele era quente e acolhedor; as cores, os cheiros, as texturas. Tudo tinha tons amarelados, amadeirados e tinha um cheiro de canela. O clima era muito agradável e neutro. Eu estava relaxada. Isso em si mesmo era muito incomum. Eu já descrevi como uma mulher na prostituição sabe quando precisa estar alerta: ela também sabe quando não precisa, mas como a primeira situação é de longe a mais comum, situações contrárias te pegam de surpresa.

Ele me contratou por duas horas e claramente não estava com pressa. Sentada no seu sofá eu me dei conta do quão pouca tensão havia em mim; Eu não estava preocupada com onde isso estava indo. Eu não estava me preparando mentalmente como eu geralmente fazia. Eu não estava construindo a parede, não completamente. Suspeitava que não parecia que ia precisar. A verdade é que havia algo sobre esse homem e esse ambiente que era relaxante e sedutor.

Quando fomos para a cama eu me dei conta de que não me incomodava com as mãos dele em mim. O primeiro indicador era que não sentia repulsa, como sempre ocorria. As mãos dele eram macias e firmes e me tocavam lentamente. Não eram invasivas, intrusivas e quando ele me tocou foi desde o meu pescoço até a curva do meu tornozelo; ele parecia adorar meu corpo inteiro com suas mãos. Ele não fez nada comigo fisicamente para significar sua dominância, o que era tão pouco familiar que me faz encaixar essa experiência como uma daquelas únicas em si mesma. Quando ele gentilmente abriu minhas pernas e entrou em mim, eu inadvertidamente soltei um suspiro. Então ele murmurou no meu ouvido: “Você não tem que fingir que gosta”. Foi aí que a natureza da experiência se modificou.
Esse era um homem com bastante modos. Aparentemente decente, ele parecia se importar. Apesar do ponto óbvio de estar me comprando, ele não era desrespeitoso (não seria possível eu sentir excitação se ele fosse) mas da maneira como ele me via e a minha parte nessa experiência: ele pensou que eu não iria gostar. Ele pensou que sabia que eu não iria gostar e, como tantos outros antes dele, a excitação dele dependia do fato de que eu não gostaria.

Imediatamente eu entendi isso e senti minha resposta se fechando. A parede havia levantado. Eu me senti desconectada do meu próprio corpo, como de costume, mas não pelos motivos usuais. Dessa vez eu não havia saído do meu próprio corpo; Eu fiquei dentro e descobri que não era bem vinda ali.

Foi bastante surreal, o resto daquele sexo. Eu estava mais distante de mim mesma do que jamais havia estado, e era um sentimento estranho e muito desconcertante, estar deitada ali sentindo todas aquelas sensações que seriam excitantes se eu tivesse sido bem vinda a habitar meu próprio corpo. Para aqueles que falam de prostituição como trabalho, saibam isso: a habilidade principal, mais essencial do “trabalho” de uma prostituta é aprender a ficar fora dela mesma para o seu próprio bem.

Então a respeito dessas duas experiências: a primeira não foi uma experiência sexualmente prazerosa dentro da prostituição; foi uma experiência sexualmente prazerosa que foi tirada do contexto da prostituição, porque prazer sexual não era congruente com esse contexto. E sobre a segunda experiência: poderia ter sido sexualmente prazerosa se eu não tivesse sido lembrada o quão excedente uma mulher na prostituição é. O corpo dela é útil – o resto dela é irrelevante, indesejável, não bem vindo. Somente se uma mulher for masoquista, fortemente excitada com sua própria degradação, seria possível para ela encaixar essa realidade como excitante.

Sobre a generalizada escassez de prazer sexual de uma prostituta, eu não preciso me perguntar sobre e mesmo se precisasse eu seria lembrada pelas lutas na disfunção sexual que experienciei enquanto escrevia esse livro, especialmente durante o período quando estava escrevendo muito e processando a quantidade gigantesca de memórias indesejáveis todos os dias.

O mito do prazer sexual da prostituta existe como uma de diversas táticas que são usadas para sanitarizar e normalizar a experiência na prostituição. Os motivos por trás disso são simples: se é visto como prazeroso para -algumas- mulheres, então não poderia ser tão ruim assim para mulheres num geral, poderia? Isso é sem sentido, e como a maioria das coisas sem sentido, existe por uma razão: para enquadrar a prostituição como aceitável. Não é a única tática utilizada com esse fim, existem muitas.

As duas isoladas e não usuais experiências que contei não apontam para existência de um prazer sexual na prostituição. Elas atestam o oposto, porque a primeira vez que experienciei prazer sexual de um homem dessa forma, a experiência teve que ser quase totalmente convertida em seu oposto antes de se tornar aceitável para mim; e na segunda vez que experienciei prazer ele teve que ser, necessariamente, rejeitado. Em ambos casos, minhas respostas com excitação eram incongruentes com a prostituição. O prazer feminino não é pertencente a prostituição, e ambos participantes intuitivamente entendem que não há lugar para isso ali.

Talvez minhas duas experiências sejam mal interpretadas ou compreendidas de maneira a servirem de evidência para aqueles que preferem ver a prostituição filtrada pelo prisma da erotica, mas uma pessoa que tira conclusões da lógica deduzirá que uma amostragem tão pequena não dá cor a experiência como um todo. A realidade simples é que se você é heterossexual e você conhece milhares de pessoas do sexo oposto ao curso de muitos anos, você provavelmente tem chance de achar que, pelo menos, um número pequeno desses tem apelo sexual. O fato de eu ter sentido isso por dois homens de milhares não atesta para nenhum tipo de prazer na experiência da prostituição; atesta para o oposto, porque com certeza haviam muito mais homens dentre eles que teriam tido apelo sexual para mim caso os tivesse conhecido de outra forma. Isso é apenas mais uma evidência da maneira na qual a prostituição polui as relações humanas interpessoais. A vasta maioria dos homens é imediatamente descartada como sem apelo sexual para mulheres prostituídas, por causa da maneira na qual eles se apresentam para elas. É apenas em excepcionais e únicas circunstâncias que algo acontece para fazer uma mulher se sentir de forma diferente.

A resposta de fato das mulheres na prostituição é algumas vezes reconhecida, inadvertidamente, pelas que propõem a prostituição:
Descrições do sofrimento psicológico que advém da prostituição as vezes vem de quem advoga por ela. Por exemplo, o Coletivo Neozelandês de Prostitutas escreveu em um panfleto não publicado que pessoas na prostituição sabem que deveriam dar um tempo do meio: quando cada cliente faz sua pele se arrepiar, quando sua mandíbula dói de tanto pressionar uns dentes em outros para evitar cuspir na cara do merda… (ou) quando você não consegue mais suportar olhar para o que vê no espelho. “ (Panfleto da NZPC por Michelle, 1994, em “Ruim para o corpo, ruim para a mente” de Melissa Farley)

Mulheres a quem esses conselhos precisam ser dados claramente não estão vivendo em um contexto de vida que é provável de causar excitação sexual.

O mito do prazer sexual na prostituição está em parte relacionado com um outro mito social que vai algo nas linhas de “mulheres na prostituição desejam ser resgatadas por um homem”. Esse mito se mantém na prostituição pelas falas de homens e não de mulheres. Nós estamos extremamente cientes de que se seremos resgatadas será apenas por nós mesmas. Esse mito foi exemplificado pelo filme “Uma Linda Mulher”, onde a personagem principal é resgatada da prostituição pelo amor de um homem. Eu não achei esse filme muito ofensivo, apesar de ter causado muitas reações nesse sentido nos circulos de prostituição. Eu me sinto assim porque não acredito que o filme tente pintar a prostituição como geralmente divertida. A personagem de Julia Roberts está claramente infeliz na prostituição e relata o fato em uma cena aos prantos. Eu achei, porém, que se os diretores quisessem de fato retratar a realidade da prostituição, nós deveríamos ter visto a personagem de Julia com mais de um comprador. Sobre a prostituta aqui ser retratada como se apaixonando por um de seus clientes: eu não acho que é um cenário impossível, mas é um altamente improvável. É possível se apaixonar em qualquer lugar na vida, mas existem algumas áreas onde você achará escassez de amor na experiência humana. Prostituição é uma delas.

Eu lembro quando tinha 15 anos e estava na prostituição só a alguns meses, quando mais um homem de 40 e poucos anos me pegou; este num feio carro verde. Eu lembro que ele olhou pra mim com os olhos saltando para fora do rosto e estava praticamente salivando enquanto me olhava. Ele dirigiu até um local que ele escolheu (esses eram os dias onde eu ainda não havia aprendido que era melhor tentar não deixar que o homem escolhesse o lugar) e quando ele parou o carro ele virou para mim e me contou o que estava em sua mente, o que o estava excitando tanto. Ele me contou que havia me visto na rua Blessington um ano antes e que havia ficado de pau duro quando olhou para mim. (O abrigo onde eu estava acomodada um ano antes ficava na rua Blessington. Eu tinha 14 anos na epóca). Ele disse que não podia acreditar na sorte dele de ter me encontrado um ano depois na rua Benburb. Eu sentei no carro enquanto ele agarrava meus seios, tirava seu pau para fora e enfiava os dedos na minha vagina, e eu me forcei a ficar dormente/entorpecida enquanto tentava bloquear na minha mente o que ele estava fazendo, junto com as memórias do ano anterior, o pensamento de como havia sido ingênua, e de como ele era uma porra de um merda de estar se comportando assim agora e de ter pensado aquilo já no passado.

Eu não posso enumerar as experiência que tive, mas eu posso claramente colocar um formato nas respostas que tive á elas. O ponto final é esse: quando um homem desconhecido, que te pagou 20 ou 200 para ter o prazer de ver você se retorcer, aperta seu clitóris com a ponta dos dedos enquanto enfia os dedos na sua vagina e simultaneamente morde e lambe seus mamilos com sua língua e dentes, você experenciará muitas coisas. Você vai lutar para bloquear mentalmente suas respostas internas. Excitação e desejo não estarão entre elas.

Não, não é sua opinião. Você só está errado.

Esta tradução parcial não é de um texto feminista porém pareceu pertinente para muitos debates que temos. A postagem original está em inglês, é de Julho/2015 e foi escrita por Jef Rouner, podendo ser acessada aqui: http://www.houstonpress.com/arts/no-it-s-not-your-opinion-you-re-just-wrong-updated-7611752

Tradução livre feita por Maria V.


Eu já tive tantas conversas e trocas de e-mails com alunos nesses últimos anos onde eu os deixo irritados por simplesmente dizer que falar “Essa é a minha opinião” não tira a possibilidade de uma afirmação estar muito errada. Ainda me choca que alguns acreditam que essas 5 palavras de alguma forma dão “carta branca” para falar bobagens. E realmente me assusta que alguns desses estudantes pensam que educação que desafia suas ideias é equivalente a um ataque às suas crenças.
-Mick Cullen

Eu passo tempo demais discutindo na internet do que provavelmente é saudável, e a palavra que eu vim a odiar mais do que qualquer outra é “opinião”. Opinião, ou pior, “crença”, se tornou o escudo de cada noção mal construída que se alastra nas redes sociais.
Existe um erro comum de que uma opinião não pode estar errada. Antes de você se esconder atrás do seu Escudo da Opinião, você precisa se perguntar estas duas questões:

1. Isso realmente é uma opinião?
2. Se isso realmente é uma opinião o quão informada ela é e porquê eu me apego tanto a ela?

Eu te ajudo com a primeira parte. Uma opinião é uma preferência por ou um julgamento de algo. “Minha cor favorita é preta.” “Eu acho que menta tem um gosto horrível.” “Tal programa é o melhor programa da TV”. Todas essas são opiniões. Talvez elas sejam únicas para mim ou então massivamente difundidas com a população geral mas todas têm uma coisa em comum: elas não podem ser verificadas fora do fato de que eu acredito nelas.
Não existe nada de errado em ter uma opinião sobre essas coisas. O problema é gerado por pessoas cujas opiniões são, na verdade, falsas concepções. Se você acha que vacina causa autismo você está expressando algo factualmente errado, não uma opinião. O fato de você talvez continuar acreditando que vacinas causam autismo não move sua concepção falsa para o plano da opinião válida. Nem o fato de que muitos outros acreditam nessa opinião dá mais validade a ela.
Citando John Oliver, que no seu programa de televisão fez referência a uma pesquisa de opinião que mostrava que 1 em cada 4 americanos acreditava que mudanças climáticas não são algo real:

“Quem se importa? Você não precisa da opinião das pessoas sobre um fato. Daí você pode muito bem fazer pesquisas perguntando: “Qual número é maior, 15 ou 5?” ou “Corujas existem?” Ou “Existem chapéus?”

Talvez você tenha visto recentemente quando questões sobre a bandeira Confederada* começaram a aparecer por aí. Talvez seja sua opinião que a escravidão não foi a causa da Guerra Civil, mas os Artigos de Secessão do Texas citam a escravidão 21 vezes (direitos são mencionados apenas 6 vezes, e apenas uma vez em uma frase que não menciona escravidão ou então como pessoas brancas são muito melhores que pessoas negras). Eu preciso lembrar que algumas pessoas têm a opinião de que o Holocausto era falso e que a opinião delas não significa absolutamente nada para a realidade material?

*Nota: A bandeira confederada representa nos Estados Unidos a união de 6 estados escravagistas em 1861 que se juntaram politicamente para continuarem com a escravidão depois de um presidente abolicionista ter vencido as eleições. Ela portanto é uma representação de racismo, um símbolo de ódio racial.

Aqui entramos na segunda questão: a sua opinião é informada/educada e porque você acredita nela? Apesar de tecnicamente terem opiniões que não estão erradas elas podem ter menos valor simplesmente porque elas estão faltando com estrutura.

Aqui está um exemplo. Digamos que eu encontre um fã de um mesmo programa que eu como o “Doctor Who” e para este fã o melhor ator que já interpretou o “Doutor” foi David Tennant. Nada de errado aqui. Porém, aprofundando a discussão nesse assunto este fã me diz que não viu nenhum episódio anterior a 2005 ou nunca ouviu a época em que esse programa passava no rádio. Agora, é possível que mesmo que este fã tivesse feito isso ele teria continuado achando que David Tennant é o melhor intérprete mas também é possível que talvez seria Tom Baker, Paul McGann ou outro.
Em um mundo perfeito a pessoa simplesmente diria “Bom, o David Tennant é o meu favorito dos que eu já assisti”. Existem diversos motivos para não ter assistido as versões antigas do programa afinal não estão no Netflix, é um programa antigo e bastante extenso, conseguir as gravações de rádio pode ser caro financeiramente, etc. Ter atingido uma opinião estreita por um conjunto de informações também estreitas é simplesmente natural.

O que estraga tudo é quando um conjunto estreito de informações é presumido como sendo maior do que realmente é. Existe uma diferença entre acreditar em algo e ter informações as quais você simplesmente não sabia que existiam. É fácil acreditar, por exemplo que “brancos enfrentam tanta discriminação racial quanto pessoas negras” mas apenas se você é completamente ignorante para os fatos como a diferença de desemprego entre brancos e negros, que das 500 pessoas na lista de poderosos e ricos apenas 5 são negras ou para o fato de que dos 43 presidentes dos Estados Unidos 42.5 deles foram brancos.
Em outras palavras, você pode formar uma opinião em uma bolha e pelas primeiras décadas das nossas vidas é o que geralmente fazemos. Porém, eventualmente você vai se aventurar pelo mundo e descobrir que o que você achou que era uma opinião informada era, na verdade, apenas um pequeno pensamento baseado em pouca informação e nos seus sentimentos pessoais. Muitas, muitas, muitas das suas opiniões vão na verdade estar construídas por falta de informação ou simplesmente erradas. Não, o fato de você acreditar nela não a torna mais válida ou merecedora e ninguém deve respeito algum a sua opinião simplesmente porque ela é sua. A realidade não se importa com seus sentimentos.

9 coisas que realmente te tornam uma feminista melhor

Texto original de Setembro/2015, em inglês, por Meghan Murphy para a Feminist Current, link original : http://www.feministcurrent.com/2015/09/11/9-things-that-really-do-make-you-a-better-feminist-than-everybody-else/

Tradução Livre por Maria V.


Porque ler Bustle, você pode perguntar? Bom, naturalmente pelas hilárias listas como a que foi publicada ontem, chamada “9 coisas que não te tornam uma feminista melhor que os outros”. Eu vou te salvar uns minutos que você pode desperdiçar enquanto tira fotos do seu gato e fazer um resumo: Tudo que você faz é feminista e todos são feministas e também feminismo é o que quer que você diga que ele é!

Se sente melhor? Que bom. Eu estou ansiosamente esperando a próxima lista deles, “11 coisas que não tornam Marx um comunista melhor que você”. Você é dono dos meios de produção? E daí?! Não deixe ninguém limitar seu comunismo #comunismoéparatodos. Nasceu rico mas sempre se sentiu mais como um membro da classe trabalhadora por dentro? Nenhum problema. Tomar uma identidade proletária é uma ótima maneira de subverter o sistema de classes.

Mas estou divagando. O lado bom da lista do Bustle é que me inspirou a fazer uma lista própria. Aqui estão nove coisas que de fato te tornam uma feminista melhor:

1) Ser uma mulher

Você pode ser um aliado poderoso para feministas mesmo se você for homem, mas você nunca vai entender completamente a experiência de ser mulher. Porque mulheres são o grupo de humanos que é oprimido pelo patriarcado, como uma classe, e homens são o grupo dominante de humanos nesse sistema então mulheres são as que devem liderar o movimento em direção a sua libertação. Ser uma mulher é central para ser feminista porque feminismo é um movimento de e para mulheres. Enquanto homens também são impactados negativamente pelo patriarcado, no final das contas são homens que se beneficiam dele e mulheres que sofrem com ele nas mãos de homens. O melhor jeito de apoiar o movimento feminista, como um homem, é desafiar outros homens, o privilégio masculino e a violência masculina, De fato, isso é uma boa ajuda e nos salva tempo de ter que estar constantemente explicando para cada homem que conhecemos porque nós não somos de fato brinquedos sexuais. Você pode fazer tudo isso sem se chamar de feminista. Façam, não fiquem contando sobre, garotos.

2) Entender que feminismo não é um sentimento ou uma identidade mas um movimento político.

Feminismo não é sobre usar uma camiseta que diz “sou feminista”. Não é sobre dizer que você é feminista simplesmente por dizer mesmo que você não tenha interesse nenhum em libertar as mulheres da opressão patriarcal. É ok ser nova no feminismo e estar aprendendo – você não tem que saber tudo sobre o movimento para se juntar a ele, mas você tem que entender que não é uma palavra maleável, uma marca, ou um produto a ser ofertado, propagandeado. Ninguém nunca diria “Socialismo é o que você quer que ele seja! Você faz você, cara.” Porque isso é estúpido e também factualmente incorreto.

Se você acha que objetificar mulheres, assédio nas ruas, privilégio masculino, esteriótipos de gênero ou sexualização da violência contra a mulher são coisas boas e ok, então você não é feminista. Tirar uma “selfie”, casar, usar salto alto ou ganhar um bom salário não é feminismo (porém feministas as vezes fazem essas coisas, vê como funciona?). Porque feminismo não é sobre você como um indivíduo se sentindo pessoalmente “bem” ou “empoderada” no momento. Se sentir empoderada não necessariamente produz feminismo. Similarmente, se sentir “bem” não é o mesmo que empoderamento. Empoderamento, no contexto do feminismo, significa empoderamento social para um grupo de pessoas marginalizadas (neste caso, mulheres). É por isso que, por exemplo, posar nua e se sentir sexy numa revista de moda ou de pornografia talvez faça você se sentir bem individualmente (você receberá reforço positivo, se sentirá atraente, terá ganho financeiro, etc) mas não constitui “empoderamento” pois não faz nada para elevar as mulheres enquanto classe.

3) Parar com essa bobagem “anti-intelectual”

Por favor gente! Pensar não é algo ruim. Claro que você não precisa de um grau acadêmico para fazer o feminismo acontecer, óbvio! Mas na mesma linha, essa coisa de “foda-se toda ideologia, foda-se toda a teoria, yeah!” é contraprodutiva e ignorante. Não existe ativismo sem ideologia. Ideologia é o corpo de ideias que enquadra um movimento político. Nós precisamos disso, ou então como diabos vamos saber o que estamos fazendo? (Oi, o que foi? Nós estamos só tirando selfies e gritando “interseccionalidade” umas para as outras no Twitter? Ótimo! Foda-se a ideologia. Fodam-se os movimentos sociais. Uhul!). Da mesma forma, entender a história do movimento é uma coisa positiva. Garante que nós não “reinventemos a roda” de novo e de novo. Garante que nós não reescrevamos a história efetivamente apagando o trabalho e ativismo de milhares e milhares de mulheres que lutaram por alguns dos direitos que nós temos hoje.

Entender como pensar criticamente, entender a ideologia feminista, entender a história do feminismo – essas coisas não são para uma elite esnobe, essas coisas são a fundação. De outra maneira nós não atingimos nada e ficamos perdidas cegamente gritando “Poder para as vadias!” em direção ao abismo. Educação não é algo ruim, é algo bom que foi tornado inacessível para muitas pessoas pelo mundo. Mas educação não é o problema, o sistema é.

4) Entender que o feminismo não é sobre ser politicamente correta

Por favor não me entenda errado nessa aqui – ser feminista significa que uma deve ser respeitosa com as palavras e ações em relação as outras. Dizer e fazer a porra que quisermos quando quisermos é egoísta e irresponsável. Mas nossos esforços para evitarmos sermos ofensivas não precisam nos levar para o politicamente correto.

Ser feminista significa que você pensa criticamente sobre o mundo a sua volta. Você não toma nada como garantido e você questiona o status quo, as normas regentes. Você diz a verdade, mesmo que essa verdade deixe as pessoas desconfortáveis. Mudança deixa as pessoas desconfortáveis. Questionar ideologias dominantes deixam as pessoas desconfortáveis. Ser politicamente correta significa ter certeza que você não vai irritar ninguém e significa que você segue a ordem da linha partidária. A linha partidária pode ser “progressiva” ou “liberal”. Pode ser até mesmo uma linha partidária que alguns chamam de “feminista” mas é ainda assim uma linha partidária. No momento que você para de pensar por si própria, começa a repetir mantras que seus pares repetem sem pensar se aqueles mantras de fato fazem sentido, quando você para de ser corajosa, para de questionar a ideologia e as mensagens por trás do discurso popular, esse é o momento que você não é mais um agente de mudança e sim uma seguidora.

Muitas feministas hoje em dia estão com medo de dizer algo controverso e é deprimente pra caramba. Feministas jovens estão com medo de falar ou questionar o discurso popular com medo de serem rotuladas como intolerantes ou alguma versão de “fóbicas”. Ao invés de empurrarmos de volta, nós que estamos sendo empurradas. Discordância é algo bom. Sua habilidade de pensar por si própria e questionar ideias que são presumidas como corretas é crítica.

5) Não ser desrespeitosa com as mais velhas

Em que ponto ser desrespeitosa com as mais velhas se tornou aceitável no feminismo? Ah é…na Terceira Onda. Ok, então, nós entendemos que adolescentes rebeldes querem dar uma de “você não é minha mãe de verdade” e bater a porta na cara das mais velhas, mas nós não somos adolescentes rebeldes. Nós somos adultas. E se você é feminista é inaceitável utilizar como insulto a palavra “segunda onda”. Isso é ódio as mulheres, é anti-feminista e um lixo desrespeitoso com as que vieram antes de nós, e se você quer fazer isso parabéns, você está reproduzindo o trabalho do patriarcado. Mantenha sua ignorância e continue perpetuando noções sexistas de que mulheres que não são mais jovens são bobas, fora de moda, puritanas indo para o asilo jogar Bingo mas saiba que você não é feminista. Mulheres que estão a mais tempo no movimento provavelmente sabem mais do que você e nós não vamos a lugar nenhum sem elas.

6) Não acusar feministas de odiar sexo ou odiar homens como se fosse algo ruim

Mulheres estão permitidas a odiar homens e a odiar sexo. Odiar homens e odiar sexo é perfeitamente natural. Homens e sexo com homens tem sido a origem de traumas para incontáveis mulheres através dos séculos. Também é perfeitamente natural amar homens em particular e gostar de sexo. Nenhuma dessas realidades são coisas que deveriam ser usadas por feministas para insultar, atacar ou dispensar outras feministas. Ao acusar feministas que desafiam a violência masculina de “odiadoras de sexo” ou “odiadoras de homens” você está reforçando o lixo heteronormativo e alimentando os esteriótipos que dizem que feministas são simplesmente raivosas porque não estão sendo fodidas o suficiente. Essas acusações estão ligadas com a cultura de estupro – é a ideia de que homens podem foder mulheres até a passividade ou foder elas até a heterossexualidade. É a ideia de que apenas mulheres “fodíveis” são mulheres “de verdade”. É a ideia de que mulheres precisam de homens para serem pessoas completas e ainda – que elas existem apenas em relação aos homens. Estas ideias são anti-feministas.

Se uma mulher gosta ou não de homens, gosta ou não de sexo, não deveria ter qualquer peso no seu valor e não diz respeito a se a vida delas, suas ideias, palavras ou ativismo tem significado ou não. Aquilo que o feminismo luta contra é exatamente a noção de que a relação das mulheres para com os homens é o que as torna visíveis e valiosas como seres humanos. É similar ao atacar uma mulher dizendo que ela é feia. Mulheres não existem para serem olhadas ou para foderem com homens. Elas tem o direito de existirem por si próprias! Leve seu machismo lesbofóbico de volta pros fóruns de Direitos dos Homens. Eles amarão isso lá.

7) Não ser ativista do direito dos homens (MRA)

Falando em direito dos homens, sabe o que definitivamente te torna uma feminista melhor? Lutar pelos direitos das mulheres, não pelos direitos dos homens. E com isso eu quero dizer que, invés de lutar pelo direito dos homens de pagarem por um boquete, tente lutar pelos direitos humanos das mulheres, o que inclui a possibilidade de ter moradia e comida sem ter que prover boquetes aos homens. Um aspecto frequentemente não olhado, porém essencial do feminismo é a ideia de que mulheres são seres humanos. É isso mesmo! Nós somos radicais assim. E porque nós somos humanas e merecemos coisas como comida, água e abrigo, nós devemos poder ter acesso a elas sem ter que foder com homens estranhos ou sermos submetidas a abuso. Se você acha que homens tem DIREITO a sexo, você está no caminho errado. Ninguém tem direito a sexo. Não é um direito humano. Seu fetiche por mulheres asiáticas, pornô com garotas colegiais, chamar mulheres de putas enquanto puxa o cabelo delas e as sufoca não é uma parte inata da sua sexualidade. Só significa que você fica excitado desumanizando mulheres.

8) Entender que nudez e objetificação não são a mesma coisa

Feministas não odeiam os corpos nus de mulheres. Nós amamos os corpos de mulheres. Nós temos eles! Nós usamos eles todos os dias para coisas como comer, andar e abraçar filhotinhos de animais. Nós amaríamos se esses corpos pertencessem a nós, para nosso uso e prazer ao invés da população masculina.

Nossos corpos não existem para serem admirados, sexualizados ou fodidos. Eles existem para nós vivermos neles. Nossa cultura fundiu sexo e sexualidade em um nível tão alto que nós acreditamos que eles são uma coisa só. Mas eles não são. Objetificação pode “sentir” como algo sexy porque nós aprendemos a sexualizar a objetificação. Nós aprendemos a performar sexualidade invés de senti-la. O motivo pelo qual nudez feminina é tão preocupante não é porque feministas estão com medo de sua própria pele mas porque não é permitida a nudez feminina existir fora da pornificação. É por isso que as pessoas surtam quando veem mulheres amamentando em público. Porque nós pensamos que o único motivo para um seio estar para fora é para homens olharem para ele. Pare de transformar nossos corpos em material de ejaculação e talvez o “puritanismo” da sociedade se desmantele.

9) Pelo amor da deusa, pare de tentar fazer o feminismo parecer legal e bacana

Tornar o feminismo popular não funciona. Não porque eu não acho que feminismo não deveria ser popular mas porque para vender ele para as massas de hoje ele precisa ser tão diluído ao ponto de perder todo seu significado, (é só ver a lista Bustle original). Nós não precisamos nos vender. Nós não deveríamos ter que nos vender. Nós podemos manter nossos valores e ainda assim trazer mulheres para luta. Se pessoas não querem vir para a luta com o feminismo de fato porque elas não gostam do feminismo de fato, então talvez elas precisem de mais um tempo para pensar. Ou talvez elas não sejam feministas. Eu sou totalmente a favor da educação mas vamos fazer isso direito. Tornar o feminismo sexy e digestível para pessoas que não acham que o patriarcado é um problema não vai ajudar o feminismo. Ser feminista não significa que você não pode ser legal e bacana ou até mesmo atraente mas o feminismo de verdade não é sobre ser legal, bacana e atraente. Simplesmente não é tão divertido, legal, bacana ou atrativo. O que eu quero dizer é, nós estamos lutando contra coisas como abuso doméstico, estupro, escravidão sexual, incesto, pedofilia e feminicídio. Não é legal, divertido e sexy. Esse não é o ponto. Feminismo não é a porra de uma moda.

Comprar sexo não deveria ser legal

Texto original de Agosto/2015, em inglês, por Rachel Moran, fundadora do Espaço Internacional, que advoga pela abolição da prostituição e autora do livro de memórias “Paga para: Minha Jornada Pela Prostituição”.

Link para o texto original: http://www.nytimes.com/2015/08/29/opinion/buying-sex-should-not-be-legal.html?smid=fb-share&_r=2

Tradução Livre por Maria V.


DUBLIN – AQUI, na minha cidade, no início do mês, o conselho internacional da Anistia Internacional promoveu uma nova política clamando pela descriminalização mundial da prostituição. As pessoas que estão propondo isso argumentam que descriminalizar a prostituição é a melhor maneira de proteger “os direitos humanos das trabalhadoras sexuais”, apesar de que essa política se aplica igualmente a cafetões, donos de bordéis e homens que compram sexo.

O objetivo que a Anistia diz ter é remover o estigma das mulheres prostituídas para que elas estejam menos vulneráveis ao abuso operado nas sombras por criminosos. O grupo também está fazendo um chamado aos governos para “assegurar que trabalhadoras sexuais desfrutem total e igualmente da proteção contra exploração, tráfico e violência”.

O voto da Anistia surge no contexto de um prolongado debate internacional sobre como lidar com a prostituição e proteger os interesses das chamadas “trabalhadoras sexuais”. É um debate no qual eu tenho um risco pessoal – e eu acredito que a Anistia está cometendo um erro histórico.

Eu entrei na prostituição – como a maioria entra – antes mesmo de ser uma mulher adulta. Aos 14 anos eu fui colocada aos cuidados do Estado depois de meu pai cometer suicídio e por minha mãe sofrer de uma doença mental.

Dentro de um ano eu estava nas ruas, sem abrigo ou casa, educação, trabalho ou habilidades. Tudo que eu tinha era o meu corpo. Aos 15 anos, eu conheci um jovem rapaz que achou que seria uma boa ideia eu me prostituir. Como eu era “carne fresca”, eu era uma mercadoria com alta demanda.

Por sete anos eu fui comprada e vendida. Nas ruas, muitas vezes 10 vezes por noite. É difícil descrever o efeito psicológico total da coerção e o quão fundo destruiu minha confiança. No final da minha adolescência eu estava utilizando cocaína para tentar me livrar da dor.

Eu tremo quando ouço as palavras “trabalhadora sexual”. Vender meu corpo não era um trabalho. Não tinha nenhuma semelhança com os empregos comuns no ritual degradante de estranhos utilizando meu corpo para saciar suas vontades. Eu era duplamente explorada – porque aqueles que me cafetinavam e por aqueles que me compravam.

Eu sei que existem alguns que advogam que mulheres na prostituição vendem sexo como adultas que consentem. Mas as que fazem isso são uma minoria privilegiada – majoritariamente mulheres brancas, de classe média, ocidentais, em agências de “acompanhantes” – nem remotamente representativas da maioria global. O direito delas de vender não deveria pisar no meu direito e no de outras de não ser vendidas numa troca que caça e busca mulheres já marginalizadas por classe e raça.

O esforço para descriminalizar a prostituição no mundo não é um movimento progressista. Implementar essa política irá simplesmente calcificar na lei o direito dos homens de comprar sexo, enquanto descriminalizar cafetões não protege ninguém, a não ser os cafetões. Nos Estados Unidos, estima-se que a prostituição valha pelo menos 14 bilhões de dólares por ano. A maioria desse dinheiro não vai para garotas adolescentes como eu era. Mundialmente, o tráfico humano é o segundo maior negócio do crime organizado, ficando atrás do cartel de drogas e a par com o negócio de armas.

Nos países que descriminalizaram a prostituição, o legal atraiu o ilegal. Com apoio popular, as autoridades em Amsterdam fecharam boa parte do famoso distrito da “Luz Vermelha” (Red Light) – porque ele tinha se tornado um ímã para atividade criminal.

Na Alemanha, onde a prostituição foi legalizada em 2002, a indústria explodiu. É estimado que 1 milhão de homens pagam para usar as 450 mil garotas e mulheres todos os dias. Turistas sexuais não param de chegar, apoiando os “mega bordéis” que tem até 12 andares.

Na Nova Zelândia, onde a prostituição foi descriminalizada em 2003, jovens mulheres em bordéis me contaram que homens agora demandam ainda mais por menos, como nunca antes. E porque a troca é socialmente sancionada, não existe nenhum incentivo do governo de promover estratégias de saída para as que querem sair disso. Essas mulheres estão presas.

Mas existe uma alternativa: uma estratégia, originada na Suécia, que foi adotada por outros países como a Noruega, a Islândia e o Canadá e é as vezes chamada de o “Modelo Nórdico”.

O conceito é simples: torna a venda do sexo legal mas a compra ilegal – dessa maneira mulheres podem conseguir ajuda sem serem presas, assediadas ou pior e a lei criminal é usada para deter compradores pois são eles que alimentam o mercado. Existem inúmeras técnicas como operações em hotéis, propagandas falsas para inibir “clientes” e o envio de intimações judicias para o endereço domiciliar, onde as esposas dos homens acusados podem ficar ciente delas.

Desde que a Suécia passou essa lei, o número de homens que dizem comprar sexo caiu drasticamente (aproximadamente 7,5%, mais ou menos metade da taxa reportada por homens americanos). Em contraste, depois da vizinha Dinamarca descriminalizar a prostituição, a troca de sexo por dinheiro cresceu 40% em um período de 7 anos.

Contrário ao esteriótipo imaginado, o “cliente” comum não é mais um “perdedor”. Na América, uma proporção significativa dos homens que compram sexo tem frequentemente uma renda anual acima de 120 mil dólares e são casados. A maioria tem alta taxa de escolaridade e muitos tem crianças.

Porque não deixar então que as multas cobradas por comprar sexo desses homens privilegiados paguem pelo aconselhamento, educação e abrigo de mulheres? Afinal são eles que tem cartões de crédito e possibilidades de escolhas, não as mulheres e meninas prostituídas.

A Anistia Internacional propõe uma prostituição livre de “força, fraude ou coerção” mas eu sei pelo que vivi e testemunhei que prostituição não pode ser desvinculada de coerção. Eu acredito que a maioria dos delegados da Anistia que votaram em Dublin queriam ajudar mulheres e meninas na prostituição e erroneamente permitiram a eles mesmos ser vendida a noção de que descriminalizar cafetões e clientes de alguma forma atingia esse objetivo. Mas no nome dos direitos humanos, o que eles votaram foi pela descriminalização da violação desses direitos, em escala global.

A recomendação ainda vai ir ao comitê para a decisão final. Muitos dos líderes e membros da Anistia tem consciência que a credibilidade e integridade da sua organização está na linha com essa decisão. Não é tarde demais para parar essa política desastrosa antes que ela machuque mulheres e crianças mundialmente.

Os Usos do Erótico: O Erótico como Poder, por Audre Lorde

Artigo Original: Use of the Erotic: The Erotic as Power, in: LORDE, Audre. Sister outsider: essays andspeeches. New York: The Crossing Press Feminist Series, 1984. p. 53-59.

Tradução feita por Tatiana Nascimento dos Santos – Dezembro de 2009, retirada do Zine “Textos escolhidos de Audre Lorde” que pode ser acessado através do link: https://apoiamutua.milharal.org/files/2014/01/AUDRE-LORDE-leitura.pdf


“Há muitos tipos de poder: os que são utilizáveis e os que não são, os reconhecidos e os desconhecidos. O erótico é um recurso que mora no interior de nós mesmas, assentado em um plano profundamente feminino e espiritual, e firmemente enraizado no poder de nossos sentimentos não pronunciados e ainda por reconhecer. Para se perpetuar, toda opressão deve corromper ou distorcer as fontes de poder inerentes à cultura das pessoas oprimidas, fontes das quais pode surgir a energia da mudança. No caso das mulheres, isso se traduziu na supressão do erótico como fonte de poder e informação em nossas vidas.

Fomos ensinadas a desconfiar desse recurso, que foi caluniado, insultado e desvalorizado por pela sociedade ocidental. De um lado, a superficialidade do erótico foi fomentada como símbolo da inferioridade feminina; de outro lado, as mulheres foram induzidas a sofrer e se sentirem desprezíveis e suspeitas em virtude de sua existência. Daí é um pequeno passo até a falsa crença de que, só pela supressão do erótico de nossas vidas e consciências, podemos ser verdadeiramente fortes. Mas tal força é ilusória, porque vem maquiada no contexto dos modelos masculinos de poder.

Como mulheres, temos desconfiado desse poder que emana de nosso conhecimento mais profundo e irracional. Durante toda nossa vida temos sido alertadas contra ele pelo mundo masculino, que valoriza sua profundidade a ponto de nos manter por perto para que o exercitemos em benefício dos homens, mas ao mesmo tempo tempo a teme demais para sequer examinar a possibilidade de vivê-la por si mesmos. Então as mulheres são mantidas numa posição distante/inferior para serem psicologicamente ordenhadas, mais ou menos da mesma forma com que as formigas mantêm colônias de pulgões que forneça o nutrimento que sustenta a vida de seus mestres. Mas o erótico oferece um manancial de força revigorante e provocativa à mulher que não teme sua revelação, nem sucumbe à crença de que as sensações são o bastante.

O erótico tem sido freqüentemente difamado pelos homens, e usado contra as mulheres. Tem sido tomado como uma sensação confusa, trivial, psicótica e plastificada. É por isso que temos muitas vezes nos afastado da exploração e consideração do erótico como uma fonte de poder e informação, confundindo isso com seu oposto, o pornográfico. Mas a pornografia é uma negação direta do poder do erótico, uma vez que representa a supressão do sentimento verdadeiro. A pornografia enfatiza a sensação sem sentimento.

O erótico é um lugar entre a incipiente consciência de nosso próprio ser e o caos de nossos sentimentos mais fortes. É um sensoíntimo de satisfação ao qual, uma vez que o tenhamos vivido, sabemos que podemos almejar. Porque uma vez tendo vivido a completude dessa profundidade de sentimento e reconhecido seu poder, não podemos, por nossa honra e respeito próprio, exigir menos que isso de nós mesmas.

Nunca é fácil demandar o máximo de nós mesmas, de nossas vidas, de nosso trabalho. Almejar a excelência é ir além da mediocridade incentivada por nossa sociedade. Mas sucumbir ao medo do sentimento e trabalhar no limite é um luxo que só pode se permitir quem não tem aspirações, e essas pessoas são aquelas que não desejam guiar seus próprios destinos.Mas a demanda íntima pela excelência que aprendemos do erótico não pode ser mal entendida como exigir o impossível nem de nós mesmas nem das outras. Tal exigência incapacita todo mundo no processo. Porque o erótico não é sobre o que fazemos; é sobre quão penetrante e inteiramente nós podemos sentir durante o fazer. E uma vez que saibamos o tamanho de nossa capacidade de sentir esse senso de satisfação e realização, podemos então observar qual de nossos afãs vitais nos coloca mais perto dessa plenitude.

O sentido de cada coisa que fazemos é fazer nossas vidas, e a vida de nossas crianças, mais ricas e mais viáveis. Pela celebração do erótico em todas as nossas empreitadas, meu trabalho se torna uma decisão consciente – um leito muito esperado em que me deito com gratidão e do qual levanto empoderada. Obviamente, mulheres tão empoderadas são perigosas. Então somos ensinadas a separar a demanda erótica de quase todas as áreas mais vitais de nossas vidas além do sexo. E a negligência às satisfações e fundamentos eróticos de nossa práxis se traduz em desafeto por grande parte do que fazemos. Por exemplo, quantas vezes amamos de verdade nosso trabalho até mesmo quando temos dificuldades nele?

O maior horror de qualquer sistema que define o bom em termos de lucro mais do que em termos de necessidade humana, ou que define a necessidade humana pela exclusão dos componentes psíquicos e emocionais dela – o maior horror desse sistema é que priva de nosso trabalho seu valor erótico, seu poder erótico, e rouba da vida seu interesse e plenitude. Tal sistema reduz o trabalho a uma maquete de necessidades, um dever pelo qual ganhamos o pão ou o esquecimento de nós mesmas e de quem amamos. Mas isso é o mesmo que cegar uma pintora e dizer a ela que melhore sua obra, e ainda que goste de pintar. Isso não é só perto do impossível, é também, profundamente, cruel.

Como mulheres, precisamos buscar formas para que nosso mundo possa ser realmente diferente. Estou falando, aqui, é da necessidade de novamente avaliarmos a qualidade de todos os aspectos de nossas vidas e de nosso trabalho, e de como nos movimentamos através e até eles. A própria palavra erótico vem do grego eros, a personificação do amor em todos seus aspectos – nascido do Caos, e personificando o poder criativo e a harmonia. Então, quando falo do erótico, o estou pronunciando como uma declaração da força vital das mulheres, daquela energia criativa fortalecida, cujo conhecimento e uso estamos agora retomando em nossa linguagem,nossa história, nosso dançar, nossoamar, nosso trabalho, nossas vidas.

Há tentativas freqüentes de se equiparar a pornografia e o erotismo, dois usos diametralmente opostos do sexual. Por causa de tais tentativas, se tornou recorrente separar o espiritual (psíquico e emocional) do político, vê-los como contraditórios ou antitéticos. “Como assim, uma revolucionária poética, um traficante de armas que medita?”. Da mesma forma, temos tentado separar o espiritual do erótico, e assim temos reduzido o espiritual a um mundo de afetos insípidos, do asceta que deseja sentir o nada. Mas nada está mais distante da verdade. Porque a posição ascética é uma do mais grandioso medo, da mais extrema imobilidade.

A abstinência severa do asceta torna-se a obsessão dominadora. E não é uma que se embase na autodisciplina, mas sim na abnegação. A dicotomia entre o espiritual e o político é igualmente falsa, resultante de uma atenção displicente de nosso conhecimento erótico. Porque a ponte que os conecta é formada pelo erótico – o sensual –, aquelas expressões físicas, emocionais e psíquicas do que há de mais profundo e forte e farto dentro de cada uma de nós, a ser compartilhado: as paixões do amor, em seus mais fundos significados.

Além do raso, a tão usada expressão “me faz sentir bem” reconhece o poder do erótico como um conhecimento legítimo, pois o que ela significa é o primeiro e mais poderoso guia que conduz a qualquer entendimento. E entendimento nada mais é do que um colo que abriga justamente, e dá sentido, aquela sabedoria nascida do mais fundo. E o erótico é o nutriente e o embalar de toda nossa sabedoria mais profunda. O erótico, para mim, acontece de muitas maneiras, e a primeira é fornecendo o poder que vem de compartilhar intensamente qualquer busca com outra pessoa. A partilha do gozo, seja ele físico, emocional, psíquico ou intelectual, monta uma ponte entre quem compartilha, e essa ponte pode ser a base para a compreensão daquilo que não se compartilha, enquanto, e diminuir o medo da suas diferenças.

Outra forma importante por que o erótico opera é ampliando franca e corajosamente minha capacidade de gozar. Assim como meu corpo se expande com a música, se dilatando em reação a ela, escutando seus ritmos profundos, tudo aquilo que eu sinto também se dilata à experiência eroticamente satisfatória, seja dançando, construindo uma estante de livros, escrevendo um poema, examinando uma idéia. Essa auto-conexão compartilhada é um indicador do gozo que me sei capaz de sentir, um lembrete de minha capacidade de sentimento. E essa sabedoria profunda e insubstituível da minha capacidade ao gozo me põe frente à demanda de que eu viva toda a vida sabendo que essa satisfação é possível, e não precisa ser chamada de casamento, nem deus, nem vida após a morte.

Essa é uma razão pela qual o erótico é tão temido, e tantas vezes relegado unicamente ao quarto, isso quando chega a ser reconhecido. Pois uma vez que começamos a sentir intensamente todos os aspectos de nossas vidas, começamos a esperar de nós mesmas, e de nossos afãs vitais, que estejamos em sintonia com aquele gozo que nos sabemos capazes de viver. Nossa sabedoria erótica nos empodera, se torna uma lente pela qual fazemos um escrutínio de todos os aspectos de nossa existência, o que nos leva a examiná-los honestamente em termos de seus significados relativos em nossas vidas. E essa é uma grande responsabilidade, surgida desde dentro de cada uma de nós, de não nos conformarmos com o que é conveniente, com o que é falseado, convenientemente suposto ou meramente seguro.
Durante a segunda guerra mundial, comprávamos potes de plástico hermeticamente fechados com uma margarina incolor dentro, que vinha com uma cápsula pequena e densa de corante amarelo, posta como um topázio do lado de fora da embalagem clara. Deixávamos a margarina no sol um tempo, para amaciar, e aí furávamos a pequena cápsula na massa macia e pálida da margarina. Então, pegando a embalagem com cuidado entre os dedos, balançávamos cuidadosamente pra frente e pra trás, várias vezes, até que a cor estivesse se espalhado completamente por todo o pote de margarina, colorindo-a perfeitamente.

O erótico é esse cerne dentro de mim. Quando liberado de seu invólucro intenso e constritor, ele flui através de minha vida, colorindo-a com o tipo de energia que amplia e sensibiliza e fortalece toda minha experiência. Fomos criadas pra temer o sim dentro de nós, nossos mais profundos desejos. Mas quando aprendemos a identificá-los, aqueles que não melhoram nosso futuro perdem seu poder e podem ser mudados. O medo de nossos desejos os mantém suspeitos e indiscriminadamente poderosos, já que suprimir qualquer verdade é dotá-la de uma força insuportável. O medo de que não vamos dar conta de crescer além de quaisquer distorções que possamos achar em nós mesmas é que nos mantém dóceis, leais e obedientes, definidas pelo que vem de fora, e que nos leva a aceitar muitos aspectos da opressão que sofremos por sermos mulheres. Quando vivemos fora de nós mesmas, e com isso quero dizer que vivemos por diretrizes alheias unicamente, mais que por nossa sabedoria e necessidades internas, quando vivemos longe daquelas trilhas eróticas de dentro de nós mesmas, então nossas vidas estão limitadas pelas formas externas e alheias, e nós nos conformamos com as necessidades de uma estrutura que não é baseada na necessidade humana, e muito menos nas individuais.

Mas quando começamos a viver desde dentro pra fora, conectadas ao poder do erótico dentro de nós e permitindo que esse poder preencha e inspire nossas formas de atuar com o mundo que nos rodeia, então é que começamos a ser responsáveis por nós mesmas no sentido mais profundo. Pois ao começarmos a identificar nossos sentimentos mais profundos é que desistimos de nos satisfazer com sofrimento e auto-negação, e o embotamento que tantas vezes parece ser a única alternativa a isso em nossa sociedade. Nossos atos contra a opressão se tornam íntegros com sermos, motivados e empoderados desde dentro.

Em contato com o erótico, eu me rebelo contra a aceitação do enfraquecimento e de todos os estados de meu ser que não são próprios de mim, que me foram impostos, como a resignação, o desespero, o auto-aniquilamento, a depressão, a auto-negação. E sim, há uma hierarquia. Existe diferença entre pintar a cerca do jardim e escrever um poema, mas é uma só de quantidade. E não há, de onde vejo, nenhuma diferença entre escrever um poema maravilhoso e me mexer na luz do sol junto ao corpo de uma mulher que amo.

Isso me traz a uma última consideração sobre o erótico. Compartilhar o poder dos sentimentos de cada pessoa é diferente de usar os sentimentos de outra pessoa como lenço de papel. Quando não atentamos a nossas experiências, eróticas ou de outro tipo, não estamos compartilhando, e sim usando os sentimentos de quem participa conosco na experiência. E usar alguém sem seu consentimento é abuso.

Para ser utilizado, nosso sentimento erótico tem que ser identificado. A necessidade de compartilhar em profundidade de sentimento é uma necessidade humana. Mas na tradição européia-estadunidense, essa necessidade é satisfeita com certos encontros eróticos ilícitos. Tais ocasiões quase sempre se caracterizam por falta de atenção mútua, pela pretensão de chamá-las pelo que não são, seja isso religião, ou arrebatamento, violência da multidão ou brincar de médico. E esse chamamento torto à necessidade e ao ato faz surgir aquela distorção que resulta em pornografia e obscenidade – o abuso do sentimento.

Quando não atentamos à importância do erótico no desenvolvimento e nutrição de nosso poder, ou quando não atentamos a nós mesmas na satisfação de nossas necessidades eróticas quando interagimos com outras, estamos nos usando como objetos de satisfação, ao invés de compartilharmos nosso gozo no satisfazer, ao invés de estabelecer conexões entre nossas parecenças e nossas diferenças. Se recusamos a consciência do que estamos sempre sentindo, por mais confortável que isso possa parecer, estamos nos privando de parte da experiência, e nos permitindo ser reduzidas ao pornográfico, ao abusado, ao absurdo.

O erótico não pode ser sentido à nossa revelia. Como uma negra lésbica feminista, tenho um sentimento, um entendimento e uma sabedoria particular por aquelas irmãs com quem eu tenha dançado intensamente, brincado, ou até mesmo brigado. E essa participação intensa numa experiência compartilhada é, muitas vezes, o precedente à realização de ações conjuntas que antes não seriam possíveis. Mas as mulheres que continuam agindo exclusivamente sob as normas da tradição masculina européia-estadunidense não podem compartilhar facilmente essa carga erótica. Eu sei que ela não estava acessível pra mim quando eu tentava adaptar minha consciência a esse modo de vida e sensação. Somente agora é que encontro mais e mais mulheres-identificadas-com mulheres com bravura o bastante para arriscar compartilhar a carga elétrica do erótico sem dissimulação, e sem distorcer a natureza enormemente poderosa e criativa dessa troca.

Reconhecer o poder do erótico em nossas vidas pode nos dar a energia necessária pra fazer mudanças genuínas em nosso mundo, mais que meramente estabelecer uma mudança de personagens no mesmo drama tedioso. Pois não só tocamos nossa fonte mais profundamente criativa, mas fazemos o que é fêmeo e autoafirmativo frente a uma sociedade racista, patriarcal e anti-erótica.”

Como ex-prostituta, a sensação é maravilhosa de saber que agora existem lugares onde você não pode estar legalmente à venda

Para os homens, prostituição é como alugar um filme com o poder de escrever todo o script

Texto original de Junho/2015, em inglês, por Diane Martin: http://www.independent.co.uk/voices/comment/as-a-former-prostitute-it-feels-wonderful-that-there-are-now-places-where-i-could-not-legally-be-for-sale-10292236.html

Tradução Livre por Maria V.


É agora ilegal comprar sexo na Irlanda do Norte – e como uma sobrevivente da prostituição essa é uma medida que eu gostaria de ver extendida para o resto do Reino Unido. A Suécia foi o primeiro país a implementar essa lei em 1999, e em Março eu visitei Stockholm para conhecer aqueles responsáveis por desenvolver essa proposta, frequentemente referida como o Modelo Nórdico. Ela descriminaliza a venda do sexo e torna pagar por sexo uma ofensa criminal. É designada para dar fim a demanda de homens que pagam por sexo – a demanda que impulsiona o negócio da prostituição e do tráfico de mulheres para ela – e promover serviços de saída da prostituição especializados. É um modelo que eu tenho apoiado há muito tempo e minha visita apenas fortaleceu essa visão.

Para o que eu estava despreparada, porém, era para o impacto pessoal de estar em um país onde o acesso ao meu corpo, ou de qualquer um, não poderia ser legalmente comprado. Uma outra mulher na viagem, como eu, era sobrevivente da prostituição e nós compartilhamos o quão maravilhosa era a sensação de estar em um lugar onde nós não poderíamos estar legalmente a venda. Há quase 20 anos eu tenho trabalhado para apoiar mulheres exploradas através da prostituição e melhorar e desenvolver os serviços necessários para elas sairem e reconstruirem suas vidas. Minha experiência na prostituição começou a mais de 30 anos atrás, situada no suposto “alto nível” da prostituição em Londres, e depois traficada desse país para um círculo de prostituição em outro.

Eu cheguei a Londres no final da minha adolescêndia para me encontrar enganada sobre as circustâncias sobre onde estava. Logo o dinheiro acabou e a pressão começou; meus novos “amigos” agora eram menos amigáveis. Eu aprendi que as mulheres a minha volta não haviam adquirido seus apartamentos no Chelsea através de trabalhos como modelos. Eu acabei muito fora da minha zona e envolta por pessoas mais velhas que se deram conta de que poderiam fazer muito dinheiro comigo; não apenas o cafetão fica com uma parte, mas pessoas fingindo ser meus amigos que reconheceram minha vulnerabilidade e escolheram cultivar relações de controle comigo.

Eu fui de uma garota feliz e confiante para me encontrar de pé numa cobertura sendo “cuidada” por uma Madame (cafetina). Era como olhar acontecer em câmera lenta com outra pessoa. De repente eu estava num vestido de noite de marca as 5 da tarde no meio de Mayfair perguntando a um policial pelas direções que me tinham sido passadas, desejando que ele visse minha situação. Era como estar fora do meu corpo, olhando outra pessoa. Infelizmente o que estava por vir não era uma experiência extra-corporal. Eu lembro do estresse constante, da ansiedade e os sentimentos de pavor enquanto estava na prostituição; caminhando através de uma porta e imaginando em que estado eu sairia. Esperando ser pega, como algo em uma prateleira. A observação, a dissecação, ser a mercadoria que todos no cômodo sabiam que você era. Para os homens, a prostituição é como alugar um filme mas com o poder de escrever todo o script. Eles são o diretor, eles são a estrela, você é o acessório.

Quando as pessoas que estão te pagando por sexo são famosas, no governo, em cargos públicos, membros dos governos de outros país ou que possuem imunidade diplomática, você não tem confiança nenhuma de que acreditariam em você ou que você seria protegida se você reportasse violência ou estupro. Infelizmente, a melhor educação e oportunidade não os livram de comportamentos degradantes ou violentos. A sensação de direito que alguns homens acreditam ter em torno de algo pelo que pagaram atravessa todos os segmentos da sociedade. O papel de parede mais chique e o mini-bar não diluem a sensação quando alguém tem uma arma e te pergunta se você gostaria de ver sua mãe novamente. Estar numa suíte na cobertura de um prédio não suaviza o golpe do estupro ou de ter alguém deixando marcas de mordidas em todo seu rosto.

Porque será que mulheres prostituídas em todo o mundo empregam as mesmas técnicas psicológicas de coping que vítimas de abuso sexual? Porque abuso sexual é o que está acontencendo; mas nós não devemos acreditar nisso porque devido a dinheiro ter sido trocado ou uma moradia, ou comida, o que está acontecendo agora é magicamente outra coisa. Eu falo da minha experiência para desafiar a hierarquia da vítima merecedora e a narrativa prevalescente que diz que locais fazem toda a diferença. Eu quero que seja perto de impossível para o crime organizado, cafetões e apostadores operarem aqui e eu quero fazer parte de uma sociedade que rejeite a idéia de que pessoas estão a venda.

A meia noite, a Irlanda do Norte comunicou para sua população e para o mundo que mulheres não estão mais a venda. Para o resto do Reino Unido o negócio segue como sempre. E que negócio lucrativo é para os exploradores, os cafetões e os traficantes – e que custoso é para meninas e mulheres que se encontram na ponta da demanda masculina para seus corpos. Nós temos que decidir como sociedade se vamos nos levantar contra uma poderosa indústria do sexo e estar do lado das exploradas ao invés do dos exploradores.
Eu me pergunto quanto tempo vai demorar para que o resto do Reino Unido terá que esperar até sejamos capazes de colocar o sinal de “NÃO ESTÁ PARA VENDA”.

O que faz uma mulher?

travesti

Esta postagem contém dois textos traduzidos. Depois da tradução do texto “O que faz uma mulher” de Burkett me deparei com o fato de Anne Fausto-Sterling, professora de Biologia e Estudos de Gênero estar sendo agredida virtualmente por apoiar o texto, como muitas mulheres também estão sendo. Pareceu apropriado então traduzir também o texto “Me chame de Caitlyn ou então: o crescimento do autoritarismo das políticas transgênero” de O’Neill.
Texto original de Junho/2015, em inglês, por Elinor Burkett: http://www.nytimes.com/2015/06/07/opinion/sunday/what-makes-a-woman.html?ref=opinion&_r=1
Texto original de Junho/2015, em inglês, por Brendan O’Neill: http://blogs.spectator.co.uk/culturehousedaily/2015/06/call-me-caitlyn-or-else-the-rise-of-authoritarian-transgender-politics/
Tradução livre por Maria V.


O que faz uma mulher?

Homens e mulheres tem cérebros diferentes?
Quando Lawrence H. Summers era presidente de Harvad e sugeriu que essa diferença existia, ocorreu uma reação sem dó e piedade. Especialistas o rotularam como sexista. Membros da faculdade o consideraram um troglodita. Alunos pararam doações.
Mas quando Bruce Jenner disse basicamente a mesma coisa em Abril em sua entrevista para Diane Sawyer, ele foi celebrado por sua bravura, até mesmo por seu progressismo.
“Meu cérebro é muito mais de mulher do que é de homem” ele disse a ela, explicando como ele sabia que era transgênero.

Esse foi o prelúdio para uma nova capa de página e entrevistas na Vanity Fair que ofereceram um vislumbre à idéia do que é ser mulher para Caitlyn Jenner: um corset que valoriza e aumenta o decote, posições sensuais, muito rímel e a perspectiva de “noites de garotas” regulares onde se falaria sobre cabelos e maquiagens. Ms.Jenner foi recebida com ainda mais aplauso. A ESPN anunciou que daria a Ms.Jenner um prêmio por coragem. Presidente Obama também a elogiou. Para não ficar para trás, Chelsea Manning pulou no trem do gênero de Ms.Jenner no Twitter jorrando, “Eu estou tão mais ciente das minhas emoções; muito mais sensível emocionalmente (e fisicamente).”

Uma parte de mim estremeceu.
Eu tenho lutado por boa parte dos meus 68 anos contra os esforços de colocar mulheres – nossos cérebros, nossos corações, nossos corpos, até mesmo nosso humor – em caixinhas arrumadas, para reduzir-nos a esteriótipos antigos. De repente, eu descubro que muitas das pessoas que eu achava que estavam lutando do mesmo lado que eu – pessoas que orgulhosamente chamam-se de progressistas e que apoiam veementemente a necessidade humana por auto-determinação – estão comprando a noção de que pequenas diferenças nos cérebros de homens e mulheres levam a enormes diferenças nos caminhos e que algum tipo de destino gendrificado está codificado nos nossos cérebros.
Esse é o tipo de bobagem que era usada pra reprimir mulheres por séculos. Mas o desejo de apoiar pessoas como Ms.Jenner e suas jornadas em direção aos seus verdadeiros “eu’s” estranhamente e involuntariamente trouxe isso de volta.

Pessoas que não viveram todas suas vidas como mulheres, seja Ms.Jenner ou Mr.Summers, não deveriam ter o direito de nos definir. Isto é algo que homens tem feito durante muito tempo. E por mais que eu reconheça e apoie o direito de homens de tirarem o manto da masculinidade, eles não podem afirmar sua reivindicação a dignidade das pessoas transgênero ao atropelar a minha como mulher. A verdade dessas pessoas não é a minha verdade. A identidade de mulher delas não é a minha identidade de mulher. Elas não navegaram pelo mundo como mulheres e foram moldadas por tudo que isso acarreta. Elas não sofreram em reuniões com homens falando com seus seios ou acordaram apavoradas depois de sexo no dia seguinte porque esqueceram de tomar a pílula no dia anterior. Elas não tiveram que lidar com a vinda da sua menstruação no meio de um metrô lotado, a humilhiação de receber menos que seus colegas homens, ou o medo de ser fraca demais para repelir estupradores.

Para mim e para muitas outras mulheres, feministas ou não, uma das partes difíceis de testemunhar e querer reunir com o movimento para direitos para transgêneros está na linguagem que um grande número de pessoas trans insistem, na noção de feminilidade que estão articulando e na sua desconsideração pelo fato de que ser mulher significa ter acumulado certas experiências, suportado determinadas indignidades e ter algumas “cortesias” em uma cultura que reaje a você como uma.

Cérebros são um bom lugar para começar porque uma coisa que a ciência aprendeu sobre eles é que eles de fato são moldados por experiências e cultura. A parte do cérebro que lida com a navegação é maior em taxistas de Londres, assim como a região que lida com o movimento dos dedos da mão esquerda em violinistas destros.
“Você não pode pegar um cérebro e dizer “esse cérebro é de uma menina” ou “esse cérebro é de um menino” disse Gina Rippon, uma neuroscientista na Universidade de Britain’s Aston, para o jornal The Telegraph ano passado. “As diferenças entre cérebros de homens e mulheres são causadas pelo ambiente generificado”, ela diz.

O ambiente generificado da experiência de Ms.Jenner inclui uma robusta dose de privilégio masculino que poucas mulheres poderiam possivelmente imaginar. Enquanto o jovem “Bruiser” (pugilista, boxeador) como Bruce Jenner era chamado quando criança, estava sendo aplaudido e seguindo para uma universidade com uma bolsa de atletismo, poucas mulheres atletas poderiam sequer ter a esperança para tanta grandeza já que universidades ofereciam pouquíssimo financiamento para esportes que envolvessem mulheres. Quando Mr.Jenner procurou por um emprego para se manter durante seus treinos para a Olimpiada de 1976, ele não teve que rastejar pelo escasso mercado de anúncios “Contrata-se – Mulheres” nos jornais, e ele conseguia sobreviver com os 9 mil dólares anuais que ele ganhava, diferente de mulheres jovens cuja média de pagamentos era um pouco mais da metade dos homens. Alto e forte, ele nunca teve que se desdobrar para descobrir como andar pelas ruas à noite de forma segura.

Realidades como essas moldam os cérebros de mulheres.

Ao definir mulheridade do jeito que ele fez a Ms.Sawyer, Mr.Jenner e os muitos ativistas pelos direitos transgêneros que se utilizam de uma tática parecida ignoram essas realidade. No processo, minam e enfraquecem quase um século de argumentos duramente travados de que a própria definição de mulher e feminilidade são um construto social que tem nos subordinando. E eles rebaixam nossos esforços para mudar as circustâncias em que crescemos. A retórica de “Eu nasci no corpo errado” favorecida por outras pessoas trans não funciona melhor e é simplesmente ofensiva, reduzindo-nos aos nossos seios e vaginas coletivas. Imagine a reação se um jovem homem branco de repente declara-se que está preso no corpo errado e, depois de usar químicos para mudar a pigmentação da sua pele e enrolar seu cabelo, esperasse ser recebido de braços abertos pela comunidade negra.

Muitas mulheres que eu conheço, de diversas idades e raças, conversam privadamente sobre o quão insultante nós achamos a linguagem que transativistas usam para se explicarem. Depois de Mr.Jenner falar do seu cérebro, uma amiga ligou irritada e perguntou em exasperação “Ele está dizendo que é ruim em matemática, chora durante filmes e tem um circuito para empatia?” Depois da estréia das fotos para a Vanity Fair de Ms.Jenner, Susan Ager, uma jornalista de Michigan, escreveu em sua página no Facebook “Eu apoio totalmente Caitlyn Jenner, porém eu desejava que ela não tivesse escolhido “sair do armário” como uma gostosona sexy (“sex babe”).

Pela maior parte, nós mordemos nossas línguas e não expressamos a raiva que abertamente e com razão empilhamos em Mr.Summers, deixadas de lado pela guerra de xingamentos que estorou na margem radical tanto no movimento de mulheres quanto no movimento trans sobre eventos limitados a “mulheres-nascidas-mulheres”, acesso a banheiros e quem sofreu a maior perseguição. O insulto e medo que pessoas trans vivem é familiar demais para nós, e a batalha cruel e marginalidade de um grupo por justiça é algo que nós quase instintivamente queremos apoiar. Mas, enquanto o movimento se torna “mainstream”, está ficando cada vez mais difícil evitar perguntar sobre questões específicas sobre os frequentes ataques de líderes trans ao movimento de mulheres para definir a nós mesmas, nosso discurso e nossos corpos. Afinal, o movimento trans não está simplesmente ecoando afro-americanos, latinos, gays ou mulheres ao demandar o fim da violência e descriminação e serem tratados com respeito. Está demandando que reconceptualizem a nós mesmas.

Em Janeiro de 2014, a atriz Martha Plimpton, uma ativista pela legalização do aborto, mandou um tweet sobre um evento para levantar fundos para a questão do aborto no Texas chamado “A noite das Mil Vaginas”. De repente, ela foi assolada com críticas por usar a palavra “vagina”. “Devido ao constante policiamente genital você não pode esperar que pessoas trans se sintam incluídas em um evento com um título focado em um genital policiado e binário” respondeu @DrJaneChi.
Quando Ms.Plimptom explicou que ela continuaria a dizer “vagina” – e porque ela não deveria, se sem uma vagina, não existe gravidez ou aborto? – o feed dela foi inundado mais uma vez com indignação, Michelle Goldber reportou em “The Nation”. “Então você está realmente comprometida a usar um termo que você foi dita seguidamente que é exclusionário e prejudicial?” perguntou um blogger. Ms.Plimptom se tornou, para usar o novo insulto trans, uma “terf”, que quer dizer “trans exclusionária feminista radical”.Em Janeiro, o Projeto: Teatro no Colégio Mount Holyoke, que se auto-descreve como uma escola liberal de artes para mulheres, cancelou a performance da peça icônica feminista de Eve Ensler “Os mónologos da Vagina” porque oferecia “Uma perspectiva extremamente restrita no que significa ser uma mulher”, explicou Erin Murphy, a presidente do grupo de estudantes.

Deixa eu ver se eu entendi isso direito: a palavra “vagina” é exclusionária e oferece uma visão extremamente restrita da mulheridade, então as 3.5 bilhões de nós no mundo que temos vaginas, junto com as pessoas trans que as querem, deveríamos nos descrever com a terminologia politicamente correta que está sendo criada e empurrada por ativistas trans como: “buraco da frente” ou “genitalia interna”?
Até a palavra “mulher” está sob ataque pelas mesmas pessoas que reivindicam o direito de serem consideradas mulheres. A hashtag #Junte-seAsMulheresDoTexas, popularizada depois que Wendy Davis, então senadora do estado, tentou obstruir a legislação do Texas para prevenir a draconiana lei anti-aborto, e #NósConfiamosEmMulheres, também sofreram ataques, já que ambas são exclusionárias.

“Direito ao aborto e justiça reprodutiva não é um assunto de mulheres”, escreveu Emmett Stoffer, uma das muitas auto-identificadas pessoas transgênero que bloggam sobre o assunto. É um assunto de “donos de úteros”. Mr.Stoffer estava se referindo a possibilidade de que uma mulher que está tomando hormônios ou passando por cirurgias para se tornar um homem, ou que não se identificam mulheres, ainda podem ter úteros, engravidar e precisar de um aborto.

De acordo, grupos que lutam pelos direitos ao aborto estão sofrendo pressão para modificar suas afirmações para suprimir a palavra mulheres, como Katha Pollitt recentemente reportou ao The Nation. Aquelas que cederam, como o Fundo Acessivo ao Aborto de Nova York, agora oferecem seus serviços a “pessoas”. O Fundo das Mulheres do Texas, que cobre as viagens e hospedgem a quem busca abortos e não tem clínicas por perto recentemente mudou seu nome para “Fundo de Escolha do Texas”. “Com um nome como Fundo das Mulheres do Texas, nós estamos publicamente excluindo pessoas trans que precisam de um aborto mas não são mulheres”, o grupo explicou no seu website.
Escolas para mulheres estão contorcendo-se em nós para acomodar estudantes mulheres que se consideram homens, mas usualmente não homens que estão vivendo como mulheres. Estas instituições, cujas missões principais eram cultivar líderes mulheres, agora tem governos estudantis e presidentes de dormitórios que se identificam como homens.
Como Ruth Padawer reportou na revista New York Times no último outono, estudantes de Wesllesley estão em um grande aumento substituindo a palavra “irmandade” (“sisterhood”, que representa a união de irmãs, mulheres) por “siblinghood” (que se refere a união de pessoas de qualquer gênero) e membros da faculdade são confrontados com reclemações de estudantes trans sobre o uso universal do pronome “ela” – apesar de Wellesley se orgulhar sobre sua longa história como “a escola para mulheres preeminente no mundo”.

A área que está sendo mapeada e a linguagem que vem com ela são impossíveis de compreender e tão difícil quanto de navegar. Os transativistas mais ligados a teoria dizem que não existe paradoxo algum aqui, e que qualquer um que acredite que exista está se prendendo em uma visão binária de gênero que é despererançosamente antiquada. Porém Ms.Jenner e Ms.Manning, para mencionar apenas duas, esperam serem chamadas de mulheres mesmo quando as provedoras de aborto estão sendo ditas que usar esse termos é discriminatório. Então seriam aqueles que transicionaram de homens as únicas mulheres “legítimas” que restaram?

Mulheres como eu não estão perdidas em um falso paradoxo; nós estavamos esmagando as visões binárias de feminilidade e masculinidade bastante antes da maioria dos americanos terem sequer ouvido a palavra “transgênero” ou usarem a palavra “binário” como um adjetivo. Porque nós fizemos e continuamos a fazer, milhares de mulheres uma vez confinadas a trabalhos como secretárias, manicures, cabelereiras e aeromoças agoram podem trabalhar como mecânicas ou pilotas. É por isso que nossas filhas brincam com trens e caminhões como com bonecas e porque a maioria de nós se sente livre para usar saias e saltos numa terça e jeans nas sextas (adendo da tradutora: provável referência aqui as “casual fridays”, dia de trabalho em alguns locais principalmente no Estados Unidos, nas sextas-feiras, onde trabalhadores podem usar a roupa que quiserem ao invés de seguir o código de vestimenta do local). De fato, é difícil de acreditar que esses ganhos difíceis de serem alcançados nas constrições de gênero para mulheres não são pelo menos uma explicação parcial do porque 3x mais cirurgias de redesignação de gênero são realizadas em homens. Falando comparativamente, homens também estão presos a esteriótipos de gênero.

A luta para se mover para além destes esteriótipos está longe do fim, e transativistas poderiam ser aliados das mulheres seguindo em frente. Enquanto humanos produzirem cromossomos X e Y que levam ao desenvolvimento de pênis ou vaginas, a todos nós serão “desginados” gêneros no nascimento. Mas o que fazemos com estes gêneros – os papéis que nos designamos e aos outros baseado neles – é quase totalmente mutável.

Se essa é a mensagem da comunidade trans “mainstream”, nós felizmente damos as boas vindas a eles para criar expaços para todos expressarem-se sem serem coagidos por expectativas de gênero. Mas reduzir as identidades de mulheres, e silenciar, apagar ou renomear nossas experiências, não são necessárias para essa luta.
Bruce Jenner disse a Ms.Sawyer que o que ele mais ansiava na sua transição era a chance de usar esmalte nas unhas, não por um breve momento, mas até ele descascar das unhas. Eu quero isso para Bruce, agora Caitlyn, também. Mas eu quero lembra-la: Esmalte de unhas não faz uma mulher.

Me chame de Caitlyn ou então: o crescimento do autoritarismo das políticas transgênero

A foto da Vanity Fair de Bruce Janner num maiô realçador de peitos está sendo descrevida como iconica. Bruce, atleta americano consagrado, agora quer ser conhecido como Caitlyn tendo recentemente passado por uma transição de gênero. E ele está usando a capa da última Vanity Fair para fazer seu “debut como uma mulher”. Ao lado da manchete “Me chame de Caitlyn” ele aparece em sua eslbeltez photoshopeada, cabelo escovado e seios ressaltados em o que muitos especialistas estão descrevendo como “uma imagem icônica na história das revistas”.
A foto é, de fato, icônica. E não apenas no significado superficial da palavra. É icônica no sentido tradicional da palavra também, no sentido de ser venerado como um verdadeiro ícone, uma imagem devocional de aparentemente um ser humano sagrado. É uma imagem a qual é esperado que todas nós nos curvemos diante, a qual contém a verdade essencial que devemos assimilar; uma imagem que você questiona ou ridiculariza ao seu próprio perigo, com aqueles que se recusam a celebrá-la encarando excomungação da sociedade educada. Ontem a Jennermania confirmou o quão bizarramente autoritário, até mesmo idolatrante, a política trans se tornou.

Existe uma paulpável religiosidade a saudação de Bruce/Caitlyn como uma santa dos dias modernos, uma Virgem Maria com testículos. Dentro de 4 horas, mais de 1 milhão de pessoas estavam seguindo Bruce/Caitlyn na sua nova conta do Twitter, esperando e se segurando em suas palavras como a expectativa orda que aguarda por Moisés no pé do Monte Sinai. Sua qualquer fala, mesmo banal ou clássica de “celebridade”, era retweetada as dezenas de milhares. Celebridades e comentadores a saudaram como um tipo de messias. “Nós estavamos te esperando de braços abertos”, disse um editor do Buzzfeed bastante animado. Através da Twitosphera, Caitlyn foi adorada como uma “deusa”, uma “deusa em forma humana”, uma “deusa se manifestou na Terra”. “Caitlyn Jenner poderia me esfaquear agora mesmo e me deixar para morrer e eu ainda iria morrer extremamente feliz pois nós não somos MERECEDORAS DE SUA DIVINDADE”, escreveu uma pessoa trans no tweeter, e ela não estava brincando.

Na mídia, a conversa é de como Caitlyn e sua iconica simpatia estão dando uma dose de adrenalina na própria humanidade. A escritora para o Guardian descreve Caitlyn como uma “rainha” e nos instrui “curvem-se, vadias” (“bow down, bitches”) nos dizendo que seu ícone na capa da Vanity Fair é “afirmativo da vida”. Tratando Caitlyn como uma figura semelhante a Cristo, apenas em um sutiã que levanta os seios aos invés de uma bata, Ellen DeGeneres diz que esta deusa traz “esperança para o mundo e que todas deveriamos tentar ser tão bravas quanto Caitlyn”. Susan Sarandon celebrou o misterioso “renascimento” de Bruce/Caitlyn enquanto Demi Moore agradeceu por dividir com a humanidade “o presente de sua linda autêntica eu”. Uma escritora no Huff Post diz que o nome Caitlyn significa “pura” e “que significado perfeito, não é mesmo?” Verdadeiramente sim, pois St.Caitlyn, que renasceu para educar a nós, é muito pura.
Com milhões de seguidores devotos, a adoração de uma imagem iconica, a insistência para que todas nos “curvemos”, o Culto a Caitlyn consegue competir com a mariolatria do Catolicismo na parte da devoção cega. E claro, como com todos os ícones venerados, qualquer um que se recuse a reconhecer a verdade da capa de Caitlyn na Vanity Fair terá que enfrentar punição, exposição ou apontamentos de dedos para serem corrigidos por blasfemarem ao desafariarem a deusa.
Então, quando Drake Bell, antigo ator mirim americano tweetou “Desculpe…ainda vou te chamar de Bruce”, ele virou o sujeito de uma fúria global. O Culto a Caitlyn foi a loucura. Mesmo depois de Bell deletar seu comentário blasfêmico, tweeters o ameaçaram, sugerindo que ele desativasse a conta ou melhor “desativasse sua vida”. Enquanto isso um robô do Twitter chamado @ela_não_ele foi programado para corrigir qualquer erro no gênero de Caitlyn. Ganhando grande celebração por boa parte da mídia, esse robô está “vasculhando o Twitter, procurando por qualquer um que use o pronome “ele” em conjunção com o nome Caitlyn Jenner”. O inventor do robô diz que ele está deleitado que esses meliantes que erram o gênero tem sido “apologéticos nas suas respostas ao bot” e “alguns até mesmo deletaram seu tweet original”.

Resumindo, eles se arrependeram. Assim como aqueles que negaram a divindade de Cristo eram esperados que retratassem sua heresia acontece com aqueles que negam o gênero de Caitlyn Jenner, sendo caçados por robôs até que se desculpem por seu erro moral. O grupo americano pelos direitos gays GLAAD está escrutinando a mídia mainstream por qualquer uso da palavra “ele” em relação a Caitlyn, como uma encarnação moderna do Index Vaticano Librorum Prohibitorum, que monitorava a esfera pública para qualquer comentário menos elogioso em relação a Deus. Tem lançado guias de policiamente de fala para a mídia. “NÃO se refira a ela por seu nome anterior, EVITE pronomes masculinos e seu nome anterior, mesmo para se referir a ela em momentos do seu passado”.

A adoração a Caitlyn e a atormentação de qualquer um que se recuse a curvar-se diante de seu ícone, expôs graficamente o lado intolerante do pensamento trans. A insistência de que não apenas nos referimos a Bruce/Caitlyn como “ela” mas que também projetemos isso no seu passado – reconhecendo, nas palavras do The Guardian, que ela “sempre foi uma mulher” – é quase Orwelliano. É a reescritura de uma história, mudança na memória de fatos inconvenientes. Impressionantemente, um escritor do The Guardian diz que pessoas como Bruce/Caitlyn tem “sempre sido mulheres…mesmo quando estavam “paternando” crianças”. Repare que é a palavra “paternando” que aparece entre aspas, sugerindo que não era real enquanto a descrição de Bruce como uma mulher é tratada como uma verdade incontestável. Guerra é paz, liberdade é escravidão, homem é mulher.

Esse Orwellianismo trans está crescentemente encontrando expressões na própria lei. Na Irlanda, no ano passado, uma mulher trans ganhou o direito de ter sua redesignação sexual para mulher na sua certidão de nascimento. Isso é alarmante. A parteira que disse “é um menino” quando essa mulher trans nasceu estava dizendo a verdade, e essa verdade foi escrita em um documento público. Não importa – verdade e história não são nada nas mãos do lobby trans. Assim como Big Brother acha que pode forçar as pessoas a achar que 2+2=5, também transativistas querem cantar para nós: “Bruce Jenner é uma mulher e sempre foi uma mulher, mesmo quando estava produzindo esperma, engravidando mulheres e ganhando medalhas de ouro em esportes de homens”. E o pequeno assunto do certificado de nascimento de Bruce, sua paternidade provada das suas crianças? Esqueça tudo, enfie tudo no buraco da memória.

Adendos da Tradutora:
1. Bruce no seu artigo para Vanity Fair revela que cometeu muitos erros como pai, especialmente com os filhos com as duas primeiras esposas. Perdia aniversários, graduações, e até mesmo o nascimento de uma das filhas (porque claro, esse é o papel de um homem com os filhos, aparecer de vez em quando em datas especiais, e nem isso era feito). Um dos filhos negligenciados de Jenner, pai ausente, que deixou todos os cuidados com as mães, diz: “Eu tenho esperanças altas que Caitlyn seja uma pessoa melhor que Bruce. Eu estou esperando muito por isso” Burt, 36, filho mais velho de Jenner. Porque é então um ícone feminista? http://www.today.com/popculture/bruce-jenner-appears-woman-caitlyn-vanity-fair-cover-t23871?cid=sm_fbn
2. Sobre a foto de capa: “Numerosas feministas têm comentado sobre a sexualização da foto da capa: é inevitável. Para um tableau sendo vendido como “autenticidade”, os pixels estão todos na artificialidade da alta definição – o sombreamento bronzeado em clavículas de Jenner, os contornos para diminuir a mandíbula angular, e a escova e secamento para conseguir cabelos despenteados perfeitamente “couture”. Nós todos sabemos o que a vaidade em Vanity Fair significa, certo? Já posso ouvir Meryl Streep dizendo “Armani, Armani. No telefone. Agora. “(Nota: Mulheres em seus 60 anos não costumam aparecer na capa da Vanity Fair. Na verdade, elas têm dificuldade para encontrar trabalho). E o espartilho branco virgem (o que, sem véu de noiva)? Uma mistura perversa do vestido de comunhão, vestido de casamento, e burlesco neo-vitoriano feito de tal maneira a convidar o olhar a cair sobre virilha e peitos siliconados. As mãos, a força da agência, contidas por trás, submissas (ou talvez para esconder como Seinfeld diz as “mãos de homem”). Na demanda, esta é a fotografia sexista clássica. E o espartilho? Esse dispositivo de tortura século XIX que esmagou costelas de mulheres e deixou-as desmaiando como loucas no sótão? Bem, quando a feminilidade é um feriado – então todo o divertimento é apenas cosplay.” http://aoifeschatology.com/2015/06/01/autogynokardashian-where-always-was-meets-whatever-the-hell-i-want/ E como disse uma ativista lésbica: Homens claramente performam a feminilidade muito melhor que nós mulheres. E porque não? Afinal de contas, eles a inventaram.