O sexo nunca, nunca era uma diversão: o que aprendi na prostituição

Postagem original está em inglês, é de Setembro/2015 e foi escrita por Rachel Moran, podendo ser acessada aqui: http://www.salon.com/2015/09/30/the_sex_was_never_ever_fun_my_lessons_in_prostitution/

Tradução livre feita por Maria V.


Quando um homem te paga por sexo você sentirá muitas coisas – desejo e excitação não serão uma delas.

Excerto de “Paga para: minha jornada na prostituição” por Rachel Moran, publicado por W.W. Norton and Co., Inc. Copyright © 2015.

Testumunho de uma dançarina erótica: “Ninguém, nem eu, nem as outras mulheres, gostamos de ser cutucadas, agarradas e fodidas por homens os quais não daríamos um minuto do nosso dia caso os tivéssemos conhecido em qualquer outro lugar.” Perry Morgan, “Vivendo no Limite”

Eu me lembro de uma noite, na clínica onde eu costumava ir tomar café e pegar camisinhas, um particular comentário humoroso feito a uma jovem prostituta por uma das mulheres mais velhas. Elas estavam discutindo uma inesperada onda na noite anterior e a mulher mais jovem mencionou como havia ido para casa exausta depois. “Ah claro” falou a mulher mais velha, “você provavelmente gostou!” Todas, incluindo eu, rimos muito. O humor – para os que não captaram – estava no absurdo da afirmação.

A verdade de fato é que a natureza da prostituição favorece atos sexuais por demais desagradáveis e ligados a degradação para permitir que diversão ou proveito prevaleçam. Claro, isso será um tapa na cara dos fetichistas, que fantasiam, mas a realidade da prostituição geralmente tem esse efeito neles. Os sentimentos de uma mulher aqui geralmente variam de desconforto á nojo extremo e apenas em situações únicas ou excepcionais a mulher na prostituição experienciará algo diferente disso. Isso para não dizer que essas experiências únicas e excepcionais não ocorrem. Para algumas mulheres elas ocorrem e quando ocorrem, ninguém está mais surpresa que a própria mulher. Eu saberia, porque em duas ocasiões isso aconteceu comigo.

Quando eu tinha dezesseis anos fui solta de uma medida judicial, cujo propósito era me manter detida para minha própria proteção. Não teve o efeito desejado. Os motivos para isso são claros, e eu ainda me pergunto como a vara infantil pode ser tão tola de imaginar que alguns meses de detenção teriam mudado minha vida e assim quando fui solta nas ruas não havia qualquer outra opção viável além da prostituição. Se eles tivessem um pingo de dedicação em me ajudar a mudar minha vida, eles teriam me detido por alguns anos e feito a condição de que eu seria solta uma vez que completasse algum tipo de treinamento, seja como administradora, cabeleireira, etc., e teria sido designada a mim uma oficial de condicional e uma assistente social que teriam assegurado que eu fosse colocada em algum estágio ou em uma posição de nível primário em algum escritório. Não seria tão difícil assim, poderia ter sido feito e eu sei que seria capaz de me dedicar a isso. De qualquer forma, isso não aconteceu; eu fui solta depois de alguns meses e foi nesse momento que fui viver em um bordel na rua Lesson.

O primeiro carro que parou para mim na minha primeira noite de volta as ruas era dirigido por um jovem rapaz por volta de 25 anos. Ele era atraente, não desrespeitoso nas suas maneiras, era tímido, quieto e não falou muito comigo no caminho para o motel. Quando chegamos lá eu percebi que estava excitada. Eu não via meu namorado da época a meses e não tinha tido nenhuma atividade sexual. Eu me dei conta repentinamente então de que sentia falta; eu sentia falta de ser abraçada e tocada. Eu disse então para ele que havia mudado de ideia, que eu faria penetração e então ele colocou uma camisinha e em minutos, tudo havia terminado. Ele tirou a carteira e perguntou quanto me devia. Era a primeira vez que eu havia feito algo sexual sem ser paga primeiro e eu sabia porque: não havia sido um trabalho.
Nada parecia mais anti natural do que aceitar dinheiro por algo sexual que eu queria que tivesse acontecido. Eu também nunca havia feito sexo com penetração por dinheiro ainda naquele ponto, eu nunca havia me vendido daquela forma e eu não queria poder dizer que havia. Eu disse para ele não se preocupar. Sem dúvida ele sabia que algo estranho havia acontecido mas era fácil não ver sua expressão no escuro. Ele me deixou de novo na rua e então eu fui de fato trabalhar.

O que aconteceu naquela noite não é algo que pode ser visto como prostituição. Um ato de prostituição havia sido pretendido por ambas partes mas não havia acontecido. O que aconteceu transcendia a experiência da prostituição: sexo penetrativo com desejo, com zero reservas mentais não é prostituição, e não poderia, na minha mente, ser encaixado como isso. Minhas colegas não compartilhavam da mesma visão. Todas concordaram que em não aceitar o dinheiro eu havia sido uma imbecil.

A segunda dessas experiências aconteceu aproximadamente 3 anos após essa. Eu estava na área de “acompanhantes” naquela época. Eu havia atendido o chamado na casa de um homem com um lindo rosto, com um sorriso gentil e relaxado e olhos marrons brilhosos. Ele me recebeu com um adorável sotaque britânico e me serviu uma taça de vinho branco. Eu quase nunca bebia quando me prostituía e certamente não com um cliente novo, mas por uma combinação de fatores eu quebrei as regras aquela noite com aquele homem.

Tudo na casa dele era quente e acolhedor; as cores, os cheiros, as texturas. Tudo tinha tons amarelados, amadeirados e tinha um cheiro de canela. O clima era muito agradável e neutro. Eu estava relaxada. Isso em si mesmo era muito incomum. Eu já descrevi como uma mulher na prostituição sabe quando precisa estar alerta: ela também sabe quando não precisa, mas como a primeira situação é de longe a mais comum, situações contrárias te pegam de surpresa.

Ele me contratou por duas horas e claramente não estava com pressa. Sentada no seu sofá eu me dei conta do quão pouca tensão havia em mim; Eu não estava preocupada com onde isso estava indo. Eu não estava me preparando mentalmente como eu geralmente fazia. Eu não estava construindo a parede, não completamente. Suspeitava que não parecia que ia precisar. A verdade é que havia algo sobre esse homem e esse ambiente que era relaxante e sedutor.

Quando fomos para a cama eu me dei conta de que não me incomodava com as mãos dele em mim. O primeiro indicador era que não sentia repulsa, como sempre ocorria. As mãos dele eram macias e firmes e me tocavam lentamente. Não eram invasivas, intrusivas e quando ele me tocou foi desde o meu pescoço até a curva do meu tornozelo; ele parecia adorar meu corpo inteiro com suas mãos. Ele não fez nada comigo fisicamente para significar sua dominância, o que era tão pouco familiar que me faz encaixar essa experiência como uma daquelas únicas em si mesma. Quando ele gentilmente abriu minhas pernas e entrou em mim, eu inadvertidamente soltei um suspiro. Então ele murmurou no meu ouvido: “Você não tem que fingir que gosta”. Foi aí que a natureza da experiência se modificou.
Esse era um homem com bastante modos. Aparentemente decente, ele parecia se importar. Apesar do ponto óbvio de estar me comprando, ele não era desrespeitoso (não seria possível eu sentir excitação se ele fosse) mas da maneira como ele me via e a minha parte nessa experiência: ele pensou que eu não iria gostar. Ele pensou que sabia que eu não iria gostar e, como tantos outros antes dele, a excitação dele dependia do fato de que eu não gostaria.

Imediatamente eu entendi isso e senti minha resposta se fechando. A parede havia levantado. Eu me senti desconectada do meu próprio corpo, como de costume, mas não pelos motivos usuais. Dessa vez eu não havia saído do meu próprio corpo; Eu fiquei dentro e descobri que não era bem vinda ali.

Foi bastante surreal, o resto daquele sexo. Eu estava mais distante de mim mesma do que jamais havia estado, e era um sentimento estranho e muito desconcertante, estar deitada ali sentindo todas aquelas sensações que seriam excitantes se eu tivesse sido bem vinda a habitar meu próprio corpo. Para aqueles que falam de prostituição como trabalho, saibam isso: a habilidade principal, mais essencial do “trabalho” de uma prostituta é aprender a ficar fora dela mesma para o seu próprio bem.

Então a respeito dessas duas experiências: a primeira não foi uma experiência sexualmente prazerosa dentro da prostituição; foi uma experiência sexualmente prazerosa que foi tirada do contexto da prostituição, porque prazer sexual não era congruente com esse contexto. E sobre a segunda experiência: poderia ter sido sexualmente prazerosa se eu não tivesse sido lembrada o quão excedente uma mulher na prostituição é. O corpo dela é útil – o resto dela é irrelevante, indesejável, não bem vindo. Somente se uma mulher for masoquista, fortemente excitada com sua própria degradação, seria possível para ela encaixar essa realidade como excitante.

Sobre a generalizada escassez de prazer sexual de uma prostituta, eu não preciso me perguntar sobre e mesmo se precisasse eu seria lembrada pelas lutas na disfunção sexual que experienciei enquanto escrevia esse livro, especialmente durante o período quando estava escrevendo muito e processando a quantidade gigantesca de memórias indesejáveis todos os dias.

O mito do prazer sexual da prostituta existe como uma de diversas táticas que são usadas para sanitarizar e normalizar a experiência na prostituição. Os motivos por trás disso são simples: se é visto como prazeroso para -algumas- mulheres, então não poderia ser tão ruim assim para mulheres num geral, poderia? Isso é sem sentido, e como a maioria das coisas sem sentido, existe por uma razão: para enquadrar a prostituição como aceitável. Não é a única tática utilizada com esse fim, existem muitas.

As duas isoladas e não usuais experiências que contei não apontam para existência de um prazer sexual na prostituição. Elas atestam o oposto, porque a primeira vez que experienciei prazer sexual de um homem dessa forma, a experiência teve que ser quase totalmente convertida em seu oposto antes de se tornar aceitável para mim; e na segunda vez que experienciei prazer ele teve que ser, necessariamente, rejeitado. Em ambos casos, minhas respostas com excitação eram incongruentes com a prostituição. O prazer feminino não é pertencente a prostituição, e ambos participantes intuitivamente entendem que não há lugar para isso ali.

Talvez minhas duas experiências sejam mal interpretadas ou compreendidas de maneira a servirem de evidência para aqueles que preferem ver a prostituição filtrada pelo prisma da erotica, mas uma pessoa que tira conclusões da lógica deduzirá que uma amostragem tão pequena não dá cor a experiência como um todo. A realidade simples é que se você é heterossexual e você conhece milhares de pessoas do sexo oposto ao curso de muitos anos, você provavelmente tem chance de achar que, pelo menos, um número pequeno desses tem apelo sexual. O fato de eu ter sentido isso por dois homens de milhares não atesta para nenhum tipo de prazer na experiência da prostituição; atesta para o oposto, porque com certeza haviam muito mais homens dentre eles que teriam tido apelo sexual para mim caso os tivesse conhecido de outra forma. Isso é apenas mais uma evidência da maneira na qual a prostituição polui as relações humanas interpessoais. A vasta maioria dos homens é imediatamente descartada como sem apelo sexual para mulheres prostituídas, por causa da maneira na qual eles se apresentam para elas. É apenas em excepcionais e únicas circunstâncias que algo acontece para fazer uma mulher se sentir de forma diferente.

A resposta de fato das mulheres na prostituição é algumas vezes reconhecida, inadvertidamente, pelas que propõem a prostituição:
Descrições do sofrimento psicológico que advém da prostituição as vezes vem de quem advoga por ela. Por exemplo, o Coletivo Neozelandês de Prostitutas escreveu em um panfleto não publicado que pessoas na prostituição sabem que deveriam dar um tempo do meio: quando cada cliente faz sua pele se arrepiar, quando sua mandíbula dói de tanto pressionar uns dentes em outros para evitar cuspir na cara do merda… (ou) quando você não consegue mais suportar olhar para o que vê no espelho. “ (Panfleto da NZPC por Michelle, 1994, em “Ruim para o corpo, ruim para a mente” de Melissa Farley)

Mulheres a quem esses conselhos precisam ser dados claramente não estão vivendo em um contexto de vida que é provável de causar excitação sexual.

O mito do prazer sexual na prostituição está em parte relacionado com um outro mito social que vai algo nas linhas de “mulheres na prostituição desejam ser resgatadas por um homem”. Esse mito se mantém na prostituição pelas falas de homens e não de mulheres. Nós estamos extremamente cientes de que se seremos resgatadas será apenas por nós mesmas. Esse mito foi exemplificado pelo filme “Uma Linda Mulher”, onde a personagem principal é resgatada da prostituição pelo amor de um homem. Eu não achei esse filme muito ofensivo, apesar de ter causado muitas reações nesse sentido nos circulos de prostituição. Eu me sinto assim porque não acredito que o filme tente pintar a prostituição como geralmente divertida. A personagem de Julia Roberts está claramente infeliz na prostituição e relata o fato em uma cena aos prantos. Eu achei, porém, que se os diretores quisessem de fato retratar a realidade da prostituição, nós deveríamos ter visto a personagem de Julia com mais de um comprador. Sobre a prostituta aqui ser retratada como se apaixonando por um de seus clientes: eu não acho que é um cenário impossível, mas é um altamente improvável. É possível se apaixonar em qualquer lugar na vida, mas existem algumas áreas onde você achará escassez de amor na experiência humana. Prostituição é uma delas.

Eu lembro quando tinha 15 anos e estava na prostituição só a alguns meses, quando mais um homem de 40 e poucos anos me pegou; este num feio carro verde. Eu lembro que ele olhou pra mim com os olhos saltando para fora do rosto e estava praticamente salivando enquanto me olhava. Ele dirigiu até um local que ele escolheu (esses eram os dias onde eu ainda não havia aprendido que era melhor tentar não deixar que o homem escolhesse o lugar) e quando ele parou o carro ele virou para mim e me contou o que estava em sua mente, o que o estava excitando tanto. Ele me contou que havia me visto na rua Blessington um ano antes e que havia ficado de pau duro quando olhou para mim. (O abrigo onde eu estava acomodada um ano antes ficava na rua Blessington. Eu tinha 14 anos na epóca). Ele disse que não podia acreditar na sorte dele de ter me encontrado um ano depois na rua Benburb. Eu sentei no carro enquanto ele agarrava meus seios, tirava seu pau para fora e enfiava os dedos na minha vagina, e eu me forcei a ficar dormente/entorpecida enquanto tentava bloquear na minha mente o que ele estava fazendo, junto com as memórias do ano anterior, o pensamento de como havia sido ingênua, e de como ele era uma porra de um merda de estar se comportando assim agora e de ter pensado aquilo já no passado.

Eu não posso enumerar as experiência que tive, mas eu posso claramente colocar um formato nas respostas que tive á elas. O ponto final é esse: quando um homem desconhecido, que te pagou 20 ou 200 para ter o prazer de ver você se retorcer, aperta seu clitóris com a ponta dos dedos enquanto enfia os dedos na sua vagina e simultaneamente morde e lambe seus mamilos com sua língua e dentes, você experenciará muitas coisas. Você vai lutar para bloquear mentalmente suas respostas internas. Excitação e desejo não estarão entre elas.

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