O que faz uma mulher?

travesti

Esta postagem contém dois textos traduzidos. Depois da tradução do texto “O que faz uma mulher” de Burkett me deparei com o fato de Anne Fausto-Sterling, professora de Biologia e Estudos de Gênero estar sendo agredida virtualmente por apoiar o texto, como muitas mulheres também estão sendo. Pareceu apropriado então traduzir também o texto “Me chame de Caitlyn ou então: o crescimento do autoritarismo das políticas transgênero” de O’Neill.
Texto original de Junho/2015, em inglês, por Elinor Burkett: http://www.nytimes.com/2015/06/07/opinion/sunday/what-makes-a-woman.html?ref=opinion&_r=1
Texto original de Junho/2015, em inglês, por Brendan O’Neill: http://blogs.spectator.co.uk/culturehousedaily/2015/06/call-me-caitlyn-or-else-the-rise-of-authoritarian-transgender-politics/
Tradução livre por Maria V.


O que faz uma mulher?

Homens e mulheres tem cérebros diferentes?
Quando Lawrence H. Summers era presidente de Harvad e sugeriu que essa diferença existia, ocorreu uma reação sem dó e piedade. Especialistas o rotularam como sexista. Membros da faculdade o consideraram um troglodita. Alunos pararam doações.
Mas quando Bruce Jenner disse basicamente a mesma coisa em Abril em sua entrevista para Diane Sawyer, ele foi celebrado por sua bravura, até mesmo por seu progressismo.
“Meu cérebro é muito mais de mulher do que é de homem” ele disse a ela, explicando como ele sabia que era transgênero.

Esse foi o prelúdio para uma nova capa de página e entrevistas na Vanity Fair que ofereceram um vislumbre à idéia do que é ser mulher para Caitlyn Jenner: um corset que valoriza e aumenta o decote, posições sensuais, muito rímel e a perspectiva de “noites de garotas” regulares onde se falaria sobre cabelos e maquiagens. Ms.Jenner foi recebida com ainda mais aplauso. A ESPN anunciou que daria a Ms.Jenner um prêmio por coragem. Presidente Obama também a elogiou. Para não ficar para trás, Chelsea Manning pulou no trem do gênero de Ms.Jenner no Twitter jorrando, “Eu estou tão mais ciente das minhas emoções; muito mais sensível emocionalmente (e fisicamente).”

Uma parte de mim estremeceu.
Eu tenho lutado por boa parte dos meus 68 anos contra os esforços de colocar mulheres – nossos cérebros, nossos corações, nossos corpos, até mesmo nosso humor – em caixinhas arrumadas, para reduzir-nos a esteriótipos antigos. De repente, eu descubro que muitas das pessoas que eu achava que estavam lutando do mesmo lado que eu – pessoas que orgulhosamente chamam-se de progressistas e que apoiam veementemente a necessidade humana por auto-determinação – estão comprando a noção de que pequenas diferenças nos cérebros de homens e mulheres levam a enormes diferenças nos caminhos e que algum tipo de destino gendrificado está codificado nos nossos cérebros.
Esse é o tipo de bobagem que era usada pra reprimir mulheres por séculos. Mas o desejo de apoiar pessoas como Ms.Jenner e suas jornadas em direção aos seus verdadeiros “eu’s” estranhamente e involuntariamente trouxe isso de volta.

Pessoas que não viveram todas suas vidas como mulheres, seja Ms.Jenner ou Mr.Summers, não deveriam ter o direito de nos definir. Isto é algo que homens tem feito durante muito tempo. E por mais que eu reconheça e apoie o direito de homens de tirarem o manto da masculinidade, eles não podem afirmar sua reivindicação a dignidade das pessoas transgênero ao atropelar a minha como mulher. A verdade dessas pessoas não é a minha verdade. A identidade de mulher delas não é a minha identidade de mulher. Elas não navegaram pelo mundo como mulheres e foram moldadas por tudo que isso acarreta. Elas não sofreram em reuniões com homens falando com seus seios ou acordaram apavoradas depois de sexo no dia seguinte porque esqueceram de tomar a pílula no dia anterior. Elas não tiveram que lidar com a vinda da sua menstruação no meio de um metrô lotado, a humilhiação de receber menos que seus colegas homens, ou o medo de ser fraca demais para repelir estupradores.

Para mim e para muitas outras mulheres, feministas ou não, uma das partes difíceis de testemunhar e querer reunir com o movimento para direitos para transgêneros está na linguagem que um grande número de pessoas trans insistem, na noção de feminilidade que estão articulando e na sua desconsideração pelo fato de que ser mulher significa ter acumulado certas experiências, suportado determinadas indignidades e ter algumas “cortesias” em uma cultura que reaje a você como uma.

Cérebros são um bom lugar para começar porque uma coisa que a ciência aprendeu sobre eles é que eles de fato são moldados por experiências e cultura. A parte do cérebro que lida com a navegação é maior em taxistas de Londres, assim como a região que lida com o movimento dos dedos da mão esquerda em violinistas destros.
“Você não pode pegar um cérebro e dizer “esse cérebro é de uma menina” ou “esse cérebro é de um menino” disse Gina Rippon, uma neuroscientista na Universidade de Britain’s Aston, para o jornal The Telegraph ano passado. “As diferenças entre cérebros de homens e mulheres são causadas pelo ambiente generificado”, ela diz.

O ambiente generificado da experiência de Ms.Jenner inclui uma robusta dose de privilégio masculino que poucas mulheres poderiam possivelmente imaginar. Enquanto o jovem “Bruiser” (pugilista, boxeador) como Bruce Jenner era chamado quando criança, estava sendo aplaudido e seguindo para uma universidade com uma bolsa de atletismo, poucas mulheres atletas poderiam sequer ter a esperança para tanta grandeza já que universidades ofereciam pouquíssimo financiamento para esportes que envolvessem mulheres. Quando Mr.Jenner procurou por um emprego para se manter durante seus treinos para a Olimpiada de 1976, ele não teve que rastejar pelo escasso mercado de anúncios “Contrata-se – Mulheres” nos jornais, e ele conseguia sobreviver com os 9 mil dólares anuais que ele ganhava, diferente de mulheres jovens cuja média de pagamentos era um pouco mais da metade dos homens. Alto e forte, ele nunca teve que se desdobrar para descobrir como andar pelas ruas à noite de forma segura.

Realidades como essas moldam os cérebros de mulheres.

Ao definir mulheridade do jeito que ele fez a Ms.Sawyer, Mr.Jenner e os muitos ativistas pelos direitos transgêneros que se utilizam de uma tática parecida ignoram essas realidade. No processo, minam e enfraquecem quase um século de argumentos duramente travados de que a própria definição de mulher e feminilidade são um construto social que tem nos subordinando. E eles rebaixam nossos esforços para mudar as circustâncias em que crescemos. A retórica de “Eu nasci no corpo errado” favorecida por outras pessoas trans não funciona melhor e é simplesmente ofensiva, reduzindo-nos aos nossos seios e vaginas coletivas. Imagine a reação se um jovem homem branco de repente declara-se que está preso no corpo errado e, depois de usar químicos para mudar a pigmentação da sua pele e enrolar seu cabelo, esperasse ser recebido de braços abertos pela comunidade negra.

Muitas mulheres que eu conheço, de diversas idades e raças, conversam privadamente sobre o quão insultante nós achamos a linguagem que transativistas usam para se explicarem. Depois de Mr.Jenner falar do seu cérebro, uma amiga ligou irritada e perguntou em exasperação “Ele está dizendo que é ruim em matemática, chora durante filmes e tem um circuito para empatia?” Depois da estréia das fotos para a Vanity Fair de Ms.Jenner, Susan Ager, uma jornalista de Michigan, escreveu em sua página no Facebook “Eu apoio totalmente Caitlyn Jenner, porém eu desejava que ela não tivesse escolhido “sair do armário” como uma gostosona sexy (“sex babe”).

Pela maior parte, nós mordemos nossas línguas e não expressamos a raiva que abertamente e com razão empilhamos em Mr.Summers, deixadas de lado pela guerra de xingamentos que estorou na margem radical tanto no movimento de mulheres quanto no movimento trans sobre eventos limitados a “mulheres-nascidas-mulheres”, acesso a banheiros e quem sofreu a maior perseguição. O insulto e medo que pessoas trans vivem é familiar demais para nós, e a batalha cruel e marginalidade de um grupo por justiça é algo que nós quase instintivamente queremos apoiar. Mas, enquanto o movimento se torna “mainstream”, está ficando cada vez mais difícil evitar perguntar sobre questões específicas sobre os frequentes ataques de líderes trans ao movimento de mulheres para definir a nós mesmas, nosso discurso e nossos corpos. Afinal, o movimento trans não está simplesmente ecoando afro-americanos, latinos, gays ou mulheres ao demandar o fim da violência e descriminação e serem tratados com respeito. Está demandando que reconceptualizem a nós mesmas.

Em Janeiro de 2014, a atriz Martha Plimpton, uma ativista pela legalização do aborto, mandou um tweet sobre um evento para levantar fundos para a questão do aborto no Texas chamado “A noite das Mil Vaginas”. De repente, ela foi assolada com críticas por usar a palavra “vagina”. “Devido ao constante policiamente genital você não pode esperar que pessoas trans se sintam incluídas em um evento com um título focado em um genital policiado e binário” respondeu @DrJaneChi.
Quando Ms.Plimptom explicou que ela continuaria a dizer “vagina” – e porque ela não deveria, se sem uma vagina, não existe gravidez ou aborto? – o feed dela foi inundado mais uma vez com indignação, Michelle Goldber reportou em “The Nation”. “Então você está realmente comprometida a usar um termo que você foi dita seguidamente que é exclusionário e prejudicial?” perguntou um blogger. Ms.Plimptom se tornou, para usar o novo insulto trans, uma “terf”, que quer dizer “trans exclusionária feminista radical”.Em Janeiro, o Projeto: Teatro no Colégio Mount Holyoke, que se auto-descreve como uma escola liberal de artes para mulheres, cancelou a performance da peça icônica feminista de Eve Ensler “Os mónologos da Vagina” porque oferecia “Uma perspectiva extremamente restrita no que significa ser uma mulher”, explicou Erin Murphy, a presidente do grupo de estudantes.

Deixa eu ver se eu entendi isso direito: a palavra “vagina” é exclusionária e oferece uma visão extremamente restrita da mulheridade, então as 3.5 bilhões de nós no mundo que temos vaginas, junto com as pessoas trans que as querem, deveríamos nos descrever com a terminologia politicamente correta que está sendo criada e empurrada por ativistas trans como: “buraco da frente” ou “genitalia interna”?
Até a palavra “mulher” está sob ataque pelas mesmas pessoas que reivindicam o direito de serem consideradas mulheres. A hashtag #Junte-seAsMulheresDoTexas, popularizada depois que Wendy Davis, então senadora do estado, tentou obstruir a legislação do Texas para prevenir a draconiana lei anti-aborto, e #NósConfiamosEmMulheres, também sofreram ataques, já que ambas são exclusionárias.

“Direito ao aborto e justiça reprodutiva não é um assunto de mulheres”, escreveu Emmett Stoffer, uma das muitas auto-identificadas pessoas transgênero que bloggam sobre o assunto. É um assunto de “donos de úteros”. Mr.Stoffer estava se referindo a possibilidade de que uma mulher que está tomando hormônios ou passando por cirurgias para se tornar um homem, ou que não se identificam mulheres, ainda podem ter úteros, engravidar e precisar de um aborto.

De acordo, grupos que lutam pelos direitos ao aborto estão sofrendo pressão para modificar suas afirmações para suprimir a palavra mulheres, como Katha Pollitt recentemente reportou ao The Nation. Aquelas que cederam, como o Fundo Acessivo ao Aborto de Nova York, agora oferecem seus serviços a “pessoas”. O Fundo das Mulheres do Texas, que cobre as viagens e hospedgem a quem busca abortos e não tem clínicas por perto recentemente mudou seu nome para “Fundo de Escolha do Texas”. “Com um nome como Fundo das Mulheres do Texas, nós estamos publicamente excluindo pessoas trans que precisam de um aborto mas não são mulheres”, o grupo explicou no seu website.
Escolas para mulheres estão contorcendo-se em nós para acomodar estudantes mulheres que se consideram homens, mas usualmente não homens que estão vivendo como mulheres. Estas instituições, cujas missões principais eram cultivar líderes mulheres, agora tem governos estudantis e presidentes de dormitórios que se identificam como homens.
Como Ruth Padawer reportou na revista New York Times no último outono, estudantes de Wesllesley estão em um grande aumento substituindo a palavra “irmandade” (“sisterhood”, que representa a união de irmãs, mulheres) por “siblinghood” (que se refere a união de pessoas de qualquer gênero) e membros da faculdade são confrontados com reclemações de estudantes trans sobre o uso universal do pronome “ela” – apesar de Wellesley se orgulhar sobre sua longa história como “a escola para mulheres preeminente no mundo”.

A área que está sendo mapeada e a linguagem que vem com ela são impossíveis de compreender e tão difícil quanto de navegar. Os transativistas mais ligados a teoria dizem que não existe paradoxo algum aqui, e que qualquer um que acredite que exista está se prendendo em uma visão binária de gênero que é despererançosamente antiquada. Porém Ms.Jenner e Ms.Manning, para mencionar apenas duas, esperam serem chamadas de mulheres mesmo quando as provedoras de aborto estão sendo ditas que usar esse termos é discriminatório. Então seriam aqueles que transicionaram de homens as únicas mulheres “legítimas” que restaram?

Mulheres como eu não estão perdidas em um falso paradoxo; nós estavamos esmagando as visões binárias de feminilidade e masculinidade bastante antes da maioria dos americanos terem sequer ouvido a palavra “transgênero” ou usarem a palavra “binário” como um adjetivo. Porque nós fizemos e continuamos a fazer, milhares de mulheres uma vez confinadas a trabalhos como secretárias, manicures, cabelereiras e aeromoças agoram podem trabalhar como mecânicas ou pilotas. É por isso que nossas filhas brincam com trens e caminhões como com bonecas e porque a maioria de nós se sente livre para usar saias e saltos numa terça e jeans nas sextas (adendo da tradutora: provável referência aqui as “casual fridays”, dia de trabalho em alguns locais principalmente no Estados Unidos, nas sextas-feiras, onde trabalhadores podem usar a roupa que quiserem ao invés de seguir o código de vestimenta do local). De fato, é difícil de acreditar que esses ganhos difíceis de serem alcançados nas constrições de gênero para mulheres não são pelo menos uma explicação parcial do porque 3x mais cirurgias de redesignação de gênero são realizadas em homens. Falando comparativamente, homens também estão presos a esteriótipos de gênero.

A luta para se mover para além destes esteriótipos está longe do fim, e transativistas poderiam ser aliados das mulheres seguindo em frente. Enquanto humanos produzirem cromossomos X e Y que levam ao desenvolvimento de pênis ou vaginas, a todos nós serão “desginados” gêneros no nascimento. Mas o que fazemos com estes gêneros – os papéis que nos designamos e aos outros baseado neles – é quase totalmente mutável.

Se essa é a mensagem da comunidade trans “mainstream”, nós felizmente damos as boas vindas a eles para criar expaços para todos expressarem-se sem serem coagidos por expectativas de gênero. Mas reduzir as identidades de mulheres, e silenciar, apagar ou renomear nossas experiências, não são necessárias para essa luta.
Bruce Jenner disse a Ms.Sawyer que o que ele mais ansiava na sua transição era a chance de usar esmalte nas unhas, não por um breve momento, mas até ele descascar das unhas. Eu quero isso para Bruce, agora Caitlyn, também. Mas eu quero lembra-la: Esmalte de unhas não faz uma mulher.

Me chame de Caitlyn ou então: o crescimento do autoritarismo das políticas transgênero

A foto da Vanity Fair de Bruce Janner num maiô realçador de peitos está sendo descrevida como iconica. Bruce, atleta americano consagrado, agora quer ser conhecido como Caitlyn tendo recentemente passado por uma transição de gênero. E ele está usando a capa da última Vanity Fair para fazer seu “debut como uma mulher”. Ao lado da manchete “Me chame de Caitlyn” ele aparece em sua eslbeltez photoshopeada, cabelo escovado e seios ressaltados em o que muitos especialistas estão descrevendo como “uma imagem icônica na história das revistas”.
A foto é, de fato, icônica. E não apenas no significado superficial da palavra. É icônica no sentido tradicional da palavra também, no sentido de ser venerado como um verdadeiro ícone, uma imagem devocional de aparentemente um ser humano sagrado. É uma imagem a qual é esperado que todas nós nos curvemos diante, a qual contém a verdade essencial que devemos assimilar; uma imagem que você questiona ou ridiculariza ao seu próprio perigo, com aqueles que se recusam a celebrá-la encarando excomungação da sociedade educada. Ontem a Jennermania confirmou o quão bizarramente autoritário, até mesmo idolatrante, a política trans se tornou.

Existe uma paulpável religiosidade a saudação de Bruce/Caitlyn como uma santa dos dias modernos, uma Virgem Maria com testículos. Dentro de 4 horas, mais de 1 milhão de pessoas estavam seguindo Bruce/Caitlyn na sua nova conta do Twitter, esperando e se segurando em suas palavras como a expectativa orda que aguarda por Moisés no pé do Monte Sinai. Sua qualquer fala, mesmo banal ou clássica de “celebridade”, era retweetada as dezenas de milhares. Celebridades e comentadores a saudaram como um tipo de messias. “Nós estavamos te esperando de braços abertos”, disse um editor do Buzzfeed bastante animado. Através da Twitosphera, Caitlyn foi adorada como uma “deusa”, uma “deusa em forma humana”, uma “deusa se manifestou na Terra”. “Caitlyn Jenner poderia me esfaquear agora mesmo e me deixar para morrer e eu ainda iria morrer extremamente feliz pois nós não somos MERECEDORAS DE SUA DIVINDADE”, escreveu uma pessoa trans no tweeter, e ela não estava brincando.

Na mídia, a conversa é de como Caitlyn e sua iconica simpatia estão dando uma dose de adrenalina na própria humanidade. A escritora para o Guardian descreve Caitlyn como uma “rainha” e nos instrui “curvem-se, vadias” (“bow down, bitches”) nos dizendo que seu ícone na capa da Vanity Fair é “afirmativo da vida”. Tratando Caitlyn como uma figura semelhante a Cristo, apenas em um sutiã que levanta os seios aos invés de uma bata, Ellen DeGeneres diz que esta deusa traz “esperança para o mundo e que todas deveriamos tentar ser tão bravas quanto Caitlyn”. Susan Sarandon celebrou o misterioso “renascimento” de Bruce/Caitlyn enquanto Demi Moore agradeceu por dividir com a humanidade “o presente de sua linda autêntica eu”. Uma escritora no Huff Post diz que o nome Caitlyn significa “pura” e “que significado perfeito, não é mesmo?” Verdadeiramente sim, pois St.Caitlyn, que renasceu para educar a nós, é muito pura.
Com milhões de seguidores devotos, a adoração de uma imagem iconica, a insistência para que todas nos “curvemos”, o Culto a Caitlyn consegue competir com a mariolatria do Catolicismo na parte da devoção cega. E claro, como com todos os ícones venerados, qualquer um que se recuse a reconhecer a verdade da capa de Caitlyn na Vanity Fair terá que enfrentar punição, exposição ou apontamentos de dedos para serem corrigidos por blasfemarem ao desafariarem a deusa.
Então, quando Drake Bell, antigo ator mirim americano tweetou “Desculpe…ainda vou te chamar de Bruce”, ele virou o sujeito de uma fúria global. O Culto a Caitlyn foi a loucura. Mesmo depois de Bell deletar seu comentário blasfêmico, tweeters o ameaçaram, sugerindo que ele desativasse a conta ou melhor “desativasse sua vida”. Enquanto isso um robô do Twitter chamado @ela_não_ele foi programado para corrigir qualquer erro no gênero de Caitlyn. Ganhando grande celebração por boa parte da mídia, esse robô está “vasculhando o Twitter, procurando por qualquer um que use o pronome “ele” em conjunção com o nome Caitlyn Jenner”. O inventor do robô diz que ele está deleitado que esses meliantes que erram o gênero tem sido “apologéticos nas suas respostas ao bot” e “alguns até mesmo deletaram seu tweet original”.

Resumindo, eles se arrependeram. Assim como aqueles que negaram a divindade de Cristo eram esperados que retratassem sua heresia acontece com aqueles que negam o gênero de Caitlyn Jenner, sendo caçados por robôs até que se desculpem por seu erro moral. O grupo americano pelos direitos gays GLAAD está escrutinando a mídia mainstream por qualquer uso da palavra “ele” em relação a Caitlyn, como uma encarnação moderna do Index Vaticano Librorum Prohibitorum, que monitorava a esfera pública para qualquer comentário menos elogioso em relação a Deus. Tem lançado guias de policiamente de fala para a mídia. “NÃO se refira a ela por seu nome anterior, EVITE pronomes masculinos e seu nome anterior, mesmo para se referir a ela em momentos do seu passado”.

A adoração a Caitlyn e a atormentação de qualquer um que se recuse a curvar-se diante de seu ícone, expôs graficamente o lado intolerante do pensamento trans. A insistência de que não apenas nos referimos a Bruce/Caitlyn como “ela” mas que também projetemos isso no seu passado – reconhecendo, nas palavras do The Guardian, que ela “sempre foi uma mulher” – é quase Orwelliano. É a reescritura de uma história, mudança na memória de fatos inconvenientes. Impressionantemente, um escritor do The Guardian diz que pessoas como Bruce/Caitlyn tem “sempre sido mulheres…mesmo quando estavam “paternando” crianças”. Repare que é a palavra “paternando” que aparece entre aspas, sugerindo que não era real enquanto a descrição de Bruce como uma mulher é tratada como uma verdade incontestável. Guerra é paz, liberdade é escravidão, homem é mulher.

Esse Orwellianismo trans está crescentemente encontrando expressões na própria lei. Na Irlanda, no ano passado, uma mulher trans ganhou o direito de ter sua redesignação sexual para mulher na sua certidão de nascimento. Isso é alarmante. A parteira que disse “é um menino” quando essa mulher trans nasceu estava dizendo a verdade, e essa verdade foi escrita em um documento público. Não importa – verdade e história não são nada nas mãos do lobby trans. Assim como Big Brother acha que pode forçar as pessoas a achar que 2+2=5, também transativistas querem cantar para nós: “Bruce Jenner é uma mulher e sempre foi uma mulher, mesmo quando estava produzindo esperma, engravidando mulheres e ganhando medalhas de ouro em esportes de homens”. E o pequeno assunto do certificado de nascimento de Bruce, sua paternidade provada das suas crianças? Esqueça tudo, enfie tudo no buraco da memória.

Adendos da Tradutora:
1. Bruce no seu artigo para Vanity Fair revela que cometeu muitos erros como pai, especialmente com os filhos com as duas primeiras esposas. Perdia aniversários, graduações, e até mesmo o nascimento de uma das filhas (porque claro, esse é o papel de um homem com os filhos, aparecer de vez em quando em datas especiais, e nem isso era feito). Um dos filhos negligenciados de Jenner, pai ausente, que deixou todos os cuidados com as mães, diz: “Eu tenho esperanças altas que Caitlyn seja uma pessoa melhor que Bruce. Eu estou esperando muito por isso” Burt, 36, filho mais velho de Jenner. Porque é então um ícone feminista? http://www.today.com/popculture/bruce-jenner-appears-woman-caitlyn-vanity-fair-cover-t23871?cid=sm_fbn
2. Sobre a foto de capa: “Numerosas feministas têm comentado sobre a sexualização da foto da capa: é inevitável. Para um tableau sendo vendido como “autenticidade”, os pixels estão todos na artificialidade da alta definição – o sombreamento bronzeado em clavículas de Jenner, os contornos para diminuir a mandíbula angular, e a escova e secamento para conseguir cabelos despenteados perfeitamente “couture”. Nós todos sabemos o que a vaidade em Vanity Fair significa, certo? Já posso ouvir Meryl Streep dizendo “Armani, Armani. No telefone. Agora. “(Nota: Mulheres em seus 60 anos não costumam aparecer na capa da Vanity Fair. Na verdade, elas têm dificuldade para encontrar trabalho). E o espartilho branco virgem (o que, sem véu de noiva)? Uma mistura perversa do vestido de comunhão, vestido de casamento, e burlesco neo-vitoriano feito de tal maneira a convidar o olhar a cair sobre virilha e peitos siliconados. As mãos, a força da agência, contidas por trás, submissas (ou talvez para esconder como Seinfeld diz as “mãos de homem”). Na demanda, esta é a fotografia sexista clássica. E o espartilho? Esse dispositivo de tortura século XIX que esmagou costelas de mulheres e deixou-as desmaiando como loucas no sótão? Bem, quando a feminilidade é um feriado – então todo o divertimento é apenas cosplay.” http://aoifeschatology.com/2015/06/01/autogynokardashian-where-always-was-meets-whatever-the-hell-i-want/ E como disse uma ativista lésbica: Homens claramente performam a feminilidade muito melhor que nós mulheres. E porque não? Afinal de contas, eles a inventaram.

Porque o estupro está na origem de tantas religiões?

*Texto original de 2014, em inglês por Valerie Tarico: http://www.alternet.org/belief/why-rape-origin-most-religion

*Tradução livre feita por Maria V.


Deuses poderosos e semi-deuses engravidando mulheres humanas – é um tema comum na história da religião e é mais do que um pouco inapropriado.

Zeus vêm a Danae na forma de uma chuva de ouro, cortando “o nó intacto da virgindade” e a deixando grávida do herói Grego, Perseu.

Jupiter forçadamente vence Europa ao se transformar em um touro branco e abduzi-la. Ele a deixa presa na Ilha de Creta, ao longo do tempo tendo três crianças.

Hermes copula com uma pastora para produzir Pan.

Os legendários fundadores de Roma, Romulô e Remu, são concebidos quando o deus romano Marte engravida Rea Silvia, uma virgem vestal.

Helena de Tróia, a rara prole mulher de um cruzamento entre deus e humano, é produzida quando Zeus se transforma em um cisnei para ter acesso a Leda.

Em algumas descrições Alexandre o Grande e o Imperador Augusto são procurados por deuses em forma de serpentes, por Phoebus e Jupiter, respectivamente.

Apesar de que os Cristãos anteriores tinham uma história competitiva, no Gospel de Lucas, a Virgem Maria fica grávida quando o espírito de Deus desce sob ela e o poder Mais Elevado obscurece-a.

As descrições mais precoces do nascimento de Zoroastra dizem quem ele nasceu de um pai e uma mãe humanos, de forma similar a Jesus; mas em descrições posteriores sua mãe é perfurada por uma coluna de luz divina.

O deus Hindu Shiva faz sexo com uma mulher humana, Madhura, que veio venerá-lo enquanto sua esposa Parvathi está fora. Parvathi transforma Madhura em um sapo, porém depois de 12 anos em um poço ela ganha forma humana novamente e dá luz a Indrajit.

A mãe de Buddha, Maya, descobre-se grávida depois de ser penetrada pelo lado por um deus em um sonho.

O processo de fecundação pode ser violento, uma sedução ou alguma forma excitante porém de maneira não-sexual de procriação através da penetração. A história talvez venha de uma religião tradicional Ocidental ou Oriental, pagã ou Cristã. Mas estes encontros entre lindas jovens mulheres e deuses tem uma coisa em comum. Nenhuma delas tem consentimento livremente dado pela mulher como parte da narrativa. (Maria de Lucas assente depois de ser não perguntada,mas dita por um poderoso ser sobrenatural sobre o que aconteceria com ela, “Veja a serva de Deus: seja feito em mim de acordo com sua vontade”)

Quem precisa de consentimento, livremente dado? Se ele é um deus então ela tem que querer, certo? É assim que as histórias se desenrolam.

Não importa se a deleitável jovem protesta, se a sedução requere decepção, se a mulher já tem um marido ou amante, se ela é fisicamente forçada, a presunção básica é que a união entre Deus e uma mulher é irresistível de uma maneira orgásmica, não de uma maneira sangrenta, violenta, envolvendo luta. E depois? Bom, que mulher que não gostaria de estar grávida com o filho ou a filha de um deus?

Por baixo desta mentira que notavelmente perdura e se espelha existem duas presunções que, na sua forma mais primitiva, talvez tenham suas origens na biologia evolutiva.
A hipótese da biologia, bastante simplificada, vai mais ou menos assim: machos e fêmeas de cada espécie tem seus intintos maximiazados em seus genes na próxima geração. Dentro dos humanos, mulheres procuram o doador de esperma de maior qualidade que elas conseguem atrair. Elas maximizam a qualidade e a sobrevivência de suas crianças através da procriação com machos de alto status e poder. Machos, por outro lado, maximizam a qualidade e quantidade de sua prole ao procurar fêmeas jovens e férteis (sendo a beleza o sinalizador da fertilidade), controlando algumas fêmeas e mantendo afastado outros machos enquanto também espalham sua semente de qualquer maneira que possam.

A biologia pode ser o ponto inicial, mas com o tempo, os impulsos humanos foram enfeitados e institucionalizados e feitos sagrados pela cultura e pela religião. O grupo místico de deuses procriando com fêmeas humanas representa as poderosas crenças religiosas e culturais sobre a sexualidade. Histórias familiares deste tipo derivam de sociedade dominadas por homens, o que significa que eles legitimam desejos masculinos de reprodutividade: homens poderosos não apenas querem controlar a valiosa mercadoria da fertilidade femina, eles deveriam. Deuses mandam e moldam isto. E eles prescrevem punições para aqueles – tipicamente mulheres, que violam a ordem própria das coisas.

As miraculosas histórias de concepção que listei talvez tenham raízes na pré-história, em religiões antigas centradas na adoração de estrelas e o ciclo agrícola, mas elas emergiram de maneira moderna na Idade do Ferro. Nessa época, a maioria das mulheres era um bem. Como crianças, animais e escravos, elas eram literalmente posses dos homens e seu valor primário econômico e espiritual estava na sua habilidade de produzir uma prole pura de linhagem conhecida. Os homens nos níveis mais altos tinham concubinas e haréns, e mulheres virgens eram contadas entre os expólios da guerra. (Veja, por exemplo, no velho testamento a história da virgem Midianites em que Yahweh comanda os israelitas a matarem as mulheres “usadas” mas manter as virgens para si próprios).

Era também um tempo onde deuses escolhiam os favoritos e metiam-se nos negócios das tribos e nações, e grandes homens eram nascidos grandes. Não é de se surpreender então que tantos homens poderosos reivindicaram paternidades poderosas. Na tradição dos antigos Hebreus, isso tomou como forma uma obsessão com linhagem e pureza,com linhas de sangue favoritas. Escritos da bíblia hebraica traçam a genealogia do Rei David de volta a Abraão, por exemplo, e a genealogia de Abrão ao primeiro homem, Adão. Nos mundos Grego e Romano, alegações de direito vinham na forma de designações sobrenaturais de paternidade a figura públicas. A tradição Cristã, de uma maneira desajeitada, tenta alegar ambos estes – traçando a linhagem de Jesus ao seu pai José até Rei David enquanto simultaneamente negando que ele tinha um pai humano.

Esse é contexto para as miraculosas histórias de concepção e, neste contexto, o consentimento de uma mulher é irrelevante. Em uma sociedade que ameaça a sexualidade feminina como uma posse masculina, o único consenso que pode ser violado é o consenso do dono de uma mulher, o homem com direitos a capacidade reprodutiva dela – tipicamente seu pai, noivo ou marido. Muitos cristãos ficam surpresos quando são ditos que em qualquer lugar da Bíblia, seja no Velho Testamento ou no Novo, não existe nenhum escritor que diga que o consentimento de uma mulher é necessário ou mesmo desejável antes do sexo.

Essa omissão é mais do que lamentável, é trágica. Dois mil anos depois de textos Hebreus e Aramaicos serem reunidos na moderna Bíblia Judaica, 1600 anos depois de o comitê dos Católicos Romanos votar nos livros que ficariam dentro ou fora da Bíblia Cristã, 1400 anos depois de Muhammad ter escrito o Corão (que desenha-se de maneira bastante semelhante a moral estebelecida nas tradições Judaico-Cristãs), nós ainda batalhamos com a questão do consenso feminino. Nossa luta é tornada imensuradamente mais difícil pela presença de textos antigos que tornaram-se ídolos modernos, textos que colocam o nome de Deus nos desejos dos homens.

O exemplo mais extremo pode ser um documento publicado pelo Estado Islâmico, colocando regras para o tratamento de escravas sexuais, regras retiraradas do Corão. Com maior proximidade com os americanos está a estranha mas difundida existência de líderes cristãos que ensinam que a glória da mulher está em carregar um filho e que uma mulher que o falha em servir seu marido sempre que ele deseja está falhando em servir a Deus.

Mas ainda mais próximo de casa para muitos está a prevalência chocante em campus colegiais ou na grande sociedade da manipulação sexual e coerção perpetuada por homens que de outras maneiras, parecem moralmente intactos. Um não pode evitar ao notar a existência de um grande número de casos de alto perfil envolvendo homens de alto status: membros de fraternidade, atores famosos, locutores de rádio, astros de futebol (de grandes ou pequenos times), atletas profissionais – homens, que em outras palavras, acreditam que são deuses. Estes homens estão tão convencidos de suas qualidades endeusantes que acreditam que o objeto de sua atenção deve querer – e se ela não quiser, bom, isso está bem também porque quando um deus quer uma mulher consenso não é realmente parte da história.

Pornô de quem? Feminismo de quem?

*Texto original de 2013, em inglês por Maya Shlayen: http://www.fairobserver.com/region/north_america/whose-porn-whose-femnism/ *Tradução livre feita por Maria V.


Nos anos recentes, uma onda conhecida como “pornô feminista” ganhou visibilidade. Incluindo filmes e até mesmo uma cerimônia anual chamada de “Feminist Porn Awards”, um número cada vez maior de mulheres abraça a ideia de que a pornografia, se feita corretamente, é compatível com o feminismo. Mentiras sobre feministas anti-pornô – de que estamos “na cama” com a direita religiosa (não estamos), de que esnobamos as mulheres na pornografia (não esnobamos), ou que nós apoiamos a censura (também não) – pintaram um quadro do movimento feminista anti-pornô como algo rígido, fora de época e anti-sexo.  Feministas que defendem a pornografia afirmam estarem desafiando a conduta tradicional do sexo, pavimentando o caminho para que todos possam explorar sua sexualidade de um jeito novo e desafiador.

Fundo do Poço

Perdido nos empáticos “hurrahs!” sobre liberdade e empoderamento está qualquer discussão honesta sobre o que acontece na pornografia, como as mulheres entram nisso ou como isso impacta a vida das mulheres fora da indústria. “Eu nunca conheci nenhuma mulher que tivesse uma carreira profissional e a tenha deixado para ir para a pornografia só pelo divertimento” fala Vanessa Belmond, uma veterna da indústria que se transformou em uma ativista anti-pornografia. “Muitas entraram por desespero financeiro. Muitas também foram abusadas na infância. Eu tinha uma colega de quarto que estava nas ruas se prostituindo desde os 14 anos, e daí até a época que ela fez 18 anos e entrou para a pornografia era tudo o que ela conhecia.” Que as mulheres que estão na pornografia estão lá geralmente por falta de opções é um fato bem conhecido – um que até mesmo feministas pró-pornô não negam. Num documentário chamado “After Porn Ends” (Depois que a pornografia acabar) a apologista da pornografia Nina Hartley admite: “Elas não sabem fazer outra coisa. Elas não sabem como trabalhar com vendas, como fazer uma planilha no Excel. Muitas pessoas no entretenimento adulto…não estão preparadas para um trabalho das 9h as 17h.” Ao invés de perguntar por que algumas mulheres estão tão marginalizadas, feministas pró-pornô parecem felizes em deixar essas mulheres onde elas estão: no fundo do poço.

Algo Individual

Começando no governo de Tatcher e Reagan – dominando a época de 1980 e continuando até hoje, o crescimento do feminismo pró-pornô tem acompanhado uma mudança geral no feminismo, em que o individualismo substituiu o que antes era uma luta coletiva. Numa afirmação típica, Jennifer Baumgardner escreveu em 2000: “Feminismo é algo individual para cada feminista”. É como se cada escolha que uma mulher faz fosse feminista, simplesmente porque ela a faz. O fato de que a “escolha” dela talvez tenha sido limitada pelo sexismo, racismo ou outras estruturas sociais é convenientemente ignorado, e o impacto que a escolha dela pode ter em outras mulheres nunca é questionado. Mas estruturas sociais desiguais de fato existem, e elas limitam as escolhas e alternativas disponíveis para as mulheres. No Canadá e nos EUA, mulheres continuam ganhando de 25 a 30% menos que os homens. Como todas as médias, este número está sujeito a variações, para que a classe média e alta de mulheres brancas receba mais (em termos absolutos e em relação aos homens brancos) do que as mulheres de cor, por exemplo. Para uma mulher branca instruída que pode bancar a produção da própria pornografia e escrever livros sobre quão “empoderador” tudo isso é, a diferença nos salários pode ser deixada de lado como uma mera inconveniência. Para uma mulher de cor sem educação superior, como Vanessa Belmond, essa diferença salarial pode significar ter que vender seu corpo x trabalhar longas horas para sobreviver. “Eu achei que seria glamoroso e excitante estar na pornografia” Belmond explica. “Eu achei que seria esse estilo de vida emocionante. Eu li livros sobre pornô, tipo biografias, e eu pensei que se eu conseguisse evitar algumas coisas ruins, eu faria todo esse dinheiro. Mas como praticamente toda mulher na pornografia, eu saí sem nada. E agora minhas fotos e vídeos estão na internet para sempre, para todos verem e para a indústria continuar fazendo dinheiro disso”. Impensável Para mulheres mais jovens que cresceram com a internet, se opor a toda pornografia parece impensável. Nós crescemos em um ambiente tão saturado de pornografia que nós mal podemos imaginar sexo sem ela. Para mulheres de todas as idades, aprender a amar e aceitar seu corpo é um desafio. Através da história, sociedades dominadas por homens frequentemente forçaram regras rígidas sobre o sexo. As punições por quebrar essa regras tem frequentemente recaído desproporcionalmente sob as mulheres, efetivamente tornando impossível para que nós façamos sexo nos nossos próprios termos. Sem dúvida a ideia de um “pornô feminista” apela para nosso desejo por um gosto de liberdade sexual. Mas pode a “liberdade sexual” ser reduzida a mais sexo, não importam as circunstâncias? “Eu cheirava cocaína ocasionalmente, mas o que eu mais usava era o álcool. Depois disso eu entrei na onda dos remédios para dor – estes remédios são muito populares na indústria, especialmente para as mulheres que fazem bastantes cenas de sexo anal. E eu fumava muita maconha também. Eu não teria como ter feito pornografia de outro jeito. Você não consegue fazer esse tipo de coisa sóbria”, Vanessa Belmond lembra. Este não é um quadro de mulheres sexualmente libertas. É, de fato, o quadro de uma mulher que deve deitar e pensar sobre a Inglaterra pra conseguir “aguentar” o sexo. Aquelas que denunciam o feminismo anti-pornô como “puritano” tem ignorado o fato de que Pornógrafos fazem exatamente a mesma coisa que os puritanos fizeram: negar as mulheres a auto-determinação sexual.

A escrita da mulher escrava sexual

A palavra “pornografia” vem do Grego porne, que significa “mulher escrava sexual” e grafos que significa escrita. Na Grécia Antiga, porne se referia à classe mais baixa de prostituas, considerada vil, indigna e que estava lá para ser usada. A palavra “pornografia” literalmente se refere a “representação de mulheres como prostitutas vis”. Se a pornografia frequentemente se coloca como representando o sexo neutralmente é só porque já existe e é amplamente divulgada uma percepção do corpo das mulheres como indigno e disponível para o uso e abuso masculino. A violência na pornografia pode ser extrema e a misoginia, o ódio a mulheres mostrado nos vídeos não podia ser mais comum. É esta fusão de crueldade com sexo que define a pornografia como gênero. E é a razão pela qual a pornografia é tão efetiva em mudar a atitude dos homens em relação às mulheres e ao sexo para pior. Em um estudo inicial conduzido pelo psicólogo Neil Malamuth, homens saudáveis sem histórico criminal foram expostos a 10 minutos de pornografia “hard core”. Depois da exposição, foi pedido a eles que respondessem questões como se “havia alguma vez que uma mulher “merecia” ou gostava do estupro”. Os homens que haviam assistido pornografia esmagadoramente concordaram com os mitos sobre estupro, de uma maneira que não ocorreu com o grupo de controle. Incontáveis estudos desde então mostraram que a exposição à pornografia dessensibiliza os homens para a violência contra a mulher, frequentemente moldando sua sexualidade de uma maneira que os torne incapazes de ter experiências de excitação sem algum elemento de dominação ou violência. A evidência tem sido tão condenadora que, em determinados períodos, universidades tem recusado a permissão de uma pesquisa mais profunda no tópico. Quando um estudo mostra efeitos danosos que não podem ser revertidos, os comitês de ética vão frequentemente recusar que estudos similares continuem. Isso tem acontecido repetidamente com pesquisas sobre os efeitos da pornografia. Na verdade, Ed Donnerstein, um pesquisador da Universidade do Arizona, conclui: “Bons colegas meus argumentariam que a relação entre pornografia, agressão subsequente e mudanças em atitudes para com mulheres são muito mais fortes estatisticamente que a relação entre fumar e câncer de pulmão.” O Santuário para Famílias, um abrigo para mulheres abusadas e suas crianças em Nova York, é um dos muitos abrigos para mulheres que falou sobre o efeito da pornografia em mulheres agredidas. Uma advogada que trabalha no abrigo, Amairis Peña-Chavez, explica: “Em mais ou menos 70% dos casos de abuso sexual com as minhas clientes, a pornografia estava envolvida. Ou o homem está assistindo e quer recriar aquilo ou ele está a fazendo assistir e então querendo filmar e ter seu próprio filme”. Outra advogada trabalhando no Santuário para Famílias, Hilary Sunghee Seo, enfatiza: “Este é um padrão que estas mulheres acham particularmente degradante e humilhante…faz elas ficarem vermelhas, chorarem, ficarem paralisadas quando contam essas histórias”. O que terá que acontecer para que essas mulheres se tornem importantes para um movimento “feminista” que supostamente deveria estar lutando pela vida delas? O quão alto uma mulher deve gritar para ser ouvida?

Limites da Representação Sexual

“Pornô feminista” é um conceito estranho. Por definição implica que outros tipos de pornô não são feministas, mesmo com feministas pró-pornô tendo passado décadas afirmando, e ainda afirmam que não existe nada de errado com a pornografia em geral. Seria isso finalmente uma admissão de que há algo de podre no estado da pornolândia? O “Feminist Porn Awards”, uma cerimônia de premiação que ocorre em Toronto, lista três critérios que podem qualificar um filme como “feminista” – uma mulher/ ou pessoa tradicionalmente marginalizada teve uma mão na produção, na direção, no roteiro, etc; o filme representa genuinamente o prazer feminino; expande os limites da representação sexual no filme; e desafia estereótipos que são encontrados com frequência na pornografia “comum”. Como o “pornô feminista” expande os limites da representação sexual não está claro dado que os nominados ao prêmio de 2012 incluíam títulos como “Puta Submissa” e “Babes em Bondage 4”. Mas uma mulher ter participação na direção, roteiro ou produção de um filme? Por esse padrão, até alguns filmes comuns da pornografia poderiam ser considerados “feministas”. Na verdade, a introdução de “The Feminist Porn Book” (O Livro Feminista do Pornô) deixa claro que: “O pornô feminista também é produzido dentro da indústria adulta comum, por feministas cujo trabalho recebe fundos e são distribuídos por grandes companhias como a Vivid Entertainment, Adam and Eve, e Evil Angel Productions.” Mesmo se “pornô feminista” significasse apenas pequenos estúdios, independentes, fazendo pornografia queer, isso não teria a mínima chance de atenuar o mal feito por uma indústria misógina de 100 bilhões dólares por ano. Mas os ditos “pornógrafos feministas” associando-se com a indústria mainstream mostra sobre o que tudo isso é: dinheiro.

Definições de liberdade

Nenhuma pergunta radical está sendo perguntada sobre o sexo – como, por exemplo, porque nós precisamos de pornografia em primeiro lugar? Apesar de prazer sexual ser saudável e desejável, alguém realmente está intitulado a comprar o corpo de alguém para sexo (em pessoa ou via vídeo)? Ao invés feministas pró-pornô definem “igualdade” como “oportunidade igual de exploração” procurando dar (na maioria das vezes para mulheres brancas e de classe média) o direito de lucrar com o sofrimento alheio tanto quanto homens hoje lucram dele. Mulheres como Vanessa Belmond – aquelas que são feridas no fazer da pornografia, ou como um resultado dela – estão notadamente ausentes dessa definição de liberdade. “Eu só desejo que os consumidores parem com isso de: “Bom, ela escolheu estar lá, então não preciso me sentir culpado assistindo”. Belmond implora, “Sim, eu sei que escolhi estar ali, eu sei que outras mulheres escolheram. Mas muitas dessas mulheres foram abusadas horrivelmente quando eram mais novas, passaram por muita coisa e tem os problemas com drogas…só porque elas fizeram a escolha não significa que é OK assistir sua dor.” Desde que deixou a indústria, Belmond está trabalhando muitas horas recebendo salário mínimo para mal viver. AntiPornography.org, uma organização de direitos humanos na qual ela trabalha como voluntária, tem ajudado ela o tanto quanto pode. No futuro, Belmond fala que gostaria de trabalhar como Diretora de Alcance a Juventude e a Indústria do Sexo (uma posição paga pela qual eles estão buscando fundos) para ajudar outras mulheres a sair da indústria. No meio tempo, quantas outras mulheres terão suas dores, suas feridas transformadas em entretenimento para os outros? Quantas mulheres serão estupradas e agredidas em parte porque seus parceiros aprenderam sobre sexo com pornografia, da representação das mulheres como putas vis? E o que vai precisar para que feministas pró-pornô se importem? Feministas precisam reabrir o debate sobre pornografia – não como um assunto teórico, mas como o assunto de vida ou morte que na realidade é. A maioria de nós não são sobreviventes da indústria; nós não sofremos as feridas específicas. Mas como mulheres, todas nós vivemos no mesmo sistema sexista. Cada uma de nós é moldada por e sofre pelo menos alguma consequência disso. Se nós nos recusarmos a parar uma indústria que machuca mulheres para entretenimento público, então estamos nos recusando a parar o próprio sexismo. Quaisquer soluções que inventarmos devem funcionar para mulheres como Vanessa Belmond, ou então elas não funcionarão para nenhuma de nós.

Fontes:

http://www.antipornography.org/ex-porn-star-vanessa-belmond.html

http://www.imdb.com/title/tt1291547/

http://www.payequity.gov.on.ca/en/about/pubs/genderwage/wagegap.php http://www.forbes.com/sites/meghancasserly/2013/02/14/gender-pay-gap-wider-2012-and-its-great-for-women/ http://www.infoplease.com/ipa/A0882775.html

http://www1.umn.edu/aurora/pdf/ResearchOnPornography.pdf

http://www.sanctuaryforfamilies.org/

Porque consentimento não é o suficiente

*Texto escrito originalmente e em inglês por C.K. Egbert, disponível em: http://feministcurrent.com/9211/why-consent-is-not-enough/

*Tradução livre por Maria V.


“Consenso é o pó de fada mágico que transforma estupro em sexo e abuso sexualizado, tortura e subjugação em libertação sexual – pelo menos é o que alguns dizem. Muitas feministas “sex positive” reconhecem que o entendimento legal de consentimento (definido como uma falta de resistência ativa) é problemático: é culpabilizante, normaliza a agressão sexual masculina, desenha uma linha arbitrária entre quanta coerção é “de mais” (geralmente não permite coerção física, mas deixa passar coerção social, emocional e econômica) e é irrelevante se a mulher quer se envolver em uma atividade sexual ou apenas se submete a ela.

Para muitos, valorizar a individualide através da permissão para que persigamos nossas preferências pessoais e determinemos por nós mesmos como vivemos é central para a dignidade humana, e é por isso que o consentimento é usado como a linha divisória entre sexo e violência sexual. Mas são as minhas preferências expressões da minha individualidade? Se você foi criado em uma cultura ocidental industrializada e te dessem baratas pra jantar, você provavelmente ficaria com nojo, possivelmente passaria mal. Não tem nada de natural nesta reação afinal baratas são comestíveis e nutritivas. Isto é, mesmo uma reação visceral pode ser, e geralmente é, condicionada socialmente ou criada.

As feministas argumentam que gênero e sexualidade são socialmente construídos, e especificamente que a masculinidade é construída em termos de dominação social e sexual e a feminidade em termos de submissão social e sexual. Nós podemos ver como isso se manifesta nas nossas normas sexuais e sociais: coagir mulheres é sexy, mulheres são mercadorias a serem usadas pelos homens, machucar mulheres é sexy. Essa construção social da nossa identidade é possível porque nossa concepção de nós mesmos bem como nossos desejos e preferências são condicionados e construídos através de interações interpessoais e do nosso ambiente social. Nós nos tornamos quem somos através de como os outros nos tratam, e tem numerosas maneiras bem documentadas demonstrando que normais sociais moldam quem somos e o que fazemos: estereótipos, profecias que se cumprem, preconceito e preferências adaptativas.

Preferências adaptativas, particularmente, mostram ser um problema para a ideia de que perseguir quaisquer preferências pessoais expressa nosso status de seres livres e iguais. Preferências adaptativas surgem quando nós inconscientemente mudamos nossas preferências para que elas se adaptem as nossas circunstancias. As mulheres frequentemente não sentem que tem direito a igualdade para com homens, a integridade corporal, ao prazer sexual ou mesmo a necessidades básicas como comida suficiente porque elas foram colocadas em uma situação onde estas coisas não estão disponíveis a elas ou são sistematicamente negadas a elas. Mas existe um outro, e ainda mais mortal fator psicológico: as mulheres frequentemente não compreendem o abuso que sofrem nas mãos dos homens como abuso (e é por isso que boa parte da “segunda-onda” se foca na criação de consciência).

Jennifer Freyd é uma psicóloga que estudou a repressão de memórias de abuso infantil. Ela argumenta que seres humanos são programados a reagir com o mecanismo de “luta ou fuga” quando são traídos. Porém, em relações onde existe dependência ou desequilíbrio de poder, a pessoa subordinada para de ter consciência do abuso porque ela não tem a opção de “luta ou fuga”. Se adicionarmos a isso o fato de que mulheres são invalidadas ou são sujeitos de vários graus de violência social quando não se conformam as normas do gênero, nós temos um problema sério com a dita “escolha individual”.

Problemas com Consentimento

Rosalind Hursthouse uma vez disse que se alguém lesse toda a literatura sobre ética do aborto, essa pessoa não teria nenhuma ideia de como a gravidez de fato é ou que ela envolve homens fazendo sexo com mulheres. Similarmente, discussões pró-BDSM ou pró-pornografia tendem a se focar nas escolhas das mulheres, não na ação dos homens ou nas experiências de mulheres que se feriram com estas práticas. Eles dizem as mulheres que é sexualmente libertador experienciar abuso físico ou sexual desde que ela “escolha” isso, mas eles nunca se perguntam porque é aceitável que homens inflijam dor ou machuquem mulheres. Em fazer isso eles frequentemente ignoram, invalidam e silenciam mulheres que já foram feridas por estas práticas e normas enquanto endossam a erotização da violência através da defesa do “consenso”.

Consenso baseia-se na presunção que pessoas escolhem pensando nos seus próprios interesses ou pelo menos em maneiras que fundamentalmente não violam sua humanidade. Como demonstrado no caso de preferências adaptativas, isso é simplesmente falso. Mas existe um problema ainda mais fundo: consentimento impede a avaliação política ou ética do ato e ao invés coloca a “culpa” do ato na pessoa que o sofre (a pessoa sendo abusada). Nos defender é extremamente difícil na melhor das circunstâncias, visto que é exaustivo emocionalmente e o desejo por pertencimento pessoal frequentemente passa por cima da autoproteção básica: mesmo, ou talvez, especialmente, homens brancos estão sujeitos a rituais sádicos em trotes da faculdade, grupos de amigos, equipes esportivas ou no exército. Quando mulheres são ensinadas que são objetos para serem machucados ou usados, isto se torna ainda mais difícil. Nós nunca devemos colocar alguém na posição de exigir respeito; isso cria um peso emocional, social e moral na pessoa que está sujeita a um possível abuso ou comportamento de exploração ao invés de no perpetuador da ação.

Um outro problema surge quando consideramos quanta violência o “consenso” pode legitimar. Se o consenso deve ter tal poder transformador, quando o pó de fada para de funcionar? O quanto de dor, dano e lesão são aceitáveis que sejam causadas em uma pessoa para que não sejam mais justificáveis? Em casos de lesões permanentes e mutilações? Assassinato consensual é aceitável? Feministas “sex-positive” e apoiadores de BDSM tem o problema de arbitrariamente determinar o quanto de violência é aceitável antes de se tornar “de mais” (soa mais como a maneira que o patriarcado determina arbitrariamente o quanto de coerção é aceitável antes de ser “de mais”. Hmm…) Nós não podemos pressupor que as pessoas iram simplesmente não consentir a algo danoso, mulheres tem “consentido” a morte quando um aborto poderia facilmente ter salvo suas vidas.

Mas ativistas do BDSM tem um problema em particular. Mesmo enquanto eles se entendem como “o padrão de ouro” do consentimento, não é o consenso que é erotizado: é precisamente a coerção (“bondage”, a sujeição, a dominação) e a violência (o abuso físico, o sexo “selvagem”) que são sexy. Um homem que estupra, tortura e escraviza mulheres tem uma reclamação genuína contra ativistas do BDSM que condenam suas atitudes: como eles podem dizer que o que eles fez é errado quando ele estava simplesmente fazendo o que eles falaram que era sexy?

Talvez eles digam que ele deveria ter obtido o consentimento da vítima anteriormente (mas é uma pergunta aberta se coerção emocional, desequilíbrio de poder ou, por exemplo, convencer uma mulher com baixa autoestima de que ela merece ser abusada contam como consentimento). Todos, as feministas pró-sexo argumentam, deveriam ter o tipo de sexo que desejam – mesmo que isso envolva machucar outra pessoa, desde que seja “consensual”. Vamos ver se esse de fato seria o caso.

Suponha que nós tenhamos um mundo em que definimos consenso como ativo, explícito e contínuo. Em adição, vamos presumir que temos um sistema legal confiável e que lida de forma adequada com casos de abuso sexual. Porém nós vamos manter as outras normas sociais e sexuais intactas (normalização da dor, erotização da violência, e instrumentalização das mulheres). Nesse mundo, Alice é uma fêmea heterossexual que quer a intimidade física e emocional de um relacionamento romântico. Ela não quer participar de nenhuma atividade sexual que seja dolorosa ou degradante para ela; ao invés disso ela quer que o sexo seja mutualmente prazeroso. Quais são as opções dela?

  1. Encontrar um homem que não tenha preferência por erotização da violência. Isso vai ser extremamente difícil porque homens foram socializados dentro de normas que treinam as respostas sexuais dos homens para situações em que a mulher é objetificada e machucada. Já que não machucar mulheres é uma mera preferência não existe nenhuma motivação para homens não teres estas respostas ou para que se preocupem para que sexo seja consensual.
  2. Nunca transar ou se envolver romanticamente com um homem.
  3. Se habituar as normais sexuais-sociais.

Eu não estou dizendo que existe uma dívida relacional para com Alice. Mas é Alice coagida? A resposta é sim, pois é negada a ela uma oportunidade igual de buscar uma relação que satisfaça suas necessidades de intimidade emocional e física. Se nós requerêssemos, por exemplo, que todas as pessoas negras primeiramente sofressem um abuso físico antes de poderem conseguir um diploma universitário, isso claramente seria injusto. Similarmente, uma relação sexual ou emocional para Alice – algo que as pessoas frequentemente pensam que é uma necessidade humana genuína ou pelo menos um benefício pessoal importante – vem a um custo que homens não têm que pagar, e o custo é seu sofrimento e o risco de sua integridade física. Alice não seria mais coagida se ela se habituasse a participar de comportamentos sexuais dolorosos ou degradantes para conseguir a intimidade que ela deseja? Parece que isso é uma forma ainda maior de coerção; uma coerção que se torna tão impregnada, arraigada que ela não consegue mais ver ela mesma como qualquer outra coisa além de merecedora de dor e abuso.

E é isso precisamente que acontece. Consenso é vulnerável a defesa “Wal-mart”: um entendimento robusto de consentimento talvez seja capaz de lidar com certos tipos de coerção em pequena escala, mas uma vez que a coerção se torna tão profunda e universal que constitui a norma social ela de repente se torna “grande demais para falhar” (expressão usada no capitalismo quando uma empresa, mesmo em tempos de crise, é salva devido a sua importância, sua interconectividade). Consenso turva, ao invés de atacar, uma das raízes da causa da desigualdade de gênero: que machucar mulheres é sexy.

Respondendo Objeções

“Você não pode fazer as pessoas se sentirem envergonhadas por suas preferências ou orientações sexuais”

Primeiro, eu já coloquei que preferências são frequentemente condicionadas socialmente. Segundo, o mero fato de ter uma preferência, uma orientação ou identidade não carrega nenhum peso. Nós podemos e devemos fazer críticas sobre o conteúdo de preferências e identidades. Algumas pessoas se identificam fortemente como supremacistas brancos ou neo-nazis. Alguns consideram que sua orientação sexual envolve pedofília, estupro ou assassinato. O fato de eles considerarem estas coisas como orientações sexuais não torna pedofília, estupro ou assassinato aceitáveis.

“Você não fala por todas as mulheres. Estas mulheres não enxergam isso como prejudicial”

Eu não nego que mulheres talvez genuinamente sintam que dor e subjugação são sexy. Isso é precisamente por que fomentar consciência é um componente necessário do projeto de política feminista. Como feminista, eu posso validar a experiência de uma mulher sem endossar o conteúdo, que foi moldado por condições de desigualdade. Por exemplo, eu não nego que mulheres sentem vergonha dos seus corpos e sentem a necessidade de serem impossivelmente magras, mas eu não apoio que elas devam sentir vergonha dos seus corpos ou que elas devam passar fome.

Dano não é subjetivo e não pode ser meramente um produto dos sentimentos de alguém. Primeiro porque nós sabemos que pessoas, devido a socialização, invalidação e desigualdade não estão sempre conscientes de que dano é dano. Segundo, porque nós não diríamos, por exemplo, que homens sofrem “danos” se eles não podem transar com qualquer mulher que quiserem ou que Cristãos sofrem “danos” por causa da homossexualidade – mesmo que muitas claramente sintam-se dessa forma.

“Você está negando as mulheres sua agência em não valorizando suas escolhas individuais”

Nunca é uma questão de agência de uma mulher. Em um nível trivial e metafísico, nós sempre somos livres para escolher o que fazemos a menos que estejamos inconscientes, sobre o efeito de alucinógenos ou fisicamente inválidos. Eu não estou julgando ou argumentando contra o que mulheres estão escolhendo quando elas “consentem” mas o que homens (e algumas mulheres) escolhem fazer com elas. O que é importante são as normas sociais, práticas e condições que tornam aquela escolha possível. Prostituição não poderia ser uma escolha se não houvesse demanda e se nós não pensássemos que pessoas fossem coisas que podem ser vendidas e compradas.

“E se nós fizéssemos pornografia com homens no papel submisso?”

Equiparar violências não cria condições iguais. Nós não resolvemos o problema de desigualdade racial fazendo com que a polícia prenda e viole as liberdades civis de um número igual de pessoas brancas; nós erradicamos a desigualdade através da erradicação de condições de subordinação e criando mudança material e positiva que de fato valorize todas as pessoas como livres e iguais.”

Feminismo “sex-positive” está fazendo o trabalho do patriarcado

*Texto escrito originalmente e em inglês por Glosswitch (exceto as notas explicativas), disponível em: http://www.newstatesman.com/lifestyle/2014/03/sex-positive-feminism-doing-patriarchys-work-it

*Tradução livre por Maria V.

Nota 1: Feminismo “Sex Positive” pode ser entendido como o que acredita que o sexo é libertador e empoderador para a condição feminina.

Nota 2: “Slutshaming” é a prática de culpabilizar uma mulher pelo exercício de sua sexualidade.


Feminismo pode ser aterrorizador para qualquer mulher que tenha crescido sob o regime do patriarcado. Você está acostumada a uma lista de regras fixa e específica: seja passiva, se submeta aos outros, respeite a autoridade masculina, tema a violência masculina, nunca transgrida. É sombrio, mas pelo menos você sabe onde você está. Então vem o feminismo e estas certezas somem, ou pelo menos esse costumava ser o caso. Mas as coisas são diferentes agora.

Existia um tempo em que a própria palavra “feminista” era transgressora. Nos dias de hoje as pessoas raramente se opõem a ela. Existe uma ironia amarga no fato de que “mas eu sou feminista” tenha se tornado uma das frases pelas quais a dominância masculina pode ser positivamente reforçada. “Mas eu sou feminista e não me incomoda a objetificação/ o trabalho não remunerado/ o assédio sexual/ ser chamada de puta!” A implicação é que completamos o círculo. O feminismo trabalhou todos os seus assuntos e objetivos e se deu conta de que os adultos estavam certos o tempo inteiro. Todas aquelas coisas que costumávamos chamar de opressivas? Nós estamos totalmente de boa com elas agora.

E então chegamos ao feminismo “sex-positive”¹ – aquele feminismo que, por sua própria existência, sugere que todos os outros tipos de feminismo são para miseráveis, conservadoras e moralistas que só precisam de uma boa foda (de preferência PIV). Estou certa que, inicialmente, as intenções eram boas; não é o sexo, mas sim o contexto da interação sexual sob o patriarcado, que precisa ser desafiado, e a retórica feminista nem sempre fez esta distinção.

Mesmo assim, sejam quais forem os fatores motivadores, nós chegamos a um ponto onde o feminismo “sex-positive” está fazendo o trabalho do patriarcado por ele. Todas aquelas meninas boas que cresceram temerosas de quebrarem as regras? Elas descobriram um jeito de fazer exatamente o que é exigido delas sem reconhecer o impacto que isso tem nas outras. Todos os antigos estereótipos estão vivos e passando bem, e eles estão sendo apoiados por virgens ideológicas dizendo-se vadias.

Deve ser possível criticar as políticas de gênero da prostituição sem ser diagnosticada como “putafobica”. Deve ser possível questionar a objetificação por trás da Página 3 (parte do tablóide britânico The Sun, que consiste em uma grande fotografia de uma modelo topless normalmente publicado na terceira página do jornal) sem ser vista como fazendo “slut-shaming”². Deve ser possível se mostrar contra assédio nas ruas sem ficar implícito que você é classista, ingênua e sexualmente reprimida. Deve ser possível ter visões diferentes no status legal da prostituição sem ser considerada pior que clientes abusivos e estupradores. Porém, não é mais possível fazer qualquer uma destas coisas devido a um fenômeno que não é nem “sex-positive” nem “feminismo”, mas que se considera assim. Na verdade é uma merda sexista, apresentando comportamento sexual puramente em termos de fornecimento feminino e demanda masculina.

O pensamento subjacente por trás do feminismo “sex-positive” é conservador e sem imaginação, temendo um vazio sexual caso o patriarcado deixe vago o espaço que atualmente ocupa. E, porém a verdade é que aquelas que questionam a objetificação não tem medo de sexo. Elas não são as frescas, puritanas sonhadas pelos misóginos e por feministas “sex-positive”. Elas estão apenas levando a “positividade” do sexo um passo a frente, através do reconhecimento de que as escolhas de ninguém são feitas no vácuo, mas que todos precisam ser respeitados como um indivíduo sexual autônomo. Isso inclui você, mas inclui a mim também e inclui bilhões de outras. É aqui que as coisas se complicam. Não é tudo sobre você. Não é tudo sobre mim também. Nós precisamos de um mundo que acomode nossas diferenças, mas criar isso requere uma mudança fundamental em todo contexto das escolhas sexuais.

Sejamos claras: o feminismo está aí para ralar com o patriarcado. Não está aí para bajular e ser apologético. Não está aí para ensinar mulheres a lidar com a vida de submissas. Não está aí para promover uma reposta alegre e tranquila para assédio verbal na rua, para uma língua forçada na garganta, para um agarro indesejado ou estupro. E se você está pensando “tudo isso soa como um julgamento” eu entendo. Eu sei que palavras como “patriarcado” e “dominância masculina” fazem as pessoas se sentirem desconfortáveis (eu chamaria de feminismofobia se já não fosse hora de pararmos de patologizar a discórdia). Eu sei que algumas mulheres tem um medo profundo de como o feminismo poderia mudar seu panorama sexual. Apoiar algo que seja em última análise para todas e todos – mas não especificamente para você – é difícil, mas feminismo não é sobre usar palavras de maneira errônea (empoderamento, escolha, liberdade) para tapar as coisas que nós não queremos ver. Nós estamos aqui para derrubar o edifício, não para pintar as paredes.

Eu não me julgo pela minha história sexual e comportamento atual. Eu não julgo outras mulheres pelos delas. Mas eu de fato julgo o contexto dentro do qual nossa sexualidade está colocada e eu acho este contexto deficiente. Eu não espero que você concorde, mas eu espero que você permita estes julgamentos de serem ditos, de terem voz, afinal sem um processo assim não pode haver mudança. No artigo “Taming the Shrew? Choice feminism and the fear of politics”, Michaele L Ferguson descreve como nosso medo de um feminismo politizado significa que cortamos a análise estrutural, descartando qualquer forma de julgamento como ataque pessoal:
“[Choice feminism] enganosamente sugere que já que escolhas são individuais, elas não têm nenhuma consequência social; mulheres então estão livres da responsabilidade de considerar as implicações mais amplas de suas decisões. […] Consequentemente, o “choice feminism” é radicalmente despolitizado: ele nos desencoraja a ter críticas sobre o valor de diferentes escolhas, nos desencoraja de prestar contas das escolhas que fazemos, encerra a discussão crítica sobre quais escolhas deveriam ser valorizadas e quais escolhas são meras ilusões, ele inclui de forma acrítica o consumismo, e o que é mais problemático para o futuro do feminismo, ele dissuade mulheres de serem ativas na política […]”

Se nós não podemos questionar as escolhas, nós não podemos questionar o patriarcado ou qualquer uma das outras hierarquias que se interseccionam. Sem contexto estamos perdidas. Nós precisamos do espaço para explorar que outras possibilidades podem estar abertas para nós.
Tal exploração não nos torna intolerantes, “putafobicas” ou puritanas. Assim como não nos torna pessoas que nunca erram. Nos torna pessoas que continuam a questionar, tanto em termos teóricos quanto práticos. Nos torna pessoas que estão dispostas a se sujar e fazer as coisas acontecerem. Significa que independente de nossas experiências sexuais, do nosso passado e escolhas, nós não somos puras.

Mas eu não quero ser pura, ou estar sempre certa. Eu não quero ter todas as escolhas consideradas no vácuo, hermeticamente fechadas e com falta de ar. Eu não quero que meu direito de foder esteja condicionado a outras pessoas estarem se fodendo. Tem que haver um jeito melhor que esse.