Como ex-prostituta, a sensação é maravilhosa de saber que agora existem lugares onde você não pode estar legalmente à venda

Para os homens, prostituição é como alugar um filme com o poder de escrever todo o script

Texto original de Junho/2015, em inglês, por Diane Martin: http://www.independent.co.uk/voices/comment/as-a-former-prostitute-it-feels-wonderful-that-there-are-now-places-where-i-could-not-legally-be-for-sale-10292236.html

Tradução Livre por Maria V.


É agora ilegal comprar sexo na Irlanda do Norte – e como uma sobrevivente da prostituição essa é uma medida que eu gostaria de ver extendida para o resto do Reino Unido. A Suécia foi o primeiro país a implementar essa lei em 1999, e em Março eu visitei Stockholm para conhecer aqueles responsáveis por desenvolver essa proposta, frequentemente referida como o Modelo Nórdico. Ela descriminaliza a venda do sexo e torna pagar por sexo uma ofensa criminal. É designada para dar fim a demanda de homens que pagam por sexo – a demanda que impulsiona o negócio da prostituição e do tráfico de mulheres para ela – e promover serviços de saída da prostituição especializados. É um modelo que eu tenho apoiado há muito tempo e minha visita apenas fortaleceu essa visão.

Para o que eu estava despreparada, porém, era para o impacto pessoal de estar em um país onde o acesso ao meu corpo, ou de qualquer um, não poderia ser legalmente comprado. Uma outra mulher na viagem, como eu, era sobrevivente da prostituição e nós compartilhamos o quão maravilhosa era a sensação de estar em um lugar onde nós não poderíamos estar legalmente a venda. Há quase 20 anos eu tenho trabalhado para apoiar mulheres exploradas através da prostituição e melhorar e desenvolver os serviços necessários para elas sairem e reconstruirem suas vidas. Minha experiência na prostituição começou a mais de 30 anos atrás, situada no suposto “alto nível” da prostituição em Londres, e depois traficada desse país para um círculo de prostituição em outro.

Eu cheguei a Londres no final da minha adolescêndia para me encontrar enganada sobre as circustâncias sobre onde estava. Logo o dinheiro acabou e a pressão começou; meus novos “amigos” agora eram menos amigáveis. Eu aprendi que as mulheres a minha volta não haviam adquirido seus apartamentos no Chelsea através de trabalhos como modelos. Eu acabei muito fora da minha zona e envolta por pessoas mais velhas que se deram conta de que poderiam fazer muito dinheiro comigo; não apenas o cafetão fica com uma parte, mas pessoas fingindo ser meus amigos que reconheceram minha vulnerabilidade e escolheram cultivar relações de controle comigo.

Eu fui de uma garota feliz e confiante para me encontrar de pé numa cobertura sendo “cuidada” por uma Madame (cafetina). Era como olhar acontecer em câmera lenta com outra pessoa. De repente eu estava num vestido de noite de marca as 5 da tarde no meio de Mayfair perguntando a um policial pelas direções que me tinham sido passadas, desejando que ele visse minha situação. Era como estar fora do meu corpo, olhando outra pessoa. Infelizmente o que estava por vir não era uma experiência extra-corporal. Eu lembro do estresse constante, da ansiedade e os sentimentos de pavor enquanto estava na prostituição; caminhando através de uma porta e imaginando em que estado eu sairia. Esperando ser pega, como algo em uma prateleira. A observação, a dissecação, ser a mercadoria que todos no cômodo sabiam que você era. Para os homens, a prostituição é como alugar um filme mas com o poder de escrever todo o script. Eles são o diretor, eles são a estrela, você é o acessório.

Quando as pessoas que estão te pagando por sexo são famosas, no governo, em cargos públicos, membros dos governos de outros país ou que possuem imunidade diplomática, você não tem confiança nenhuma de que acreditariam em você ou que você seria protegida se você reportasse violência ou estupro. Infelizmente, a melhor educação e oportunidade não os livram de comportamentos degradantes ou violentos. A sensação de direito que alguns homens acreditam ter em torno de algo pelo que pagaram atravessa todos os segmentos da sociedade. O papel de parede mais chique e o mini-bar não diluem a sensação quando alguém tem uma arma e te pergunta se você gostaria de ver sua mãe novamente. Estar numa suíte na cobertura de um prédio não suaviza o golpe do estupro ou de ter alguém deixando marcas de mordidas em todo seu rosto.

Porque será que mulheres prostituídas em todo o mundo empregam as mesmas técnicas psicológicas de coping que vítimas de abuso sexual? Porque abuso sexual é o que está acontencendo; mas nós não devemos acreditar nisso porque devido a dinheiro ter sido trocado ou uma moradia, ou comida, o que está acontecendo agora é magicamente outra coisa. Eu falo da minha experiência para desafiar a hierarquia da vítima merecedora e a narrativa prevalescente que diz que locais fazem toda a diferença. Eu quero que seja perto de impossível para o crime organizado, cafetões e apostadores operarem aqui e eu quero fazer parte de uma sociedade que rejeite a idéia de que pessoas estão a venda.

A meia noite, a Irlanda do Norte comunicou para sua população e para o mundo que mulheres não estão mais a venda. Para o resto do Reino Unido o negócio segue como sempre. E que negócio lucrativo é para os exploradores, os cafetões e os traficantes – e que custoso é para meninas e mulheres que se encontram na ponta da demanda masculina para seus corpos. Nós temos que decidir como sociedade se vamos nos levantar contra uma poderosa indústria do sexo e estar do lado das exploradas ao invés do dos exploradores.
Eu me pergunto quanto tempo vai demorar para que o resto do Reino Unido terá que esperar até sejamos capazes de colocar o sinal de “NÃO ESTÁ PARA VENDA”.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s