O que faz uma mulher?

travesti

Esta postagem contém dois textos traduzidos. Depois da tradução do texto “O que faz uma mulher” de Burkett me deparei com o fato de Anne Fausto-Sterling, professora de Biologia e Estudos de Gênero estar sendo agredida virtualmente por apoiar o texto, como muitas mulheres também estão sendo. Pareceu apropriado então traduzir também o texto “Me chame de Caitlyn ou então: o crescimento do autoritarismo das políticas transgênero” de O’Neill.
Texto original de Junho/2015, em inglês, por Elinor Burkett: http://www.nytimes.com/2015/06/07/opinion/sunday/what-makes-a-woman.html?ref=opinion&_r=1
Texto original de Junho/2015, em inglês, por Brendan O’Neill: http://blogs.spectator.co.uk/culturehousedaily/2015/06/call-me-caitlyn-or-else-the-rise-of-authoritarian-transgender-politics/
Tradução livre por Maria V.


O que faz uma mulher?

Homens e mulheres tem cérebros diferentes?
Quando Lawrence H. Summers era presidente de Harvad e sugeriu que essa diferença existia, ocorreu uma reação sem dó e piedade. Especialistas o rotularam como sexista. Membros da faculdade o consideraram um troglodita. Alunos pararam doações.
Mas quando Bruce Jenner disse basicamente a mesma coisa em Abril em sua entrevista para Diane Sawyer, ele foi celebrado por sua bravura, até mesmo por seu progressismo.
“Meu cérebro é muito mais de mulher do que é de homem” ele disse a ela, explicando como ele sabia que era transgênero.

Esse foi o prelúdio para uma nova capa de página e entrevistas na Vanity Fair que ofereceram um vislumbre à idéia do que é ser mulher para Caitlyn Jenner: um corset que valoriza e aumenta o decote, posições sensuais, muito rímel e a perspectiva de “noites de garotas” regulares onde se falaria sobre cabelos e maquiagens. Ms.Jenner foi recebida com ainda mais aplauso. A ESPN anunciou que daria a Ms.Jenner um prêmio por coragem. Presidente Obama também a elogiou. Para não ficar para trás, Chelsea Manning pulou no trem do gênero de Ms.Jenner no Twitter jorrando, “Eu estou tão mais ciente das minhas emoções; muito mais sensível emocionalmente (e fisicamente).”

Uma parte de mim estremeceu.
Eu tenho lutado por boa parte dos meus 68 anos contra os esforços de colocar mulheres – nossos cérebros, nossos corações, nossos corpos, até mesmo nosso humor – em caixinhas arrumadas, para reduzir-nos a esteriótipos antigos. De repente, eu descubro que muitas das pessoas que eu achava que estavam lutando do mesmo lado que eu – pessoas que orgulhosamente chamam-se de progressistas e que apoiam veementemente a necessidade humana por auto-determinação – estão comprando a noção de que pequenas diferenças nos cérebros de homens e mulheres levam a enormes diferenças nos caminhos e que algum tipo de destino gendrificado está codificado nos nossos cérebros.
Esse é o tipo de bobagem que era usada pra reprimir mulheres por séculos. Mas o desejo de apoiar pessoas como Ms.Jenner e suas jornadas em direção aos seus verdadeiros “eu’s” estranhamente e involuntariamente trouxe isso de volta.

Pessoas que não viveram todas suas vidas como mulheres, seja Ms.Jenner ou Mr.Summers, não deveriam ter o direito de nos definir. Isto é algo que homens tem feito durante muito tempo. E por mais que eu reconheça e apoie o direito de homens de tirarem o manto da masculinidade, eles não podem afirmar sua reivindicação a dignidade das pessoas transgênero ao atropelar a minha como mulher. A verdade dessas pessoas não é a minha verdade. A identidade de mulher delas não é a minha identidade de mulher. Elas não navegaram pelo mundo como mulheres e foram moldadas por tudo que isso acarreta. Elas não sofreram em reuniões com homens falando com seus seios ou acordaram apavoradas depois de sexo no dia seguinte porque esqueceram de tomar a pílula no dia anterior. Elas não tiveram que lidar com a vinda da sua menstruação no meio de um metrô lotado, a humilhiação de receber menos que seus colegas homens, ou o medo de ser fraca demais para repelir estupradores.

Para mim e para muitas outras mulheres, feministas ou não, uma das partes difíceis de testemunhar e querer reunir com o movimento para direitos para transgêneros está na linguagem que um grande número de pessoas trans insistem, na noção de feminilidade que estão articulando e na sua desconsideração pelo fato de que ser mulher significa ter acumulado certas experiências, suportado determinadas indignidades e ter algumas “cortesias” em uma cultura que reaje a você como uma.

Cérebros são um bom lugar para começar porque uma coisa que a ciência aprendeu sobre eles é que eles de fato são moldados por experiências e cultura. A parte do cérebro que lida com a navegação é maior em taxistas de Londres, assim como a região que lida com o movimento dos dedos da mão esquerda em violinistas destros.
“Você não pode pegar um cérebro e dizer “esse cérebro é de uma menina” ou “esse cérebro é de um menino” disse Gina Rippon, uma neuroscientista na Universidade de Britain’s Aston, para o jornal The Telegraph ano passado. “As diferenças entre cérebros de homens e mulheres são causadas pelo ambiente generificado”, ela diz.

O ambiente generificado da experiência de Ms.Jenner inclui uma robusta dose de privilégio masculino que poucas mulheres poderiam possivelmente imaginar. Enquanto o jovem “Bruiser” (pugilista, boxeador) como Bruce Jenner era chamado quando criança, estava sendo aplaudido e seguindo para uma universidade com uma bolsa de atletismo, poucas mulheres atletas poderiam sequer ter a esperança para tanta grandeza já que universidades ofereciam pouquíssimo financiamento para esportes que envolvessem mulheres. Quando Mr.Jenner procurou por um emprego para se manter durante seus treinos para a Olimpiada de 1976, ele não teve que rastejar pelo escasso mercado de anúncios “Contrata-se – Mulheres” nos jornais, e ele conseguia sobreviver com os 9 mil dólares anuais que ele ganhava, diferente de mulheres jovens cuja média de pagamentos era um pouco mais da metade dos homens. Alto e forte, ele nunca teve que se desdobrar para descobrir como andar pelas ruas à noite de forma segura.

Realidades como essas moldam os cérebros de mulheres.

Ao definir mulheridade do jeito que ele fez a Ms.Sawyer, Mr.Jenner e os muitos ativistas pelos direitos transgêneros que se utilizam de uma tática parecida ignoram essas realidade. No processo, minam e enfraquecem quase um século de argumentos duramente travados de que a própria definição de mulher e feminilidade são um construto social que tem nos subordinando. E eles rebaixam nossos esforços para mudar as circustâncias em que crescemos. A retórica de “Eu nasci no corpo errado” favorecida por outras pessoas trans não funciona melhor e é simplesmente ofensiva, reduzindo-nos aos nossos seios e vaginas coletivas. Imagine a reação se um jovem homem branco de repente declara-se que está preso no corpo errado e, depois de usar químicos para mudar a pigmentação da sua pele e enrolar seu cabelo, esperasse ser recebido de braços abertos pela comunidade negra.

Muitas mulheres que eu conheço, de diversas idades e raças, conversam privadamente sobre o quão insultante nós achamos a linguagem que transativistas usam para se explicarem. Depois de Mr.Jenner falar do seu cérebro, uma amiga ligou irritada e perguntou em exasperação “Ele está dizendo que é ruim em matemática, chora durante filmes e tem um circuito para empatia?” Depois da estréia das fotos para a Vanity Fair de Ms.Jenner, Susan Ager, uma jornalista de Michigan, escreveu em sua página no Facebook “Eu apoio totalmente Caitlyn Jenner, porém eu desejava que ela não tivesse escolhido “sair do armário” como uma gostosona sexy (“sex babe”).

Pela maior parte, nós mordemos nossas línguas e não expressamos a raiva que abertamente e com razão empilhamos em Mr.Summers, deixadas de lado pela guerra de xingamentos que estorou na margem radical tanto no movimento de mulheres quanto no movimento trans sobre eventos limitados a “mulheres-nascidas-mulheres”, acesso a banheiros e quem sofreu a maior perseguição. O insulto e medo que pessoas trans vivem é familiar demais para nós, e a batalha cruel e marginalidade de um grupo por justiça é algo que nós quase instintivamente queremos apoiar. Mas, enquanto o movimento se torna “mainstream”, está ficando cada vez mais difícil evitar perguntar sobre questões específicas sobre os frequentes ataques de líderes trans ao movimento de mulheres para definir a nós mesmas, nosso discurso e nossos corpos. Afinal, o movimento trans não está simplesmente ecoando afro-americanos, latinos, gays ou mulheres ao demandar o fim da violência e descriminação e serem tratados com respeito. Está demandando que reconceptualizem a nós mesmas.

Em Janeiro de 2014, a atriz Martha Plimpton, uma ativista pela legalização do aborto, mandou um tweet sobre um evento para levantar fundos para a questão do aborto no Texas chamado “A noite das Mil Vaginas”. De repente, ela foi assolada com críticas por usar a palavra “vagina”. “Devido ao constante policiamente genital você não pode esperar que pessoas trans se sintam incluídas em um evento com um título focado em um genital policiado e binário” respondeu @DrJaneChi.
Quando Ms.Plimptom explicou que ela continuaria a dizer “vagina” – e porque ela não deveria, se sem uma vagina, não existe gravidez ou aborto? – o feed dela foi inundado mais uma vez com indignação, Michelle Goldber reportou em “The Nation”. “Então você está realmente comprometida a usar um termo que você foi dita seguidamente que é exclusionário e prejudicial?” perguntou um blogger. Ms.Plimptom se tornou, para usar o novo insulto trans, uma “terf”, que quer dizer “trans exclusionária feminista radical”.Em Janeiro, o Projeto: Teatro no Colégio Mount Holyoke, que se auto-descreve como uma escola liberal de artes para mulheres, cancelou a performance da peça icônica feminista de Eve Ensler “Os mónologos da Vagina” porque oferecia “Uma perspectiva extremamente restrita no que significa ser uma mulher”, explicou Erin Murphy, a presidente do grupo de estudantes.

Deixa eu ver se eu entendi isso direito: a palavra “vagina” é exclusionária e oferece uma visão extremamente restrita da mulheridade, então as 3.5 bilhões de nós no mundo que temos vaginas, junto com as pessoas trans que as querem, deveríamos nos descrever com a terminologia politicamente correta que está sendo criada e empurrada por ativistas trans como: “buraco da frente” ou “genitalia interna”?
Até a palavra “mulher” está sob ataque pelas mesmas pessoas que reivindicam o direito de serem consideradas mulheres. A hashtag #Junte-seAsMulheresDoTexas, popularizada depois que Wendy Davis, então senadora do estado, tentou obstruir a legislação do Texas para prevenir a draconiana lei anti-aborto, e #NósConfiamosEmMulheres, também sofreram ataques, já que ambas são exclusionárias.

“Direito ao aborto e justiça reprodutiva não é um assunto de mulheres”, escreveu Emmett Stoffer, uma das muitas auto-identificadas pessoas transgênero que bloggam sobre o assunto. É um assunto de “donos de úteros”. Mr.Stoffer estava se referindo a possibilidade de que uma mulher que está tomando hormônios ou passando por cirurgias para se tornar um homem, ou que não se identificam mulheres, ainda podem ter úteros, engravidar e precisar de um aborto.

De acordo, grupos que lutam pelos direitos ao aborto estão sofrendo pressão para modificar suas afirmações para suprimir a palavra mulheres, como Katha Pollitt recentemente reportou ao The Nation. Aquelas que cederam, como o Fundo Acessivo ao Aborto de Nova York, agora oferecem seus serviços a “pessoas”. O Fundo das Mulheres do Texas, que cobre as viagens e hospedgem a quem busca abortos e não tem clínicas por perto recentemente mudou seu nome para “Fundo de Escolha do Texas”. “Com um nome como Fundo das Mulheres do Texas, nós estamos publicamente excluindo pessoas trans que precisam de um aborto mas não são mulheres”, o grupo explicou no seu website.
Escolas para mulheres estão contorcendo-se em nós para acomodar estudantes mulheres que se consideram homens, mas usualmente não homens que estão vivendo como mulheres. Estas instituições, cujas missões principais eram cultivar líderes mulheres, agora tem governos estudantis e presidentes de dormitórios que se identificam como homens.
Como Ruth Padawer reportou na revista New York Times no último outono, estudantes de Wesllesley estão em um grande aumento substituindo a palavra “irmandade” (“sisterhood”, que representa a união de irmãs, mulheres) por “siblinghood” (que se refere a união de pessoas de qualquer gênero) e membros da faculdade são confrontados com reclemações de estudantes trans sobre o uso universal do pronome “ela” – apesar de Wellesley se orgulhar sobre sua longa história como “a escola para mulheres preeminente no mundo”.

A área que está sendo mapeada e a linguagem que vem com ela são impossíveis de compreender e tão difícil quanto de navegar. Os transativistas mais ligados a teoria dizem que não existe paradoxo algum aqui, e que qualquer um que acredite que exista está se prendendo em uma visão binária de gênero que é despererançosamente antiquada. Porém Ms.Jenner e Ms.Manning, para mencionar apenas duas, esperam serem chamadas de mulheres mesmo quando as provedoras de aborto estão sendo ditas que usar esse termos é discriminatório. Então seriam aqueles que transicionaram de homens as únicas mulheres “legítimas” que restaram?

Mulheres como eu não estão perdidas em um falso paradoxo; nós estavamos esmagando as visões binárias de feminilidade e masculinidade bastante antes da maioria dos americanos terem sequer ouvido a palavra “transgênero” ou usarem a palavra “binário” como um adjetivo. Porque nós fizemos e continuamos a fazer, milhares de mulheres uma vez confinadas a trabalhos como secretárias, manicures, cabelereiras e aeromoças agoram podem trabalhar como mecânicas ou pilotas. É por isso que nossas filhas brincam com trens e caminhões como com bonecas e porque a maioria de nós se sente livre para usar saias e saltos numa terça e jeans nas sextas (adendo da tradutora: provável referência aqui as “casual fridays”, dia de trabalho em alguns locais principalmente no Estados Unidos, nas sextas-feiras, onde trabalhadores podem usar a roupa que quiserem ao invés de seguir o código de vestimenta do local). De fato, é difícil de acreditar que esses ganhos difíceis de serem alcançados nas constrições de gênero para mulheres não são pelo menos uma explicação parcial do porque 3x mais cirurgias de redesignação de gênero são realizadas em homens. Falando comparativamente, homens também estão presos a esteriótipos de gênero.

A luta para se mover para além destes esteriótipos está longe do fim, e transativistas poderiam ser aliados das mulheres seguindo em frente. Enquanto humanos produzirem cromossomos X e Y que levam ao desenvolvimento de pênis ou vaginas, a todos nós serão “desginados” gêneros no nascimento. Mas o que fazemos com estes gêneros – os papéis que nos designamos e aos outros baseado neles – é quase totalmente mutável.

Se essa é a mensagem da comunidade trans “mainstream”, nós felizmente damos as boas vindas a eles para criar expaços para todos expressarem-se sem serem coagidos por expectativas de gênero. Mas reduzir as identidades de mulheres, e silenciar, apagar ou renomear nossas experiências, não são necessárias para essa luta.
Bruce Jenner disse a Ms.Sawyer que o que ele mais ansiava na sua transição era a chance de usar esmalte nas unhas, não por um breve momento, mas até ele descascar das unhas. Eu quero isso para Bruce, agora Caitlyn, também. Mas eu quero lembra-la: Esmalte de unhas não faz uma mulher.

Me chame de Caitlyn ou então: o crescimento do autoritarismo das políticas transgênero

A foto da Vanity Fair de Bruce Janner num maiô realçador de peitos está sendo descrevida como iconica. Bruce, atleta americano consagrado, agora quer ser conhecido como Caitlyn tendo recentemente passado por uma transição de gênero. E ele está usando a capa da última Vanity Fair para fazer seu “debut como uma mulher”. Ao lado da manchete “Me chame de Caitlyn” ele aparece em sua eslbeltez photoshopeada, cabelo escovado e seios ressaltados em o que muitos especialistas estão descrevendo como “uma imagem icônica na história das revistas”.
A foto é, de fato, icônica. E não apenas no significado superficial da palavra. É icônica no sentido tradicional da palavra também, no sentido de ser venerado como um verdadeiro ícone, uma imagem devocional de aparentemente um ser humano sagrado. É uma imagem a qual é esperado que todas nós nos curvemos diante, a qual contém a verdade essencial que devemos assimilar; uma imagem que você questiona ou ridiculariza ao seu próprio perigo, com aqueles que se recusam a celebrá-la encarando excomungação da sociedade educada. Ontem a Jennermania confirmou o quão bizarramente autoritário, até mesmo idolatrante, a política trans se tornou.

Existe uma paulpável religiosidade a saudação de Bruce/Caitlyn como uma santa dos dias modernos, uma Virgem Maria com testículos. Dentro de 4 horas, mais de 1 milhão de pessoas estavam seguindo Bruce/Caitlyn na sua nova conta do Twitter, esperando e se segurando em suas palavras como a expectativa orda que aguarda por Moisés no pé do Monte Sinai. Sua qualquer fala, mesmo banal ou clássica de “celebridade”, era retweetada as dezenas de milhares. Celebridades e comentadores a saudaram como um tipo de messias. “Nós estavamos te esperando de braços abertos”, disse um editor do Buzzfeed bastante animado. Através da Twitosphera, Caitlyn foi adorada como uma “deusa”, uma “deusa em forma humana”, uma “deusa se manifestou na Terra”. “Caitlyn Jenner poderia me esfaquear agora mesmo e me deixar para morrer e eu ainda iria morrer extremamente feliz pois nós não somos MERECEDORAS DE SUA DIVINDADE”, escreveu uma pessoa trans no tweeter, e ela não estava brincando.

Na mídia, a conversa é de como Caitlyn e sua iconica simpatia estão dando uma dose de adrenalina na própria humanidade. A escritora para o Guardian descreve Caitlyn como uma “rainha” e nos instrui “curvem-se, vadias” (“bow down, bitches”) nos dizendo que seu ícone na capa da Vanity Fair é “afirmativo da vida”. Tratando Caitlyn como uma figura semelhante a Cristo, apenas em um sutiã que levanta os seios aos invés de uma bata, Ellen DeGeneres diz que esta deusa traz “esperança para o mundo e que todas deveriamos tentar ser tão bravas quanto Caitlyn”. Susan Sarandon celebrou o misterioso “renascimento” de Bruce/Caitlyn enquanto Demi Moore agradeceu por dividir com a humanidade “o presente de sua linda autêntica eu”. Uma escritora no Huff Post diz que o nome Caitlyn significa “pura” e “que significado perfeito, não é mesmo?” Verdadeiramente sim, pois St.Caitlyn, que renasceu para educar a nós, é muito pura.
Com milhões de seguidores devotos, a adoração de uma imagem iconica, a insistência para que todas nos “curvemos”, o Culto a Caitlyn consegue competir com a mariolatria do Catolicismo na parte da devoção cega. E claro, como com todos os ícones venerados, qualquer um que se recuse a reconhecer a verdade da capa de Caitlyn na Vanity Fair terá que enfrentar punição, exposição ou apontamentos de dedos para serem corrigidos por blasfemarem ao desafariarem a deusa.
Então, quando Drake Bell, antigo ator mirim americano tweetou “Desculpe…ainda vou te chamar de Bruce”, ele virou o sujeito de uma fúria global. O Culto a Caitlyn foi a loucura. Mesmo depois de Bell deletar seu comentário blasfêmico, tweeters o ameaçaram, sugerindo que ele desativasse a conta ou melhor “desativasse sua vida”. Enquanto isso um robô do Twitter chamado @ela_não_ele foi programado para corrigir qualquer erro no gênero de Caitlyn. Ganhando grande celebração por boa parte da mídia, esse robô está “vasculhando o Twitter, procurando por qualquer um que use o pronome “ele” em conjunção com o nome Caitlyn Jenner”. O inventor do robô diz que ele está deleitado que esses meliantes que erram o gênero tem sido “apologéticos nas suas respostas ao bot” e “alguns até mesmo deletaram seu tweet original”.

Resumindo, eles se arrependeram. Assim como aqueles que negaram a divindade de Cristo eram esperados que retratassem sua heresia acontece com aqueles que negam o gênero de Caitlyn Jenner, sendo caçados por robôs até que se desculpem por seu erro moral. O grupo americano pelos direitos gays GLAAD está escrutinando a mídia mainstream por qualquer uso da palavra “ele” em relação a Caitlyn, como uma encarnação moderna do Index Vaticano Librorum Prohibitorum, que monitorava a esfera pública para qualquer comentário menos elogioso em relação a Deus. Tem lançado guias de policiamente de fala para a mídia. “NÃO se refira a ela por seu nome anterior, EVITE pronomes masculinos e seu nome anterior, mesmo para se referir a ela em momentos do seu passado”.

A adoração a Caitlyn e a atormentação de qualquer um que se recuse a curvar-se diante de seu ícone, expôs graficamente o lado intolerante do pensamento trans. A insistência de que não apenas nos referimos a Bruce/Caitlyn como “ela” mas que também projetemos isso no seu passado – reconhecendo, nas palavras do The Guardian, que ela “sempre foi uma mulher” – é quase Orwelliano. É a reescritura de uma história, mudança na memória de fatos inconvenientes. Impressionantemente, um escritor do The Guardian diz que pessoas como Bruce/Caitlyn tem “sempre sido mulheres…mesmo quando estavam “paternando” crianças”. Repare que é a palavra “paternando” que aparece entre aspas, sugerindo que não era real enquanto a descrição de Bruce como uma mulher é tratada como uma verdade incontestável. Guerra é paz, liberdade é escravidão, homem é mulher.

Esse Orwellianismo trans está crescentemente encontrando expressões na própria lei. Na Irlanda, no ano passado, uma mulher trans ganhou o direito de ter sua redesignação sexual para mulher na sua certidão de nascimento. Isso é alarmante. A parteira que disse “é um menino” quando essa mulher trans nasceu estava dizendo a verdade, e essa verdade foi escrita em um documento público. Não importa – verdade e história não são nada nas mãos do lobby trans. Assim como Big Brother acha que pode forçar as pessoas a achar que 2+2=5, também transativistas querem cantar para nós: “Bruce Jenner é uma mulher e sempre foi uma mulher, mesmo quando estava produzindo esperma, engravidando mulheres e ganhando medalhas de ouro em esportes de homens”. E o pequeno assunto do certificado de nascimento de Bruce, sua paternidade provada das suas crianças? Esqueça tudo, enfie tudo no buraco da memória.

Adendos da Tradutora:
1. Bruce no seu artigo para Vanity Fair revela que cometeu muitos erros como pai, especialmente com os filhos com as duas primeiras esposas. Perdia aniversários, graduações, e até mesmo o nascimento de uma das filhas (porque claro, esse é o papel de um homem com os filhos, aparecer de vez em quando em datas especiais, e nem isso era feito). Um dos filhos negligenciados de Jenner, pai ausente, que deixou todos os cuidados com as mães, diz: “Eu tenho esperanças altas que Caitlyn seja uma pessoa melhor que Bruce. Eu estou esperando muito por isso” Burt, 36, filho mais velho de Jenner. Porque é então um ícone feminista? http://www.today.com/popculture/bruce-jenner-appears-woman-caitlyn-vanity-fair-cover-t23871?cid=sm_fbn
2. Sobre a foto de capa: “Numerosas feministas têm comentado sobre a sexualização da foto da capa: é inevitável. Para um tableau sendo vendido como “autenticidade”, os pixels estão todos na artificialidade da alta definição – o sombreamento bronzeado em clavículas de Jenner, os contornos para diminuir a mandíbula angular, e a escova e secamento para conseguir cabelos despenteados perfeitamente “couture”. Nós todos sabemos o que a vaidade em Vanity Fair significa, certo? Já posso ouvir Meryl Streep dizendo “Armani, Armani. No telefone. Agora. “(Nota: Mulheres em seus 60 anos não costumam aparecer na capa da Vanity Fair. Na verdade, elas têm dificuldade para encontrar trabalho). E o espartilho branco virgem (o que, sem véu de noiva)? Uma mistura perversa do vestido de comunhão, vestido de casamento, e burlesco neo-vitoriano feito de tal maneira a convidar o olhar a cair sobre virilha e peitos siliconados. As mãos, a força da agência, contidas por trás, submissas (ou talvez para esconder como Seinfeld diz as “mãos de homem”). Na demanda, esta é a fotografia sexista clássica. E o espartilho? Esse dispositivo de tortura século XIX que esmagou costelas de mulheres e deixou-as desmaiando como loucas no sótão? Bem, quando a feminilidade é um feriado – então todo o divertimento é apenas cosplay.” http://aoifeschatology.com/2015/06/01/autogynokardashian-where-always-was-meets-whatever-the-hell-i-want/ E como disse uma ativista lésbica: Homens claramente performam a feminilidade muito melhor que nós mulheres. E porque não? Afinal de contas, eles a inventaram.

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2 comments

  1. Ligia · September 21, 2015
    • Maria V. · September 23, 2015

      Se você olhar a data de publicação deste aqui é anterior à do link que você postou. De qualquer forma, que bom que tem várias de nós fazendo esse trabalho 😀 No caso aqui foram traduzidos dois textos e unidos pois acredito que eles se complementavam, além de ter adicionado alguns outros adendos no final. Há braços!

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