Porque o estupro está na origem de tantas religiões?

*Texto original de 2014, em inglês por Valerie Tarico: http://www.alternet.org/belief/why-rape-origin-most-religion

*Tradução livre feita por Maria V.


Deuses poderosos e semi-deuses engravidando mulheres humanas – é um tema comum na história da religião e é mais do que um pouco inapropriado.

Zeus vêm a Danae na forma de uma chuva de ouro, cortando “o nó intacto da virgindade” e a deixando grávida do herói Grego, Perseu.

Jupiter forçadamente vence Europa ao se transformar em um touro branco e abduzi-la. Ele a deixa presa na Ilha de Creta, ao longo do tempo tendo três crianças.

Hermes copula com uma pastora para produzir Pan.

Os legendários fundadores de Roma, Romulô e Remu, são concebidos quando o deus romano Marte engravida Rea Silvia, uma virgem vestal.

Helena de Tróia, a rara prole mulher de um cruzamento entre deus e humano, é produzida quando Zeus se transforma em um cisnei para ter acesso a Leda.

Em algumas descrições Alexandre o Grande e o Imperador Augusto são procurados por deuses em forma de serpentes, por Phoebus e Jupiter, respectivamente.

Apesar de que os Cristãos anteriores tinham uma história competitiva, no Gospel de Lucas, a Virgem Maria fica grávida quando o espírito de Deus desce sob ela e o poder Mais Elevado obscurece-a.

As descrições mais precoces do nascimento de Zoroastra dizem quem ele nasceu de um pai e uma mãe humanos, de forma similar a Jesus; mas em descrições posteriores sua mãe é perfurada por uma coluna de luz divina.

O deus Hindu Shiva faz sexo com uma mulher humana, Madhura, que veio venerá-lo enquanto sua esposa Parvathi está fora. Parvathi transforma Madhura em um sapo, porém depois de 12 anos em um poço ela ganha forma humana novamente e dá luz a Indrajit.

A mãe de Buddha, Maya, descobre-se grávida depois de ser penetrada pelo lado por um deus em um sonho.

O processo de fecundação pode ser violento, uma sedução ou alguma forma excitante porém de maneira não-sexual de procriação através da penetração. A história talvez venha de uma religião tradicional Ocidental ou Oriental, pagã ou Cristã. Mas estes encontros entre lindas jovens mulheres e deuses tem uma coisa em comum. Nenhuma delas tem consentimento livremente dado pela mulher como parte da narrativa. (Maria de Lucas assente depois de ser não perguntada,mas dita por um poderoso ser sobrenatural sobre o que aconteceria com ela, “Veja a serva de Deus: seja feito em mim de acordo com sua vontade”)

Quem precisa de consentimento, livremente dado? Se ele é um deus então ela tem que querer, certo? É assim que as histórias se desenrolam.

Não importa se a deleitável jovem protesta, se a sedução requere decepção, se a mulher já tem um marido ou amante, se ela é fisicamente forçada, a presunção básica é que a união entre Deus e uma mulher é irresistível de uma maneira orgásmica, não de uma maneira sangrenta, violenta, envolvendo luta. E depois? Bom, que mulher que não gostaria de estar grávida com o filho ou a filha de um deus?

Por baixo desta mentira que notavelmente perdura e se espelha existem duas presunções que, na sua forma mais primitiva, talvez tenham suas origens na biologia evolutiva.
A hipótese da biologia, bastante simplificada, vai mais ou menos assim: machos e fêmeas de cada espécie tem seus intintos maximiazados em seus genes na próxima geração. Dentro dos humanos, mulheres procuram o doador de esperma de maior qualidade que elas conseguem atrair. Elas maximizam a qualidade e a sobrevivência de suas crianças através da procriação com machos de alto status e poder. Machos, por outro lado, maximizam a qualidade e quantidade de sua prole ao procurar fêmeas jovens e férteis (sendo a beleza o sinalizador da fertilidade), controlando algumas fêmeas e mantendo afastado outros machos enquanto também espalham sua semente de qualquer maneira que possam.

A biologia pode ser o ponto inicial, mas com o tempo, os impulsos humanos foram enfeitados e institucionalizados e feitos sagrados pela cultura e pela religião. O grupo místico de deuses procriando com fêmeas humanas representa as poderosas crenças religiosas e culturais sobre a sexualidade. Histórias familiares deste tipo derivam de sociedade dominadas por homens, o que significa que eles legitimam desejos masculinos de reprodutividade: homens poderosos não apenas querem controlar a valiosa mercadoria da fertilidade femina, eles deveriam. Deuses mandam e moldam isto. E eles prescrevem punições para aqueles – tipicamente mulheres, que violam a ordem própria das coisas.

As miraculosas histórias de concepção que listei talvez tenham raízes na pré-história, em religiões antigas centradas na adoração de estrelas e o ciclo agrícola, mas elas emergiram de maneira moderna na Idade do Ferro. Nessa época, a maioria das mulheres era um bem. Como crianças, animais e escravos, elas eram literalmente posses dos homens e seu valor primário econômico e espiritual estava na sua habilidade de produzir uma prole pura de linhagem conhecida. Os homens nos níveis mais altos tinham concubinas e haréns, e mulheres virgens eram contadas entre os expólios da guerra. (Veja, por exemplo, no velho testamento a história da virgem Midianites em que Yahweh comanda os israelitas a matarem as mulheres “usadas” mas manter as virgens para si próprios).

Era também um tempo onde deuses escolhiam os favoritos e metiam-se nos negócios das tribos e nações, e grandes homens eram nascidos grandes. Não é de se surpreender então que tantos homens poderosos reivindicaram paternidades poderosas. Na tradição dos antigos Hebreus, isso tomou como forma uma obsessão com linhagem e pureza,com linhas de sangue favoritas. Escritos da bíblia hebraica traçam a genealogia do Rei David de volta a Abraão, por exemplo, e a genealogia de Abrão ao primeiro homem, Adão. Nos mundos Grego e Romano, alegações de direito vinham na forma de designações sobrenaturais de paternidade a figura públicas. A tradição Cristã, de uma maneira desajeitada, tenta alegar ambos estes – traçando a linhagem de Jesus ao seu pai José até Rei David enquanto simultaneamente negando que ele tinha um pai humano.

Esse é contexto para as miraculosas histórias de concepção e, neste contexto, o consentimento de uma mulher é irrelevante. Em uma sociedade que ameaça a sexualidade feminina como uma posse masculina, o único consenso que pode ser violado é o consenso do dono de uma mulher, o homem com direitos a capacidade reprodutiva dela – tipicamente seu pai, noivo ou marido. Muitos cristãos ficam surpresos quando são ditos que em qualquer lugar da Bíblia, seja no Velho Testamento ou no Novo, não existe nenhum escritor que diga que o consentimento de uma mulher é necessário ou mesmo desejável antes do sexo.

Essa omissão é mais do que lamentável, é trágica. Dois mil anos depois de textos Hebreus e Aramaicos serem reunidos na moderna Bíblia Judaica, 1600 anos depois de o comitê dos Católicos Romanos votar nos livros que ficariam dentro ou fora da Bíblia Cristã, 1400 anos depois de Muhammad ter escrito o Corão (que desenha-se de maneira bastante semelhante a moral estebelecida nas tradições Judaico-Cristãs), nós ainda batalhamos com a questão do consenso feminino. Nossa luta é tornada imensuradamente mais difícil pela presença de textos antigos que tornaram-se ídolos modernos, textos que colocam o nome de Deus nos desejos dos homens.

O exemplo mais extremo pode ser um documento publicado pelo Estado Islâmico, colocando regras para o tratamento de escravas sexuais, regras retiraradas do Corão. Com maior proximidade com os americanos está a estranha mas difundida existência de líderes cristãos que ensinam que a glória da mulher está em carregar um filho e que uma mulher que o falha em servir seu marido sempre que ele deseja está falhando em servir a Deus.

Mas ainda mais próximo de casa para muitos está a prevalência chocante em campus colegiais ou na grande sociedade da manipulação sexual e coerção perpetuada por homens que de outras maneiras, parecem moralmente intactos. Um não pode evitar ao notar a existência de um grande número de casos de alto perfil envolvendo homens de alto status: membros de fraternidade, atores famosos, locutores de rádio, astros de futebol (de grandes ou pequenos times), atletas profissionais – homens, que em outras palavras, acreditam que são deuses. Estes homens estão tão convencidos de suas qualidades endeusantes que acreditam que o objeto de sua atenção deve querer – e se ela não quiser, bom, isso está bem também porque quando um deus quer uma mulher consenso não é realmente parte da história.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s